
Estávamos a 9 de setembro. Era o segundo dia do meu trabalho na escola, quatro anos depois de eu ter iniciado o ano letivo em que adoeci. Na véspera, o cirurgião que me operou em julho fizera-me os buracos que se veem na fotografia, tirada pelo meu marido. Furou-me com uma tesoura. A sangre frio. Fê-la entrar na totalidade na minha barriga, deixando apenas as "orelhas" de fora, e foi escarafunchando o meu interior com aquilo, enquanto, com a outra mão, me carregava no abdómen, para fazer sair a gordura desvitalizada (como ele lhe chamou), algo muitíssimo parecido com mostarda, tanto na cor como na consistência.
Levantei-me com tempo para me arranjar e estar na escola às 10:30h, hora do conselho de turma. Mas, quando, finalmente, consegui estar pronta e olhei para o relógio, eram 10:25h.
Não fui! Como ainda me tremiam as pernas, deitei-me na cama, ainda por fazer, e aninhei-me por baixo dos panos, deixando as lágrimas correrem... E senti-me uma azarada. Era a terceira vez que regressava à escola, depois do cancro. Iria ser o terceiro falhanço?
Deixei-me adormecer e já passava do meio dia quando acordei. Coloquei a mão no penso que, a tanto custo, eu conseguira fazer sobre os buracos a jorrarem sangue, e pareceu-me seco. Esquecia-me de que usara pensos impermeáveis...
Na casa de banho, vi, à transparência do penso refletido no espelho, que a compressa estava suja. Temi a repetição da experiência matinal e resolvi não lhe mexer.
Estava destroçada. Ter faltado à reunião soava-me a dado suficiente para os meus colegas comentarem que mais uma vez eu não iria conseguir. Parecia-me ouvi-los.
Desci as escadas, de olhos molhados, e surpreendi-me por encarar com o Miguel. Esquecera-me de que os mais novos tinham ficado em casa. Ele perguntou-me se eu precisava de alguma coisa e eu pedi-lhe um copo de água grande com dois pacotes de açúcar. E, quando eu lho devolvi, depois de ter bebido o preparado, sorrimos um para o outro.
Era hora de atacar de novo o penso, uma vez que ficara mais calma. A compressa saiu cheia, mas os buracos já não verteram, como de manhã. E lá fiz eu um penso novo, dessa vez deitada, essencialmente por medo de voltar a sentir as pernas a tremer...
Hoje, dia 26, os buracos estão fechados, há cerca de uma semana. Deixaram de drenar e fecharam. Mas ao longo da cicatriz há um grande inchaço, como se eu tivesse uma boia na barriga. E doi-me, e arde, e limita-me os movimentos, e já fez aparecer na virilha um gânglio, que me assustou, hoje quando acordei, mas em que já estou a pensar como reação do organismo a um processo inflamatório. Só pode ser isso! É talvez a temida rejeição da rede... Ou não, sei lá!... Será que o meu organismo é avesso a qualquer corpo estranho? Já vai parecendo que sim!
Agora, espero por um telefonema do cirurgião, que, depois do meu contacto de ontem, ficou de me ligar hoje, para me dizer quando é que posso ir ter com ele. Só espero que não seja para tratamento semelhante ao do dia oito!...