Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!


Por aqui, discorre-se sobre:

... Acompanhamento Psicológico Ajudar quem Ajuda Alertas Alimentação Alopécia Antes e Depois Aquisições autoestima Brincadeira Cancro da Mama nos Homens Cansaço Chamar os bois pelos nomes Cirurgias Cirurgias de Amigas Codependência Coisificação nas Doenças Prolongadas Complicações Pós-operatórias Consultas Conviver Cumplicidade Dar / Receber a Notícia Desafios Desânimo Desejos Desespero Despedida Diagnóstico Dicas Dieta Distinções Efeitos Secundários de Medicação Emagrecer Encontros de Amigas Esclarecimento Esperança Estilo de Vida Estímulos Exteriores Exames Pré-operatórios Exemplos Famosos Com Cancro Feminilidade Filosofia de Vida Pós Doença Fisioterapia Fracassos Gang da Mama histerectomia Histórias de Luta Hormonoterapia Hospitalizações Humor Implicações Psicológicas Incongruências Informação Lingerie Correta Lingerie Pós-Operatória Medos Meios Complementares de Diagnóstico Meios de Diagnóstico Menopausa Depois do Cancro da Mama Modos de ser Mudanças na Vida Natal Nova Normalidade Novas Amizades Novidades O Cancro em Pormenores O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças; efeitos secundários da medicação Ocupação em Tempo de Baixa Os cancros dos amigos e familiares Palavras Alheias a Propósito do Propósito Parabéns Partilhar a Doença Perdas Pós-cirurgia Pós-operatórios Prazer em encontrar quem nos entende Prazeres Prevenção Prevenção de Recidivas Processo de Recuperação Projetos de Sensibilização Quimioterapia Radioterapia Rastreio do Cancro da Mama Reações Alheias Reações Pessoais Reconstrução Mamária Regresso à normalidade Regresso ao Trabalho Sentimentos negativos Sexualidade Sinais Sintomas Solidão Tamoxifeno Terapias Toque Tram Flap Tratamentos Verdade Verdadinha Vitórias Vontade de ter poder sobre a doença

riscos marcantes

riscos marcantes

NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Inveja é a Pior das Misérias Humanas!

Anteontem e ontem, recebi muitos mimos, que ajudaram a atenuar, pelo menos por momentos, o meu sentimento de frustração profissional e as minhas dores físicas e psicológicas advindas das várias tentativas cirúrgicas para reposição da minha integridade física pré-cancro.
Quero, portanto, agradecer a quem se sentiu impelido para me mimar, apesar de eu não me ter exposto em busca do mimo, mas sim em nome da partilha de problemas existenciais, com a qual tenho aprendido muito e que me tem feito muito bem.
Apetece-me, contudo, lamentar ("quem não se sente não é filho de boa gente"...) o facto de, a páginas tantas, me terem lançado as seguintes questões retóricas: "Mas não estás viva ? E não tens marido e quatro filhos, para amar e ser amada?" E eu imaginei logo a possibilidade de virem outras, ainda mais mesquinhas, do género: "Mas não tens casa e carro?" Ou "Mas não tens televisão e net?" Como se, na vida, nada do que se passa connosco nos devesse entristecer, por já termos algo que muitos outros não têm e gostariam de ter, ou, apenas, algo que já não é nada mau ter !... Para isto, mais valia o silêncio - foi o que senti. E logo percebi a inveja, que já tantas vezes me bateu à porta, não só por ter quatro filhos e marido, mas, especialmente, por ser muito feliz com eles. Há quem o evidencie de formas saudáveis, até dizendo francamente que eu sou uma sortuda e que também gostavam de ter quatro filhos, que coisa gira... E eu sinto-me saudavelmente orgulhosa por ser mãe de uma turminha maravilhosa, que, contudo e felizmente, não é o mesmo que ter em casa quatro jarrões de enfeite, ou seja, fico com a ideia de que há pessoas que não conseguem avaliar o que é criar quatro filhos (especialmente nos tempos que correm, pois a minha avó teve bastantes mais e tudo lhe foi, se não mais fácil, pelo menos, menos estressante.
Ora, recapitulemos, sintetizando opiniões alheias: por estar viva e ter marido e quatro filhos, eu já não devo sentir-me triste por ter tido um cancro, que originou já seis cirurgias em três anos, não tendo ainda o bisturi dado mostras de se ter quedado, para não mais me tocar...
Ora bem, a inveja nem é dos filhos e marido que eu tenho (embora isso contribua para o ponto de rebuçado...), nem é das cirurgias que me retalharam o corpo. A inveja é das atenções que eu granjeio, por uma e outra razões, e que tal gente queria mesmo era que eu não tivesse, pelo que tenta que eu deixe de ter, menosprezando os meus sentimentos, numa ânsia de encontrar opiniões concordantes...!
Como se não bastasse, houve ainda quem se tenha incomodado com o meu lamento por haver tantos falantes e escreventes da língua portuguesa que não o fazem de forma correta simplesmente por não darem valor à língua e serem de opinião que, desde que nos entendamos, qualquer forma de uso da língua (correta ou não) serve perfeitamente, e, na primeira oportunidade, tenha procurado provar a minha ignorância e manifestar a sua superioridade. Eu não queria meter-me em novelas, por isso fui apenas até ao ponto de ficar claro que não deixo os meus créditos por mãos alheias, muito concretamente quando alguém que se assume como muito conhecedora de causa até só já está é a meter os pés pelas mãos e, quanto mais alega, mais se enterra. Depois disso, retirei-me e não volto!
Os invejosos que arranjem maneira de lidar com as suas invejas, se por acaso é a mim que invejam, pois troco meu não haverá mais. Ficarão a falar sozinhos, até se enxergarem. E, se não enxergarem, pior para eles, pois da pior das misérias humanas não estarão a libertar-se!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Cancro e A Nutrição

Clica aqui:
Prevenção, Sinais, sintomas, meios de diagnóstico,
dicas e receitas, histórias de coragem

Depois, vão clicando no que aparece. É capaz de ajudar!

Boa sorte!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011



O VASO PARTIDO

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e impercetivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

...

Sully Proudhomme

(Tradução de Guilherme de Almeida)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Vá lá, malta: palpação e mamografia!

Não gostas de fazer autopalpação? Pede ao teu companheiro...
Vá lá, nem imaginas aquilo de que podes livrar-te!...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Não há limites quando há amor! Isso é para quem não se ama!

Na sequência do post anterior e
respetivos comentários






















Não consigo ficar indiferente ao facto de saber que existem pessoas que acham que o meu marido me atura apenas porque é uma pessoa extremamente boa e não ia deixar-me nunca.

Realmente, ninguém é de ferro! Nem eu, caramba!

Algumas dessas pessoas o que sentem é inveja do meu casamento saudável; outras nunca devem ter gostado muito de mim... Azar o delas (desculpem-me a secura)!

É que nós amamo-nos, que diabo!


domingo, 9 de outubro de 2011

"Tudo tem um limite" - disse ela!


Entre uma consulta e outra, em dias consecutivos, ela quis saber da minha saúde, naquela conversa de circunstância que sempre acontece nos sofás das salas de visitas.
Fui pormenorizando os últimos episódios do meu infortúnio, ainda tão pesado para mim e já a caminho dos quatro anos, e ela, temendo que algo de semelhante aconteça ao Pedro, encontrou ensejo para me pedir que o convença a ir ao médico e a fazer exames, pois já sabemos que, mesmo não havendo queixas, pode passar-se algo de errado com a saúde das pessoas.
Claro que eu concordei com a necessidade de todos nos vigiarmos, mas esclareci que ele nunca foi de ir ao médico sem queixas, acrescentando que, neste momento, coitado, deve estar a ficar farto de médicos, por já tantas vezes me ter acompanhado, nesta luta já longa - apesar de ele nunca ter dado o mínimo sinal de cansaço desse tipo!
E foi então que lhe saiu:
- Pois tens mesmo de contar com isso, porque tudo tem um limite.
E eu fiquei petrificada. Não sei se toda a gente tem noção do que é sentir uma pancada seca no estômago. Eu já a confirmei e reconfirmei muitas vezes. Mas nunca consigo falar, por mais experiente que seja. E é disso que muita gente me acusa. De não falar, mas, depois, escrever. Eu diria que faço o que posso, aquilo que consigo, e que o faço para me libertar da carga. E que, se há quem não consiga escrever, mas parta a loiça toda a falar, eu sou ao contrário. Mas terei menos direito de existir por isso?!...
"Tudo tem um limite"! E aqui o 'tudo' referia-se à capacidade de o meu marido aguentar ser o companheiro de uma mulher com problemas de saúde, por tanto tempo. Eu teria, portanto, de contar que ele se fartasse...
Eu poderia ter retorquido que nos casámos com intenção de aguentarmos juntos o bom e o mau, até que a morte nos separe, e que ainda pensamos assim, pois nos amamos hoje ainda mais do que no dia em que nos prometemos..., mas talvez não o tenha feito por, no fundo, perceber que, se o fizesse, a conversa acabaria por chegar ao divergente conceito de 'limite', que ali se anunciara, e eu já tenho chatices mais do que suficientes para me sentir derrubada pelo mundo...
Mas também poderia ter concordado, desviando habilmente (talvez dando a entender ter percebido mal) a questão para o meu lado, até porque tenho razões de sobra para sentir que os meus problemas já passam do limite aceitável para quem os sofre na pele! Mas também não fui por aí... Apenas fiquei, mais uma vez, a interrogar-me, em silêncio, sobre a razão de não gostarem de mim!...

sábado, 8 de outubro de 2011

É tudo junto!

Juntou-se o regresso ao trabalho, após quatro anos de interregno, com a complicação abdominal pós tram flap, e com o, obviamente simultâneo, regresso às aulas dos quatro filhos, após o verão, e, mais ainda, com os 30 e tal graus atmosféricos, pouco habituais nesta época do ano, agravados, para a sensibilidade do meu corpo fragilizado, pelos afrontamentos sucessivos, que me fazem escorrer água da cabeça aos pés muitas vezes ao dia, como resultado da minha menopausa forçada e repentina. E conta ainda o peso da minha mama nova, consideravelmente maior do que a sua congénere, à espera, durante meses, de se moldar, por si, ao corpo em que foi implantada, para que se possa reduzir, aquando da futura formação de aréola e mamilo. Como conta também o facto de eu não conhecer ainda muitos dos colegas e o de a escola ser outra, o que afasta muito a minha situação de um regresso àquilo que deixei. Volto a trabalhar como professora, sim, mas a maioria daquilo que encontro é completamente diferente da maioria daquilo a que me habituei durante oito anos letivos seguidos. Não regresso a casa, de todo. E é certo que eu já considerava a minha escola como sendo a minha segunda casa...
Tudo o que me dava estabilidade se foi. E estou, aos 47 anos, a viver uma situação de novata no local de trabalho (25 anos depois de me ter estreado como professora) e até de novata no sistema, que sofreu inúmeras alterações enquanto estive ausente, sentindo-me ainda bem pior do que se de uma novata eu me tratasse, pois de mim espera-se experiência, savoir faire, capacidade de gestão do trabalho, e a frescura e a descontração aliadas a tudo isso.
Há quatro anos, eu sentia-me perfeitamente integrada, tinha já muitas provas dadas e era respeitada como profissional competente; agora, sou uma colega que anda há três anos a tentar levar um ano letivo adiante, mas nunca faz mais do que um mês, após o que contribui para a instabilidade da escola, que tem de gerir o processo da sua substituição, com tudo aquilo que ele acarreta. Há quatro anos, era uma professora da casa; agora, sou uma espécie de aleijada, que precisava de alguma ajuda para levar a sua vida profissional em frente, mas, como não tem mau aspeto (tem apenas mais doze quilos do que antes!...), não é levada a sério na sua necessidade específica e acaba por não receber qualquer ajuda (trabalhar sempre na mesma sala seria importante...).
Não há nada na lei que proteja o regresso ao trabalho de um doente oncológico, mas há vários tipos de doenças oncológicas, como há vários tipos de cancro da mama, como cada caso é um caso e cada pessoa é um ser diferente dos seres que são as outras pessoas. E algo que existe, de facto, é uma coisa chamada "autonomia das escolas", a qual tem permitido situações vantajosas do arco da velha, para pessoas não necessitadas, mas a mim nunca permitiu nada... Ou, melhor, permitiu o meu arrastanço no tempo de baixa, vivido em casa, sofrendo de solidão e em permanente acumulação de sensações de falhanço e de despréstimo.
Eu sei que era boa profissional! Mas sei também que já não acredito nas pessoas e que isso me retira a vontade de primar pelo profissionalismo, sendo que tal esforço agrava ainda mais o meu mal estar físico!
Para ajudar à minha "festa", há ainda os nódulos que descobri em mim há cerca de duas semanas, um na mama nova e outro numa virilha, os quais estão ainda longe de ser esclarecidos...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tudo isto é cancro!

Invento, diariamente, forças e sorrisos, quer para trabalhar na escola e em casa, quer para me manter presente e ativa nos tempos de lazer da família. Mas não sei até quando, pois o cansaço é extremo, por razões várias e sem que haja alguém para me acudir... Até porque há tanta gente que teve cancro há pouco tempo e já anda feliz da vida, a trabalhar e com uma genica invejável!!!... :(
São muitas as vezes em que me apetece desistir de tudo!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Quilogramas de Tratamento!



















ANTES e DEPOIS
de muitos tratamentos
para prevenir uma recidiva,
quando ainda faltam
dois anos de Tamoxifeno,
diariamente...
HAJA SEMPRE SORRISO!...

sábado, 1 de outubro de 2011

OUTUBRO ROSA


PARA QUE NUNCA TE SEJA PENOSO VERES-TE REFLETIDA NUM ESPELHO, PREVINE-TE!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Naquele dia, tremeram-me as pernas...

Estávamos a 9 de setembro. Era o segundo dia do meu trabalho na escola, quatro anos depois de eu ter iniciado o ano letivo em que adoeci. Na véspera, o cirurgião que me operou em julho fizera-me os buracos que se veem na fotografia, tirada pelo meu marido. Furou-me com uma tesoura. A sangre frio. Fê-la entrar na totalidade na minha barriga, deixando apenas as "orelhas" de fora, e foi escarafunchando o meu interior com aquilo, enquanto, com a outra mão, me carregava no abdómen, para fazer sair a gordura desvitalizada (como ele lhe chamou), algo muitíssimo parecido com mostarda, tanto na cor como na consistência.
Levantei-me com tempo para me arranjar e estar na escola às 10:30h, hora do conselho de turma. Mas, quando, finalmente, consegui estar pronta e olhei para o relógio, eram 10:25h.
Não fui! Como ainda me tremiam as pernas, deitei-me na cama, ainda por fazer, e aninhei-me por baixo dos panos, deixando as lágrimas correrem... E senti-me uma azarada. Era a terceira vez que regressava à escola, depois do cancro. Iria ser o terceiro falhanço?
Deixei-me adormecer e já passava do meio dia quando acordei. Coloquei a mão no penso que, a tanto custo, eu conseguira fazer sobre os buracos a jorrarem sangue, e pareceu-me seco. Esquecia-me de que usara pensos impermeáveis...
Na casa de banho, vi, à transparência do penso refletido no espelho, que a compressa estava suja. Temi a repetição da experiência matinal e resolvi não lhe mexer.
Estava destroçada. Ter faltado à reunião soava-me a dado suficiente para os meus colegas comentarem que mais uma vez eu não iria conseguir. Parecia-me ouvi-los.
Desci as escadas, de olhos molhados, e surpreendi-me por encarar com o Miguel. Esquecera-me de que os mais novos tinham ficado em casa. Ele perguntou-me se eu precisava de alguma coisa e eu pedi-lhe um copo de água grande com dois pacotes de açúcar. E, quando eu lho devolvi, depois de ter bebido o preparado, sorrimos um para o outro.
Era hora de atacar de novo o penso, uma vez que ficara mais calma. A compressa saiu cheia, mas os buracos já não verteram, como de manhã. E lá fiz eu um penso novo, dessa vez deitada, essencialmente por medo de voltar a sentir as pernas a tremer...

Hoje, dia 26, os buracos estão fechados, há cerca de uma semana. Deixaram de drenar e fecharam. Mas ao longo da cicatriz há um grande inchaço, como se eu tivesse uma boia na barriga. E doi-me, e arde, e limita-me os movimentos, e já fez aparecer na virilha um gânglio, que me assustou, hoje quando acordei, mas em que já estou a pensar como reação do organismo a um processo inflamatório. Só pode ser isso! É talvez a temida rejeição da rede... Ou não, sei lá!... Será que o meu organismo é avesso a qualquer corpo estranho? Já vai parecendo que sim!
Agora, espero por um telefonema do cirurgião, que, depois do meu contacto de ontem, ficou de me ligar hoje, para me dizer quando é que posso ir ter com ele. Só espero que não seja para tratamento semelhante ao do dia oito!...

sábado, 24 de setembro de 2011

O pior do cancro

O pior desta doença malvada é a incapacidade que muitas pessoas têm de se dirigir a quem sofre dela ou por causa dela;
o pior mesmo é a falta de palavras do mundo em redor;
o pior é sentir que ter cancro implica ter solidão;
o pior é haver tantos pormenores para discutir, mas quase ninguém para ouvir;
o pior é perceber que os outros começam a passar mais ao largo;
ou será que o pior é reconhecer a falta de sensibilidade alheia?
Não. Pior, pior é ter de admitir que outros não toleram o facto de o doente oncológico lhes poder roubar atenções e, por isso, fazerem tudo para que ele não as tenha!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Porque é que não perguntam?!...


Eu teria dado anos da minha vida,
para nunca me tocarem com um bisturi!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Coragem que Sempre Temos


A coragem nem sempre se faz ouvir.
Por vezes, coragem é a voz silenciosa,
no final do dia, dizendo:
Tentarei de novo, amanhã.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Tivesse eu os poderes que interessam...

Tivesse eu os poderes que interessam... e, a ter de haver doenças e sofrimento no mundo, distribuiria a coisa de maneira bem diferente!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mamas "retalhadas" = Feminilidade posta em causa?

Acho que já sei uma boa (?) razão para as minhas amigas e os meus amigos em nada ligados ao cancro da mama (porque ter uma amiga que o vive(u) não é suficiente para eles se interessarem pelo assunto...) não visitarem este blogue, que eu divulguei, logo à sua nascença, a quem gostaria que o visitasse: é que eu falo de mamas como quem fala de pés calejados!
E a sensualidade que lhes é inerente, e o símbolo sexual que são?! Nada disso aqui é tratado?!
Ai não que não é!!!...
Todos sabem, com certeza, que o valor que damos a tudo na vida é muito maior quando algo ou alguém nos falta ou quando algo não está a funcionar na perfeição, com a melhor aparência, etc. É, portanto, este blogue, uma espécie de tratado sobre uma importante das facetas da sensualidade! Quantas vezes fica(ou) uma dúzia de peças de vestuário desarrumado, num monte por cima da arca do quarto, porque nada me ajuda(va) a compor o ar feminino que qualquer mulher tem direito de querer aparentar...
Felizmente, o meu marido, para além de ter acesso ao que aqui publico, também tem acesso às minhas mamas!!!...
A nossa feminilidade é muito mais posta em causa por quem nunca viu as nossas mamas em processo do que pelos nossos companheiros, que continuam sempre a olhar para elas com desejo de as acariciarem!
Não estou, obviamente, a fazer uma generalização, mas sei que muitas amigas se incluem neste meu grupo...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

'Rezas e Crenças' Versus 'Palavras de Cumplicidade' Barra 'Destino'

Fui educada no seio de uma família católica praticante, fui à missa aos domingos, no Natal, na Páscoa..., desde pequena até deixar o CNE (Corpo Nacional de Escutas), quando já era casada, pela Igreja, e já perfizera 30 anos de vida, e os meus quatro filhos foram todos batizados.
Todavia, a entrada na minha quinta década de existência, que, à partida, me prometia (pelo que se ouve dizer) os melhores anos até então, aqueles em que, ainda não sendo velha, a pessoa já tem experiência de vida suficiente para aproveitar, de uma forma sábia, o facto de estar viva , trouxe-me uma catadupa de desilusões relativamente à existência, que me desnortearam durante muito tempo. Falo de quase oito anos de aprendizagens forçadas e fortuitas, as quais provocaram mudanças radicais na minha maneira de olhar, sentir e agir sobre o mundo...
As surpresas relativamente ao conhecimento de pessoas que estavam garantidas como parte de mim, o modo como os agentes da medicina desumanizam (ou não humanizam!) a relação com os seus doentes, a intolerância de imensos seres que me rodeavam relativamente a conversas sobre o assunto 'cancro', a incredulidade de alguns relativamente ao facto de eu ter tido necessidade de estar quase três anos em casa, a impetuosidade com que muita gente faz comparações, pensando que sabe do que fala, mas sem saber... E o corpo a ser mutilado, a obrigatoriedade de lidar com essa realidade (olhar e ver, resolver problemas de vestuário de todos os tipos...), as sucessivas intervenções cirúrgicas, os pós-cirúrgicos, que nunca estão resolvidos antes de, pelo menos, seis meses decorridos, a necessidade de reinventar a relação sexual...), os tratamentos, a carecada, os efeitos secundários da químio, os efeitos secundários da rádio, os azares em cinco dos seis pós-operatórios (estou ainda a viver o mais recente desses azares), os doze quilogramas a mais, provocados pela ingestão diária do medicamento que trava a produção de estrogéneos, para prevenir uma recidiva de um cancro hormonodependente... tudo isto e, talvez, muito mais, que agora não me vem à mente, contribuiu para uma "desaprendizagem" de vida, difícil de admitir e de gerir, contribuindo, também este fator, para a depressão profunda que, felizmente, já lá vai.

A doença foi encarada por mim com a naturalidade de qualquer coisa má que nos acontece e que exige o nosso empenhamento e toda a nossa disponibilidade (aquela disponibilidade que nos obriga a encararmo-nos como o centro das nossas atenções, ficando até os filhos para o plano que for possível, em função da nossa recuperação...), para ser resolvida. Nunca pensei que iria morrer, talvez até tenha sido demasiado otimista, pois, olhando para trás, percebo que devo ter pensado que, com a mastectomia e a reconstrução imediata, usando silicone, tudo ficaria resolvido - sem ignorar a eventual necessidade de químio e rádio, claro.

Nada tem sido fácil, nestes três anos. E as fases por que passei foram muitas, incluindo seis recomeços, seis vezes que me ergui de quedas, com características idênticas, mas sempre com muitas características diferentes, também.

Neste tempo, em termos de relações humanas, tive várias experiências distintas: afastamento de pessoas de sempre, tendo, algumas delas investido em novos relacionamentos, ligação virtual e, posteriormente, real, a pessoas que desconhecia, sendo que, algumas já se foram e outras ficaram, têm estado, têm sido! E, também, pessoas que dizem que têm rezado por mim, algo que, há muitos anos não faço por ninguém, nem pelos meus filhos, quando estiveram internados, nem por mim própria, em nenhuma das minhas visitas a blocos operatórios.

Há quase uma legião de tias (minhas e do meu marido), para além da mãe e da sogra (e ainda outras pessoas) que rezam por mim há muito tempo. E eu agradeço-lhes carinhosamente, sem mais pensar no assunto. Mas a verdade é que eu entro sempre descontraída no bloco (desde o dia em que sabia que me iam cortar uma mama) sem pensar em mais nada a não ser que se faça o que tem de ser feito, e recordo todos os rápidos adormecimentos resultantes das anestesias como momentos de entrada na calma absoluta. Tanto assim é, sempre, que, se por ali eu me vier a ficar algum dia, terei deixado esta vida de uma forma desejável.

Temos, portanto, que eu não temo cirurgias em si, mas, do pós cirúrgico, só gosto dos primeiros tempos, em que o sofrimento costuma ser em maior volume, mas as atenções para com o doente, quer por parte das equipas hospitalares, quer por parte das familiares (e de amigos...) são consideravelmente apreciadas por mim.

A quem me considera "menina mimada" eu até diria que, apesar de ser mimada pelos que me amam, de facto, esse não é o mimo que se obtém quando se está doente e tratam de nós, fazendo-nos aquilo que nós costumamos ter de fazer. E isso é tão bom na doença... Isso e as palavras especiais, que certas pessoas conseguem encontrar, para nos oferecerem nesses tempos duros. Especiais, mas não lamechas; especiais, mas concretas, específicas, íntimas, de quem se preocupa em saber o que mais faz falta a quem está em sofrimento.
Essas palavras especiais eu sinto profundamente e agradeço eternamente, se me as dirigirem, sinceras, quentes... As orações das tias eu também agradeço, pois é a maneira que elas têm de me demonstrar que se preocupam comigo e que me desejam tudo de bom. Todavia, não me ligo a quaisquer palavras, sejam elas orações conhecidas ou orações espontâneas, no sentido de pensar que elas têm qualquer poder para garantirem qualquer espécie de sucesso. E foi com a minha mãe, que continua a ir à missa, ao terço, às procissões... e a rezar, que aprendi isto. Disse-me ela um dia: "Se rezar desse o resultado que nós pretendemos, o meu pai não tinha morrido quando eu ainda era jovem, pois eu rezei tanto para que Deus não o levasse..."

O que se passa comigo agora é tão simples e tão duro quanto isto: Não acredito em nada nem em ninguém (quem estiver a ler isto que me perdoe, se puder), pois nada daquilo em que me ensinaram a acreditar, nem as rezas das tias, nem as palavras que me pareceram de amizade tiveram qualquer sucesso, se pensarmos no que era pretendido. Mas, para mim, isso até é lógico, pois há algo em que creio seriamente: é que a nossa hora de partida está programada, como esteve a de chegada, por muito que se possa contrapor...

Dirão, talvez, que, se assim é, é porque acredito em alguma transcendência. Acredito, sim. Mas não sei o que é, nem me preocupo com isso. Talvez até acredite só por necessidade de satisfazer a minha curiosidade permanente em conhecer as razões de tudo e mais alguma coisa, tendo de admitir que há verdades que não consigo explicar... Acredito no Destino, portanto, e que contra ele não se luta, até porque o Destino é algo desconhecido e contra o desconhecido é difícil escolher armas adequadas...

E quanto às minhas tão amadas palavras, digo que sei lá se ainda as amo! Não consigo deixar de as utilizar, mas, se é amor o que lhes tenho, já duvido muito, pois já sofri muitos dissabores à custa da maneira como interpretaram o modo como eu as usei...

Há muito pouco tempo, uma amiga disse-me que a realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós vê, interpreta os acontecimentos... Talvez ela até tenha razão. Convirá é assumir que esse postulado, se é válido para alguém, é, necessariamente, válido para toda a gente..., nomeadamente para dois observadores de determinada circunstância.

Pensemos, então, só como exemplo, na circunstância de nos cortarem uma mama! E digamos: esta realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós a vê, a sente, a interpreta, a vive!...

Curioso, não é!? Alguém pensará que a pessoa a quem levaram a mama poderá sentir este facto (se não é realidade, poderemos chamar-lhe 'facto'?!) do mesmo modo que os seus familiares, amigos, amigas, equipas médicas?! Não, pois não!? Mas deveria?! Ou é perfeitamente natural que quem mora num corpo que foi mutilado tenha uma visão desse facto consideravelmente mais sofredora do que qualquer outra pessoa, por mais chegada que seja?! E é ou não natural que precise de algum apoio extra..., nomeadamente de desabafar, e que se entristeça e se sinta sozinha e abandonada, se isso não acontecer, até porque quando esse sofrimento físico (que afeta muito a psique) não existia, essa pessoa era normalmente solicitada?!...

Rezas, crenças, palavras amigas... não são mais do que inerpretações pessoais, perspetivas individuais do que acontece ou poderá vir a acontecer! Será?!...

Já quanto a dores físicas e psicológicas sentidas pelo próprio... Bem, eu digo, já vacinada contra as pessoas que me consideram lamechas, que já sofri um bom bocado, ao ponto de me apetecer trocar o que sentia por "alguns anos de descanso eterno", como escrevi no post anterior. Mas será que isso que senti no corpo, na alma e na mente foi tudo (e ainda está a a ser) ilusão minha? A nossa vida será, afinal, uma imensa ilusão? Se o for, será para todos, não?! Ou serei eu uma ave rara?!...