Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!


Por aqui, discorre-se sobre:

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riscos marcantes

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No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Nos Intervalos da Quimio (II - Semana a Semana)

(Alerto para o facto de este ser um relato do meu caso, podendo haver reacções muito distintas das minhas)

Na semana um, há intolerância a odores e sabores, náuseas e vómitos. É difícil encontrar algo que se consiga comer. Se bem me lembro, eu só me dei bem com morangos (sem açúcar) e cerejas, com peixe grelhado, brócolos, courgete e ovos escalfados. Mas o problema é que é preciso variar a alimentação, se realmente quisermos prevenir problemas para a sessão seguinte...
Não me dei nada bem foi com as lavagens de dentes, até uma amiga me recomendar "Kin", um dentífico cujo único e ligeiro sabor é o do flúor. Por essa altura, é também preciso prevenir a secura de todas as mucosas (narinas, gengivas, lábios, ânus, vagina) e as suas consequências - comichão, tosse, aftas, gengivas sangrentas, lábios rebentados, dor de garganta.
A seguir ao primeiro ciclo, cheguei a ter os lábios todos rebentados e as gengivas bem inflamadas, pois não tive esclarecimento suficiente sobre a utilização de uma solução trazida do IPO, que se mistura com Mycostatin, para se bochechar e engolir, depois da higiene oral. Nos ciclos seguintes, esse problema já foi minorado.
A primeira semana é aquela em que as nossas defesas vão diminuindo de dia para dia, sendo a segunda uma semana em que nos mantemos em baixo. Os distúrbios gastrointestinais revelam-se logo na primeira e mantêm-se, ainda que tendam a ser minorados graças à ingestão de sopas e aos três litros de água por dia. Falo de obstipação muito severa, com formação de verdadeiras pequenas pedras, que se colam umas às outras - uma das consequências que mais dificilmente aguentei, pior ainda que as sensações de enfartamento, má disposição gástrica e azia.

Na semana dois, devemos ser particularmente cuidadosas com o frio, as correntes de ar, as mudanças de temperatura e tudo o que nos possa constipar ou engripar, pois o nosso organismo está realmente fraco em defesas. Andar ou não na rua deve ser decidido em função das condições atmosféricas. É a semana da extrema fadiga, das dores nas pernas e nos braços, da vontade de dormir o mais possível - para não sentir, embora a dor nas zonas operadas atrapalhe o próprio sono. É a semana em que nos devemos obrigar a uma alimentação adequada à manutenção das forças.

Na semana três, apesar de muito daquilo que já foi revelado se manter, é verdade que cada novo dia traz uma sensação de melhoria e o ânimo vai-se multiplicando. Mas, no fim desta semana de sorrisos cada vez mais largos, estamos no dia de mais uma entrada de venenos, sem apelo nem agravo. E dá-se um fenómeno de repetição quase integral das consequências já experimentadas.

E cada ciclo é sempre pior do que o anterior, pelo conhecimento de causa e pelo sofrimento acumulado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Nos Intervalos da Quimioterapia (I - O Choque)

Seis sessões (ou ciclos) multiplicadas por três semanas de intervalo entre elas, contando com as que se seguiram à última, perfazem um período de tratamento por quimioterapia de quatro meses e meio.
No meu caso, tínhamos (o meu marido e eu) sido informados de que o número de ciclos a enfrentar por mim seria o quatro. Mas no dia da consulta de radioterapia (coincidente com o do quarto ciclo), fomos confrontados com o facto de algo estar errado no meu processo, pois, uma vez que ainda me faltava cumprir dois ciclos de quimio, não era altura de eu já estar na consulta de radioterapia.

Como foi possível um engano destes, com consulta marcada pelo pessoal do hospital e tudo, é algo que eu nunca cheguei a saber, mas sei que se anulou a consulta de rádio, a qual incluía uma TAC, e sei que nesse dia se cumpriu o quarto ciclo, comigo em esforço desumano para não chorar... muito. Não consegui decidir se fui acometida por uma brusca sensação de desânimo, por afinal eu não ter ido para a última sessão (como estava convencida de que seria), se senti uma forte indignação, por ter acontecido um erro tão cruel para uma doente oncológica, se foi mesmo raiva, por me sentir subestimada (não sei por quem!), estando eu a portar-me tão bem, desde o início de todo o processo, a aceitar a doença como algo que me aconteceu a mim como a tantas outras, atenta, sempre atenta e cumpridora...
É que os intervalos da quimio não são propriamente dias de férias passados com boa disposição e requerem alguns cuidados específicos, para que o resultado das análises seguintes não impossibilite o tratamento subsequente.
As três semanas de intervalo têm características diferentes, como relatarei no próximo post.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Os Dias da Quimio


Foram seis os dias da minha quimioterapia, no IPO de Lisboa. E, a separá-los, houve sempre três semanas.
Para que todos os líquidos venenosos que deviam entrar em mim tivessem a sua tarefa cumprida era preciso um mísero período de tempo de hora e meia. Mas este tempo, sentada num cadeirão de uma sala "forrada" de cadeirões idênticos, ultrapassava sempre as doze horas, contado desde a hora do acordar, em Viseu, até à do deitar, de novo em Viseu.
Três horas antes de cada sessão, era preciso estar no Pavilhão de Medicina, para fazer análises ao sangue, e o resultado dessas análises determinava se o ciclo desse dia se cumpriria ou não. No meu caso, tive a felicidade de nunca ser enviada de volta, com vista a recuperar o necessário para enfrentar uma nova dose. Contudo, relativamente à hora marcada para o tratamento, tive quase sempre esperas de duas e três horas, ao fim das quais eu tinha os nervos em franja e chegava ao Hospital de Dia sem saber se tinha fome, se era vontade de fazer xixi, se estava com frio... Sentia um desconforto do tamanho do mundo e esforçava-me, com sucesso, por não deixar sair as lágrimas que me comichavam os cantos dos olhos.
Seguia-se o espetar da agulha, o que, a maior parte das vezes não resultou à primeira, chegando a deixar marcas do massacre de um bico que esteve espetado por baixo da pele do meu braço (ou da minha mão), em movimento insistente de procura do que não encontrava - a veia.
Chegada ao ponto da colocação do adesivo, para segurar, tive ciclos em que a agulha ficou bem colocada e a principal dificuldade era ter de aguentar hora e meia com o braço gelado; mas houve outros de hora e meia de tormento, porque a agulha ficou a picar-me ("mas estava tudo a entrar bem...").
Durante essa hora e meia, era permitido ler, ver televisão, ouvir música com auscultadores, mas eu não tinha vontade de absolutamente nada. E ia reparando na azáfama da equipa de enfermagem, nas dificuldades em espetar as agulhas aos outros doentes (chegamos a um ponto em que as veias já não respondem... e as minhas tinham de ser sempre procuradas no braço esquerdo, pois o meu braço direito é um braço a poupar, devido à mastectomia), reparava nas carecas, nas boinas, nas cabeleiras... E também em quem estava acompanhado (a maioria) e em quem não estava. E imaginava de que sofreria cada uma daquelas pessoas (de cancro, claro, mas de quê e em que estádio...).
Os enfermeiros não conversavam connosco. Tudo se passava de um jeito mecânico, de quem arranja agora um carro e o despacha, para, logo a seguir, quase sem respirar, arranjar outro.
Quando o tratamento calhava num dia a seguir a um feriado, a concentração de doentes era muito maior e o tempo de espera muito doloroso. (Se há turnos em enfermagem, porque é que não havia tratamentos nos feriados?)
Acabada a minha gelada hora e meia, eu e o meu marido, que esteve sempre ao meu lado, despedíamo-nos da equipa de enfermagem, até daí a três semanas. E iniciávamos a viagem para Viseu, enquanto eu telefonava para casa, para calcularem a hora da nossa chegada.
No primeiro ciclo, a entrada em casa coincidiu com o cheiro a carne grelhada, amavelmente preparada pela minha mãe, para me agradar. E eu senti o primeiro vómito.
Nesse dia, houve várias tentativas para que eu jantasse (porque eu até tinha fome), mas tudo me parecia doce, excessivamente doce, até o sumo de laranja, que a minha mãe garantiu ser de laranjas amargas.
Dois ciclos depois, a minha mãe descobriu uma refeição que não me enjoava: courgete estufada com tomate e ovos escalfados.
Tomava uns comprimidos para enjoos, cujo nome não recordo agora, que terão feito o seu efeito, mas, como sempre os tomei, não tenho termo de comparação entre o enjoo prevenido e aquele que o não é.
O que acontecia nos intervalos da quimio escreverei um dia destes.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A água lava tudo; leva tudo na frente!














Enquanto fiz quimioterapia, precisei de beber três litros de água por dia (A água lava tudo - disse-me o médico -, leva tudo na frente.)
Pessoa pouco dada a beber água, três litros pareceu-me uma meta impossível de atingir, até pelo número de vezes que isso me obrigaria a ir vertê-la!
No início, tinha duas garrafas de litro e meio, que, começando a beber logo ao acordar, teriam de ficar vazias ao deitar. Mas eu não dava mesmo conta do recado. Começou por me sobrar litro e meio e eu tinha passado o dia na casa de banho... Perguntei ao médico se litro e meio não chegava. (Nem pensar! O veneno tinha de ser diluído em água e empurrado para fora do organismo - depois de cumprida a sua função!)
Decidi então ir ao hipermercado com o específico propósito de desvendar os mistérios da secção das águas. 'Mistérios' para mim, claro, que sempre bebi água da torneira e pouca. Fiquei fascinada: ele há várias dezenas de marcas e um vasto número de tamanhos dos recipientes, bem como águas sem e com sabor. E quanto aos sabores, um sem-fim! Escolhi garrafas de meio litro e águas com sabores variados, e enchi o porta-bagagens.
Seis garrafas por dia passou a ser a conta que eu precisava de ingerir. Dispunha-as de manhã num tabuleiro, o qual, à ida para a cama, tinha de ficar vazio. Também não consegui o objectivo logo nos primeiros dias, mas, sendo algumas das águas mesmo bastante agradáveis, em duas vezes eu conseguia beber uma garrafa, o que começou a entusiasmar-me. Livrei-me do fantasma da garrafa de litro e meio. E cheguei mesmo a beber a conta que me era devida, sem, com isso, duplicar o número de idas ao WC...
Apenas os primeiros três ou quatro dias das três semanas de intervalo entre um ciclo e outro eram dias em que não tolerava os sabores na água, e a da torneira também não chamava por mim. De modo que investi em água do Luso, da Serra de Estrela e outras, para essas ocasiões.
Sem muita água, eu não teria, também, conseguido resolver uma das mais difíceis consequências da quimioterapia: a obstipação severa. Momentos de horror, mesmo!
Hoje, não bebo três litros, mas acho que chego ao litro e meio. Para a vida.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Depois do Segundo Ciclo, a Alopécia


Um dos frascos dos vários venenos que me entraram na veia por seis vezes continha um líquido vermelho que, entre outras arrelias que provocava, fazia cair o cabelo.
Três dias depois da segunda sessão, iniciou-se em mim um processo de alopécia, que aguentei durante cinco dias. Depois disso, num sábado à tarde, reuni a família para colaborar na minha sessão de corte radical do cabelo.
Fiz o que me aconselharam - rapei -, pois já iam ficando cabelos em todos os lugares da casa, em todos os centímetros das minhas roupas e, sobretudo, na minha almofada.
Fiz do corte uma sessão fotográfica em que a modelo ia ficando com o cabelo cada vez mais curto, facto que ia sendo registado na retina, na memória, na máquina digital...
Depois das muitas tesouradas, tentando penteados estilosos, cheguei a um ponto em que os meus filhos me acharam parecida com a professora de guitarra (que usa o cabelo muito curtinho), e essa comparação animou-me, pois ela até fica bem engraçada com aquele penteado. Pior foi depois de ter usado a máquina com o pente quatro, pois, nesse estado, os meus sinceros piolhos já me acharam parecida com um homem. E depois do pente zero, tiraram-me a foto que aqui se vê (é a primeira da minha careca) e perguntaram se eu ia andar assim na rua.
Claro que não andei assim na rua. Era Março em Viseu e o frio entrava-me pela cabeça.
Já tinha comprado uma cabeleira em Lisboa, já a tinha levado ao cabeleireiro, para ele a cortar ao jeito do meu cabelo, e experimentei sair com ela. Foi uma vez. Parecia uma "dondoca" e o frio entrava-me pelos buracos da rede que aquilo tem por dentro. Portanto, no dia seguinte, comprei a primeira de muitas boinas giraças e assim andei sempre, quer ao frio, quer ao calor, enquanto o cabelo não cresceu a ponto de se poder dizer que já tinha a cabeça coberta de pêlo...
Falta dizer que, na mesma data do meu corte, o meu marido rapou também o cabelo e ficámos ambos carecas.



Claro que o cabelo dele ia crescendo e as minhas pequeninas pontinhas até caíram todas. Portanto, ele optou por, de tempos a tempos, chegar a lâmina à cabeça (com a minha ajuda), para não me ultrapassar na cobertura do escalpe.
Hoje já tenho o cabelo comprido, de novo aos caracóis, que dão um certo trabalho, enquanto a careca era um descanso...