A ideia que ficou na mente de algumas pessoas foi a de eu estar com problemas conjugais. Mas, felizmente, estou muito longe disso. Até vos convido a lerem a homenagem que fiz ao meu marido, pai dos meus filhos, no meu blogue Canto do Ego, no Dia do Pai.
O meu problema é uma depressão, que vem de um cancro e dos seus derivados, sendo que o principal derivado é o afastamento dos meus amigos da adolescência, por não aguentarem a minha exposição através da escrita, nomeadamente a minha necessidade de debater pormenores da vida e a minha queda para fazer retratos de tipos de pessoas e comportamentos de subserviência perante as imposições da sociedade. Grosso modo.
Falo de um grupo de pessoas bastante grande, no qual há vários cruzamentos familiares, funcionando todos como se pertencessem a uma família só. Um clã!
Eu estou fisicamente afastada do clã há 12 anos, mas o afastamento real começou a acontecer um ano antes do cancro, quando divulguei o meu primeiro blogue e fui mal acolhida. Foi um afastamento gradual e houve várias tentativas para que ele não se concretizasse, mas, provavelmente por existência de fortes convicções contrárias entre mim e uma das pessoas do clã, não se conseguiu resolver a questão, até que, há pouco tempo, recebi um email em que estava escrito: "A nossa amizade termina aqui". E eu não consegui dizer mais nada.
A verdade é que por Viseu não investi muito nas novas amizades, possíveis sobretudo entre colegas das nossas escolas, porque a "nossa malta" sempre foi o nosso reduto e nós continuávamos a ir a Lisboa e eles a virem cá. Mas agora, que me incompatibilizei com um dos elementos do grupo, tenho sentido o silêncio de todos e estou atrapalhadíssima com a situação, pois os meus filhos são primos de alguns da geração mais nova, e toda essa geração funciona como se todos fossem realmente primos. Estou aflita, a achar que há escolhas que eu não tenho o direito de fazer, porque (ainda) condicionam os relacionamentos preferenciais dos meus filhos. Ou seja, não me considero livre de cortar relações com os amigos, pois os meus amigos (e amigos do meu marido) são pais de primos e espécies de primos dos nossos filhos.
Mas as relações estão cortadas, neste momento. E até já não vai haver as tradicionais férias no mesmo aldeamento (30 e tal passoas, embora cada família nuclear em sua casa).
O meu marido está do meu lado, mas eu ainda tenho em 'interregno' o meu blogue Noves Fora Um, onde tinha começado a contar a minha história de cancro. Parei de escrever por perceber que feria susceptibilidades, mas sinto-lhe imenso a falta. E tenho um problema: já não consigo escrever em papel e viciei-me na escrita em blogues. O Word já não me satisfaz - porque ninguém vai ver. Parece que quanto mais só me sinto, mais necessidade de exposição tenho!... Mas a exposição só me traz retorno de algumas pessoas que me conhecem pouco ou feito de palavras triviais e de circunstância, do tipo "Bom Natal".
O meu marido está do meu lado e é o melhor marido que conheço, mas ele e os filhos maravilhosos que temos não me bastam nesta vida. São as pessoas mais importantes, sem dúvida, mas preciso de sentir que sou pessoa para o resto dos meus conhecimentos, como fui até há poucos anos.
A minha circunstância de baixa prolongada também não ajuda, pois não trabalhar significa afastamento dos colegas de trabalho. E tudo isto significa solidão. E também impotência, pois a entrada gradual no trabalho, depois dos tratamentos duros contra o cancro e depois das cirurgias ter-me-ia ajudado ao ponto de eu já estar a trabalhar a 100%. Assim, estou ainda de baixa, encostada como um jarrão velho e feio, sem préstimo.
Quando vos digo que já nem mulher me sinto, refiro-me ao problema que tive com a reconstrução da mama, ao aumento de peso, ao tipo de lingerie que passei a usar, ao desinteresse por ver-me ao espelho...
Mas nada disto é acusado pelo meu marido, que é um homem invulgaríssimo na capacidade de adaptação a qualquer situação e que eu sei que me ama e nada se importa com estas questões que estou para aqui a expor.
Mas eu sou uma pessoa. E estou perdida de mim! Há muito! E não consigo encontrar-me, por muito que o marido se esforce, e tem esforçado.
Se há alguma coisa a dizer da minha relação conjugal é que ela é invulgarmente saudável, apesar de eu estar doente.
Escrevi este texto, porque o Pedro não merece que pensem dele nada de negativo (antes pelo contrário) e pareceu-me possível que alguém pensasse isso, após a conclusão de que eu estaria com problemas conjugais.
