Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

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riscos marcantes

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No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A "Coisificação" de Quem Tem Problemas de Duração Prolongada

Quem tem acompanhado, minimamente que seja, o meu percurso de doença, nos últimos quatro anos, sabe que eu me queixo de "coisificação" desde o início. Todavia, com a sucessão inesperadamente excessiva de idas à box, a sensação de ser uma máquina velha, continuamente a avariar-se, tem-se agudizado.

Como já um dia escrevi, mamas, para mim, são apenas peças a necessitarem de recauchutagem contínua. E já nem me interessa quem é que trata das coisas, se é o cirurgião A ou o B... Tanto assim é que chego, dispo-me, mostro, eles olham ou mexem ou fazem o que lhes parece necessário e falamos como quem fala de parafusos a substituir, para se poder prolongar um pouco mais o arrastanço existencial do aparelho, uma vez que as restantes peças ainda não justificam propriamente que se desista de tentar deixá-lo andar a uso.
A última vez que fui ao médico foi a 5 deste mês, cinco meses e um dia depois do Tram Flap. Queixei-me do extremo inchaço da barriga, que me provoca dor, incómodo físico e tristeza a nível estético; queixei-me da mama imensa, retirada do abdómen, que está cada vez mais descida, quanto mais não seja pela aplicação da força da gravidade...; queixei-me do meu mal-estar geral, que me impede de trabalhar e de ser feliz. Queixei-me ali, sem roupa, em frente dele, enquanto ele me ouvia e me olhava, com a postura e o ar de quem está, mais uma vez, a condescender em ouvir as mesmas queixinhas de uma doente que devia era estar feliz porque "pode ir para uma praia ou uma piscina sem medo que lhe caia alguma coisa ao chão" (ipsis verbis). E eu fiquei calada, como quase sempre fico... Em quatro anos, ainda não aprendi a responder à letra. Já não devo aprender, portanto. Mas, depois, venho para casa lamentar o que devia ter dito e não disse...

Estava eu nua (não só da cintura para cima, pois ele também tinha a minha barriga para analisar) e tocou o telefone, que ele pediu desculpa por ter de atender, mas que atendeu sem me instruir quanto a manter-me nua ou a vestir-me. E eu ali fiquei, como estava, a ouvir uma conversa que não me dizia respeito, enquanto ele ia olhando para a minha triste figura... Eu olhava para o Pedro, quase a pedir-lhe socorro, mas ele não pôde fazer nada.

No final do telefonema, mandou-me vestir, de imediato!!! E repetiu, de novo, que ainda passou muito pouco tempo sobre a operação, a qual foi uma coisa em grande ("Tem de ver que foi operada, não foi ao cinema..." - ipsis verbis) e que eu tenho de deixar passar o tempo... Acrescentou que há senhoras que ficam com uma protuberância maior e outras com uma protuberância menor (sempre abrindo bem o 'o', a ponto de eu já nem poder com a palavra!) e que eu não me posso esquecer de que tenho uma rede dentro da barriga e que o músculo abdominal já não está lá - "pormenores" de que sua excelência nem sequer me falou antes da operação, apesar de ter tido o cuidado de me perguntar vezes sem fim se eu tinha alguma dúvida... Ora digam-me lá como é que as pessoas podem ter dúvidas sem saberem a matéria?!...

Eu só soube que a minha barriga ia ficar com a sensibilidade toda afetada, quando o senti, depois da operação, e só soube que esta operação implicava a colocação de uma rede no interior do abdómen, depois de já a ter dentro de mim. Mas, agora... não me posso esquecer de que a tenho cá!!!

E quanto à mama grande, pesada (com o dobro ou mais do tamanho da outra) e descaída, tenho de ver que assim é que ele tem margem de manobra, para trabalhar na próxima operação...

O que eu "tenho de"! O que eu devo! E os meus direitos a perceber tudo o que se passa comigo? Quem é que mos satisfaz? ("Não diga mal do que está bem feito!" - e eu já não posso ouvi-lo!)

A esmagadora maioria dos profissionais de medicina que trataram de mim durante estes quatro anos é constituída por homens. Mas que saudades eu tenho de homens! Estes não são isso nem um bocadinho... Estes são técnicos, são mecânicos, são bate-chapas, são costureiros, são especialistas em ministrar produtos para tirar a ferrugem... Ou então... são umas bestas!
Qual foi o que respeitou e valorizou a minha condição de mulher? Qual foi o que me tratou como um ser dotado de sentimentos, de inseguranças, de dúvidas, de medos? Qual foi o que se preocupou com a possibilidade de eu me sentir completamente destruída como pessoa, por exposição a um massacre contínuo?

Nesta fase da minha vida, eu não sou, de facto, mais do que uma coisa, mas uma coisa que dói. E, hoje, parti para este texto depois de ter enviado uma sms ao Pedro dizendo-lhe que sinto falta de homens na minha vida, os homens amigos, os homens colegas, os homens do convívio diário, com os quais se trabalha ou se conversa sobre qualquer assunto, os homens que nos contam uma piada e que também nos mandam um piropo, de vez em quando, os homens que nos fazem sentir bem, bonitas, interessantes, os que demonstram que nos admiram, homens esses que não põem minimamente em risco a nossa relação conjugal, pois até a refrescam. Tenho saudades de contar ao Pedro os piropos que eu recebia, e de, uma vez por outra, brincarmos aos ciúmes, por isso mesmo.

Eu não sou mulher de casa! Mas estou em casa há quatro anos. Porque não consigo estar a trabalhar. O Pedro priva com homens e mulheres diariamente, e é isso que é saudável. Eu, a partir de determinada altura, liguei-me ao Gang da Mama, e isso fez-me muito bem, a vários níveis, mas nem o facto de o assunto que nos une ser quase exclusivamente um "never ending" cancro da mama, por estarem sempre a entrar pessoas no início do processo, nem o facto de o grupo ser apenas formado por mulheres têm sido benéficos para mim.

Aqui a coisa já nem para enfeitar serve (Como se isso fosse bom!...), pois já nem há quem passe por ela, quem a veja. Aqui a coisa é até uma coisa daquelas desinteressantes, sem chama, deformada e amorfa...

20 comentários:

prendas1001 disse...

Olá Guida

Mais uma vez vim ver se havia novidades, pois não a tenho encontrado e temia queque as coisas não estivessem a correr bem.
Vejo que assim é. Mas mais uma vez lhe digo que tem sido uma "MULHER" de coragem e não a pode perder, tem o seu marido e seus filhos junto de si para ajudar a dar força.
Sei que está a pensaer é bom para quem está de fora falar, mas, vamos a ter coragem. Eu Peço nas minhas orações que assim seja.
Um grande beijo.
Anabela Barroso

Guida Palhota disse...

Anabela,

Tem sido muito querida comigo. Não me esqueço de si nem de outras pessoas que me dão alento, mas dá-me para desabafar nos blogues a respeito de outras...
Um dia destes, vou escrever sobre as pessoas como a Anabela, que fazem bem aos outros sem quererem nada em troca...

Um beijo carinhoso

*___*

Maria disse...

Compreendo muito bem o que sente, Guida.
Mas ólho para as suas fotografias, leio o que escreve e penso: Que mulher bonita e inteligente. Deve ser maravilhoso ser amado por alguém assim tão interessante.
Penso para comigo que tudo tem o seu tempo e o tempo do encantamento também virá...
Gosto mesmo de si.
Abraço amigo.
Conceição

Guida Palhota disse...

Conceição,

Nem imagina como desejo esse tempo do encantamento. Até porque eu já vivi encantada e sei como é. Mas, ultimamente, tenho-me deixado esmorecer e quase perder a capacidade de acreditar no regresso à normalidade. Não hei de permitir que isso aconteça, contudo! E algo que também desejo muito é vir a conhecer as pessoas maravilhosas que me animam sem me exigirem nada. Uma delas chama-se Maria, à entrada, e é a Conceição, quando se despede de mim.

Um abraço caloroso

Pedro disse...

Maria,

É realmente maravilhoso ser amado por alguém como a Guida. E isso dá-me energia para continuar a amá-la e não vacilar. Nem sabe o bem que lhe faz, o avivar da chama, quando por aqui passa e lhe deixa as suas palavras. Obrigado por tão desprendido gesto.

2 beijinhos para si


Anabela,

A coragem é sempre a última a sair, diz-se até, que é ela quem fecha a porta. Os tempos não têm sido fáceis mas outros melhores virão. Pode ser que lá mais para o "VIRÃO"!!

Obrigado pelas suas visitas e pelos cartões que lhe deixa.

2 beijinhos para si

Ana Camões disse...

Guida... Guida... a vida não tem sido fácil para ti... mas amiga, já sabes que estou AQUI para o que precisares!!!
Admiro-te MUITOOOOOOOOOOOO... GOSTO MUITOOOOOOOOOOO DE TIIIIIIIIII.
Ao ler-te, nos inícios da minha luta, ganhava forças, talvez esteja na hora de retribuir...

BEIJOS MULHER!!!

ÉS LINDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

IsaLenca disse...

Guida, a vida não é fácil e muito menos para ti. Quem sou eu para o dizer? Uma amiga que apareceu através das novas tecnologias mas que teve uma grande empatia por ti e que acredita que esta fase menos boa irá passar. O tempo o dirá, certamente. Há que ter esperança, sempre!
Bjs

Paula Soares disse...

Guida,
Li e reli o seu texto, tão sensível e sincero, despido de vaidades. Tão autêntico e genuíno.
Senti cada palavra sua, como se de mim se tratasse... Quero apenas deixar o meu registo muito sincero de solidariedade para consigo e dizer-lhe que a Guida vai ultrapassar esta fase mais difícil, vai voltar a ser a mulher que era, mais feliz ainda. Não a conheço mas sinto que a Guida é daquelas raras pessoas que engrandecem o Mundo e merece toda a Felicidade. Um grande beijinho
Paula Soares

Maria disse...

Abraço amigo, aos dois.
Conceição

Maria disse...

Olá, Guida.
Beij.o
Conceição

Silvina disse...

"a sensação de ser uma máquina velha, continuamente a avariar-se, tem-se agudizado."
Babe, esta sensação está dentro de ti. Os outros não se apercebem disto forçosamente...
Ainda noutro dia ia de bicicleta na rua e um rapazinho também de bicicleta sorriu muito e todo dengoso disse-me "bonjour mademoiselle..." Claro que eu pensei logo: "está parvo. Se visse o meu pescoço e a minha perna já não dizia isso". Mas isto sou eu a interpretar; sou eu a não me pôr a jeito; sou eu a fugir às interacções sociais, a ser bicho do mato.
Nessa cabeça tem que entrar a ideia de pessoa-por-inteiro em vez de corpo-doente-coisificado.
E isso depois vai-se reflectir nos que te olham, porque o olhar deles passará sempre pela tua percepção e interpretação das coisas.
Eu olho para ti virtualmente e vejo alguém com muito valor. Com uma sabedoria do que é a vida, a morte, a dor, o sofrimento, alguém que está a anos luz do entendimento dos outros "simples mortais". O que passaste, o que tens vindo a passar pôs-te nesse patamar. Aproveita-o!
Muitos bisous natalícios*

Guida Palhota disse...

Querida Ana,

Tens sido, para mim, um exemplo muito importante de espírito positivo e de boa disposição constante, nesta guerra difícil. Por vezes, perante as tuas atitudes corajosas e o permanente apoio que dás a todas as outras meninas, em especial perante aquele que me diriges, até me sinto envergonhada por ser queixosa e pouco tolerante.

Obrigada por tudo.
És um doce

Guida Palhota disse...

Isalenca,

Vejo-te como uma espécie de anjo da guarda, sabias!? Sinto-me sempre muito bem, quando me ofereces as tuas palavras. É mesmo bom saber que estás sempre à espreita, a providenciar miminhos...
Não te esqueças de pedir, sempre que precisares. Conta comigo, sempre.

Beijoca

Guida Palhota disse...

Paula,

Eu sei que havemos ambas de ultrapassar estas fases más. Eu estou cansada, moída, massacrada, porque são já quatro anos, mas continuo a sonhar com um tempo de libertação destas amarras, tempo esse que só ainda não veio, porque tenho tido algum azar... Tudo é relativo, contudo, e eu vou tentar lembrar-me disso.

Obrigada por tantas palavras de incentivo e coragem.

Beijo Grande

Guida Palhota disse...

Silvina querida,

Eu sei que tens razão, mulher: a tal sensação está dentro de mim. E eu vou ter de aprender a libertar-me dela. Até porque morro de saudades de me sentir "pessoa por inteiro", como dizes. Não tem sido fácil, pois quase todos os médicos me têm parecido impacientes, relativamente às minhas queixas, mas prometo um esforço para encarar muitas das suas deixas como tentativas de relativizar a quantidade de macacos que gostam de visitar a minha cabeça...

Obrigada por teres passado aqui, quando eu me ando a portar tão mal, sem visitar as amigas, sem ir saber delas... Desculpa esta concentração de atenções em mim própria, please!
Vou visitar-te em breve e quem me dera que não fosse só virtualmente...

Gosto muito de ti!
Estás a aguentar-te à bronca, certo!?

BEIJÃO

Helena Santos disse...

Que palavras existem para dar ânimo e coragem para além das que as outras pessoas já escreveram aqui ?! Nâo sei e não quero repetir .Deixo apenas um abraço e um sorriso, em silêncio.
A minha 1ª consulta para tratar da reconstrução foi adiada para Janeiro. Tenho lido aqui testemunhos que me têm deixado ainda mais preocupada... Eu tb tinha pensado tirar gordura da barriga para a mama apesar da minha médica do Ipo não aconselhar e parece-me agora não ser a melhor opção... Vamos ver o que diz o médico. Tudo bom para si Guida e que 2012 seja o ano da mudança e que o "sol" aqueça as nossas vidas...
Bjs

Guida Palhota disse...

Helena Santos,

Obrigada pelas palavras que me deixou.
Por favor, tome o meu exemplo apenas como isso mesmo, um exemplo, pois cada caso é um caso e há histórias felizes de reconstrução mamária.
Preocupa-me pensar que estou a contribuir para que desista das suas decisões. Tente saber de mais casos, compare, meça os prós e os contras, aconselhe-se com médicos, obrigando-os a explicarem-lhe tudo...
Desejo-lhe o melhor e acredito na possibilidade de lhe acontecer o melhor!

Um beijo Grande

Helena Santos disse...

Obrigada Guida!
Esta noite, eram 2,3,4 da manhã e eu a "fazer filmes" á volta da doença ,da reconstrução e sei lá que mais...
Sinto-me perdida e falo pouco dos meus medos com as pessoas que amo para não as preocupar.Resumindo, hoje é um dia mau, mas amanhã será melhor...
Obrigada por me "ouvir".
BJ grande

hema disse...

Um abraço.
Isto é só um teste para ver se sei deixar a minha identificação...
Sou mt naba nisto.

Guida Palhota disse...

Olá, Helena

Espero que já tenha havido muitos dias bons, depois das últimas palavras aqui deixadas.
Eu confesso que vou alternando dias de concentração na existência com dias de total desconcentração, nem sei já se esperando ou não uma estabilidade positiva.
A minha maior pena é ter quatro filhos que ainda precisam de uma mãe segura de si...

Um grande beijo