Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

Por aqui, discorre-se sobre:

... Acompanhamento Psicológico Ajudar quem Ajuda Alertas Alimentação Alopécia Antes e Depois Aquisições autoestima Brincadeira Cancro da Mama nos Homens Cansaço Chamar os bois pelos nomes Cirurgias Cirurgias de Amigas Codependência Coisificação nas Doenças Prolongadas Complicações Pós-operatórias Consultas Conviver Cumplicidade Dar / Receber a Notícia Desafios Desânimo Desejos Desespero Despedida Diagnóstico Dicas Dieta Distinções Efeitos Secundários de Medicação Emagrecer Encontros de Amigas Esclarecimento Esperança Estilo de Vida Estímulos Exteriores Exames Pré-operatórios Exemplos Famosos Com Cancro Feminilidade Filosofia de Vida Pós Doença Fisioterapia Fracassos Gang da Mama histerectomia Histórias de Luta Hormonoterapia Hospitalizações Humor Implicações Psicológicas Incongruências Informação Lingerie Correta Lingerie Pós-Operatória Medos Meios Complementares de Diagnóstico Meios de Diagnóstico Menopausa Depois do Cancro da Mama Modos de ser Mudanças na Vida Natal Nova Normalidade Novas Amizades Novidades O Cancro em Pormenores O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças; efeitos secundários da medicação Ocupação em Tempo de Baixa Os cancros dos amigos e familiares Palavras Alheias a Propósito do Propósito Parabéns Partilhar a Doença Perdas Pós-cirurgia Pós-operatórios Prazer em encontrar quem nos entende Prazeres Prevenção Prevenção de Recidivas Processo de Recuperação Projetos de Sensibilização Quimioterapia Radioterapia Rastreio do Cancro da Mama Reações Alheias Reações Pessoais Reconstrução Mamária Regresso à normalidade Regresso ao Trabalho Sentimentos negativos Sexualidade Sinais Sintomas Solidão Tamoxifeno Terapias Toque Tram Flap Tratamentos Verdade Verdadinha Vitórias Vontade de ter poder sobre a doença

riscos marcantes

riscos marcantes

NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Protocolo Terapêutico















Depois da intervenção cirúrgica, os exames histológicos aos tecidos que nos retiram contribuem para as tomadas de decisão relativamente às terapias a aplicar, para tentar reduzir as hipóteses de recidivas. Todavia, a equipa médica tem também em conta outros factores, como sejam o estadio da doença, a condição física, a vontade e a idade da pessoa doente.
Relativamente à idade, senti, quando fui informada do protocolo a que me submeteria (se quisesse), que os meus anos de vida são já bastantes, tendo em conta alguns aspectos da vida, mas são ainda poucos, se os aspectos a ter em conta forem outros.
Eu era ainda nova, como doente oncológica. E, para além de nova, sem doenças associadas. Como tal, dona de um organismo ainda perfeitamente capaz de produzir novas células malignas prontas a multiplicarem-se. Estes factos reservaram-me um protocolo aparentemente demasiado duro, para quem ficou sem toda a zona afectada por tumores.
Teria de submeter-me a seis sessões de quimioterapia, com intervalos de três semanas, a vinte e cinco ou trinta sessões diárias de radioterapia (com intervalo aos fins de semana) e a cinco anos de hormonoterapia diária, esta última para inibir a produção de estrogénios, pois as células malignas são sensíveis ao seu efeito, para se multiplicarem.
A quimioterapia constitui um processo de envenenamento celular, dando cabo do que é mau e do que é bom; a radioterapia é um tratamento localizado, que resulta num processo semelhante ao de uma forte queimadura solar, com vermelhidão da zona irradiada e perda de elasticidade dos tecidos; a hormonoterapia, para quem ainda não chegou à sua altura, induz um processo de menopausa antecipada, a qual pode ou não tornar-se definitiva, após o fim do tratamento, dependendo das idades e das mulheres.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um Tumor Benigno é um Corpo Estranho ao Organismo...

...que deve, portanto, sair com a maior brevidade possível!

Eu vivi mais de um ano e meio com nódulos que iam crescendo e se multiplicavam, como atestavam as mamografias que fui realizando. Mas, 'ao olhar' dos médicos, estava tudo sob controlo e com aspecto benigno. Chegaram, mais tarde, a fazer-me uma punção cujo resultado foi idêntico ao ditado por observação de imagens, algumas delas ecográficas. Até que, num triste dia, a ecografia indiciou o "resvalanço" da benignidade para a malignidade e foi feita, no dia seguinte, uma biópsia (mais uma vez) a um dos corpos estranhos. E a malignidade foi confirmada, 15 dias depois, passados o Natal e o fim do ano.

Sejam mais exigentes do que eu fui. Porque, para sempre, me assaltará a dúvida quanto ao acerto da escolha médica relativamente ao momento para se intervir em mim.
É que os corpos estranhos ao organismo estão a ocupar espaço que, não sendo deles, vai fazer falta aos restantes habitantes, nomeadamente, alimentando-se dos mantimentos alheios!

Alerta, meninas!!! Com exigências quanto à percepção do que estiver a passar-se e ao conhecimento das possibilidades de reacção!

SEM DÓ NEM PIEDADE



Uma das cinco podes ser tu! Previne-te!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

É o Título do Blogue que Vos Inibe, Não é?!

Estar no local de trabalho, por exemplo, com um separador aberto, onde se lê a palavra "Mamas", torna-se inibidor, certo? Ainda alguém vai pensar coisas impróprias, pois andar a ver 'mamas' na internet... Não havia necessidade! E a fotografia, então, tão bonitinha que ela é? Mas são 'mamas'! Ah, pois são! E quem mas dera a mim!!!...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Quero as Vossas Sugestões!

Este blogue não gosta de existir só para si próprio e não quer entrar numa luta pela sobrevivência. Ele não se considera doente, mas só quer existir se for útil.
Como tal, peço-vos sugestões de reestruturação do modelo que adoptei, se considerarem que de alguma outra forma eu conseguirei atrair a vontade de dizer de alguém relacionado com este assunto.
Obrigada.

Eu tenho uma ideia, que vou atrever-me a apresentar: os meus amigos bloguistas podiam colocar o "Mamas à Lupa" nas listas de Favoritos dos seus blogues...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mais Ninguém Tem Tempo!













Do It Yourself!

O toque deve ser feito mensalmente, após o período menstrual. Quem já não é menstruado deve marcar um dia do mês para o fazer. Com um lembrete no telemóvel, por exemplo.
Se for detectada qualquer novidade de qualquer tipo em alguma das mamas, deve ser marcada, no próprio dia ou no seguinte, uma consulta para um ginecologista ou para um mastologista.
Não pode deixar-se passar mais do que um dia sobre a detecção de algo novo numa mama!!!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Berries

As Bagas "Vermelhas" e as Suas Propriedades
Anticancerígenas e Antioxidantes



Silvestres, da horta ou de estufa, a verdade é que os frutos vermelhos estão aí, cheios de componentes benéficos para a nossa saúde, mas palpita-me que a maioria anda distraída disso.

Os frutos de baga estimulam, no nosso organismo, os mecanismos de eliminação de substâncias cancerígenas e inibem a angiogénese, ou seja, bloqueiam a proliferação de novos vasos sanguíneos capazes de pôr as células más a viajarem pelo nosso corpo, assumindo, por exemplo, a responsabilidade de metástases.

Estes frutos têm ainda propriedades antioxidantes, isto é, capacidade para bloquear os danos causados pelos radicais livres de oxigénio (uma parte do oxigénio que respiramos transforma-se em radicais livres, que se ligam a processos degenerativos, como o envelhecimento, o cancro e muitas outras doenças: as cataratas, o Alzheimer, os problemas cardiovasculares...).

Os "berries" são, em inglês, os frutos de baga que tenho estado a apregoar. Juraria que todos conhecem os 'strawberries', pelo menos desde o "Sgt. Peppers", dos Beatles, onde está perpetuado o tema Strawberry Fields Forever. Falo dos morangos, claro.
Mas a variedade para escolha é grande e interessante. Há também as 'raspberries' (framboesas), os 'billberries' (mirtilos), as 'blackberries' (amoras negras), as 'redberries' (amoras vermelhas), os 'cranberries' (arandos)... e muitos outros, que, apesar de não terem um nome terminado em '-berry', em inglês, ombreiam com os "berries" no que toca a propriedades de prevenção de doenças, como sejam as uvas ('grapes') e as cerejas ('cherries').

Que tal uma voltinha diferente na zona dos frutos e legumes, marcada já para a próxima ida ao -mercado? Uma voltinha de olho arregalado: - Olha, isto é que são os mirtilos... e olha aqui arandos! Etc.

Boa passeata pelos frutos vermelhos. Um dia destes volto, para vos falar de outros frutos e de... legumes.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Dois Anos Depois...



Sei que não voltarei a ser a mesma que fui até há precisamente dois anos, mas acredito que a passagem por esta experiência esteja a ensinar-me muito do que aplicarei no meu quotidiano e nas minhas relações pessoais, para o resto da minha vida.
Hoje, como há dois anos, penso que não é de cancro da mama que eu morrerei, mas sinto que as marcas gravadas no corpo e na alma me alertam todos os dias para a necessidade de aligeirar o ritmo de trabalho e de me apoquentar apenas com questões efectivamente importantes, sendo que a importância do que nos acontece pode sempre ser relativizada...

Eu continuo em processo. Ainda não cheguei à fase da reconstrução do mamilo e da aréola, porque a pele e o peitoral, que sofreram radiação, ainda não estão suficientemente regenerados para que tal possa acontecer. A pele perdeu elasticidade e aconteceu um processo de fibrose que fez com que o implante se "colasse" ao músculo. O trabalho da fisioterapia tem sido o de "descolar" a pele, através de massagens, e o de alongar o músculo, através de ginástica.
Na hidroginástica, complemento este trabalho e lá vou caminhando, devagarinho, com esperança de melhores dias, dias sem uma dor que se define por um aperto, como se tivesse vestido um sutiã vários números inferiores ao meu e não o pudesse tirar nunca.

Dois anos depois, carrego ao peito "uma pedra" que me magoa fisicamente ao ponto de me ter obrigado a um acompanhamento psiquiátrico, mas já não carrego o bicho mau que se queria espalhar pelo meu corpo.

Dois anos depois, ainda não estou em condições de regressar ao meu ofício de professora, mas trabalho com afinco para a recuperação de uma condição física suficiente para tal.

Foi Há Dois Anos

Foi há dois anos. Precisamente. E eu não terei gostado. Apesar de ter agradecido...
Entrei no IPO às 8:30h, "pela mão" da minha mãe (como se ainda fosse a sua pequenina) e tomei, a seu lado, a segunda e última refeição do meu dia: uma torrada de pão regional e um galão bem quente e clarinho. Mais o café bem cheio, claro.
Seria operada no fim da tarde/princípio da noite. Até lá… vários exames pré-operatórios, incluindo a pesquisa do 'gânglio sentinela', que me obrigou a quase três horas de imobilidade, deitada e “coberta” por um sofisticado aparelho de detecção do primeiro gânglio da cadeia linfática, para onde o "bicho mau" pudesse ter-se escapado. Custaram-me, especialmente, a injecção de contraste na aréola e o frio no braço direito.
Não me lembro de uma emoção, de qualquer lágrima ao canto do olho, nem de qualquer medo. Durante um longo dia, fiz tudo aquilo que me mandaram, praticamente sem colocar questões, absolutamente resignada, totalmente confiante. Senti fome e sede, mas conhecia um truque para mitigar essas sensações: lavei os dentes depois de não ter almoçado e depois de não ter lanchado.
Do momento de entrada no hospital, guardarei para sempre a imagem sorridente e prestável da voluntária D. Helena, que me guiou, qual anjo da guarda, pelos meandros daquela casa infinita e ainda pouco conhecida por mim, até à hora do exame mais demorado. O casaco dela chegou a estar pendurado nos meus ombros, não fosse eu constipar-me, da manhã para a tarde, nas inevitáveis transições entre os vários edifícios do conjunto. Tudo me pareceu a meu favor, a partir do contacto com a D. Helena. Em cada novo compasso de espera, ia observando o que se passava à minha volta. Não me apeteceu ler nem escrever, apesar de ter ido preparada para ambas as actividades. O que fiz foi conversar com outros doentes, sem, todavia, ter havido partilha de pormenores.
Aprendi, nesse dia, ainda antes de conhecer a palavra final a mim destinada, que há muita gente a morrer oferecendo força e esperança. Fixei para a vida que qualquer maleita que nos chegue é para ser tratada com seriedade e com a maior brevidade possível, mas sem dramatismos nem lamechices. E que não se desiste nunca de acreditar que vamos melhorar até estarmos curados. E ainda… e infelizmente, que daqueles que ali nos rodeiam, são em maior número aqueles que estão pior do que nós do que os restantes.
Por volta das 19h, logo a seguir à “empreitada” do ‘sentinela’, fui chamada, com pressa, para o bloco operatório. Corremos, literalmente: eu, a minha mãe e a enfermeira. Os cirurgiões (um geral e um plástico) e a sua equipa esperavam por mim! Foi o conhecido “ver se te avias” – o quarto, a cama, o cacifo, tirar a roupa, vestir uma bata, telefonar ao Pedro, entregar a aliança à minha mãe, despedir-me dela, viajar de cama até um elevador, entrar no bloco por uma janela (deitada, como se não conseguisse andar), mudar da cama para o tapete rolante, do tapete para uma nova cama, da cama para a, inacreditavelmente estreita, mesa de operações, ser cumprimentada com um “Bem vinda ao Polo Norte!” (o Bloco é verdadeiramente gelado!), sorrir a N sorrisos verdes e conhecer a anestesista ‘Margarida Pascoal’, minha homónima que me adormeceu depois de eu ter dito “Até logo” à minha prima Paula, única a estar presente quando eu acordasse…
Não tive tempo para pensar que todo aquele aparato era para me tirarem uma mama!... Porque houve uma outra ‘menina’, escalonada para o mesmo, imediatamente antes de mim, que foi enviada a grande velocidade para a terrível espera até ao dia seguinte, logo depois de ter respondido às sacramentais perguntas feitas à entrada do Bloco: ‘Comeu ou bebeu alguma coisa’? Tinha bebido água! Entrei eu. “A correr”!
Lembro-me do bico finíssimo da caneta que contornou a área a cortar. Arranhava. E de a minha homónima, que não era eu (houve brincadeira a propósito), me ter espetado a agulha. E lembro-me também de ter perguntado à Paula que horas eram, quando acordei: 21:30h.
Passaram dois anos, só os primeiros dois que já ganhei ao bicharoco que me queria devorar...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quando a divisão celular é indesejável

Life Goes On...

O tempo passa sobre os acontecimentos e, naturalmente, o interesse alheio sobre eles vai diminuindo, pois as rotinas diárias absorvem em excesso a atenção que é necessário oferecer-se a centenas de pormenores. É a vida a continuar, depois de um período em que se andou com uma ideia na cabeça, daquelas persistentes e impressionantes, que nos fazem (querer) agir em conformidade.
Senti na pele a ausência da "chuva" gostosa de carinhos vindos de todos os lados, mesmo daqueles que mais resistiram ao contacto por não saberem como agir e o que dizer.
Mas não me isolei. Procurei aquilo que já não vinha, fazendo visitas aos colegas, no local de trabalho, e combinando cafés e almoços com amigos.
Nessa altura, verem-me era, para todos, de certo modo, estranho, pois eu estava careca e pálida, devido à quimioterapia, mas sempre ouvia dizer que estava com bom aspecto, "melhor agora do que na última vez que te vi", apesar de as fotografias desse tempo atestarem o meu ar de doente.
Até que eu cheguei a um período de falta de vontade de procura, de propostas feitas por mim. E os contactos com gente fora de casa começaram a intensificar-se via net, numa rodinha de gente conhecida mas distante, que ia correspondendo a desafios da vida normal e me fazia sentir ocupada, mas quase sem tocar no assunto que me mantinha em casa, de baixa.
Ninguém se esqueceu de mim, mas era evidente que já tinha passado o período do choque, da curiosidade e da disponibilidade para gestos amáveis. E todos me diziam que o pior já tinha passado, sem eu perceber bem a que se referiam... Ao cancro, que já não tinha, mas, quando tinha, não me incomodava minimamente? Às operações? Ou seria aos pós-operatórios? É que a quimio e a rádio, de modos diferentes, custaram muito mais do que o embate inicial (tanto a consciencialização da doença como os pós-operatórios) e a verdade é que tive muito mais mimos na fase que menos me custou. Ou terá sido por isso que foi a que menos me custou?!...

A Minha Amiga Tem um Cancro na Mama

As reacções dos meus conhecidos, amigos e familiares à notícia do meu cancro na mama foram diversas, mas tiveram quase todas alguns pontos em comum, a distribuir por diversas fases ao longo destes dois anos. E é aquilo que é comum às reacções de pessoas diferentes e com graus de afinidade diversos que pretendo contar.
Na fase inicial, imediatamente posterior ao conhecimento da nova realidade, destacou-se uma meia dúzia de "corajosos" que avançou para telefonemas e visitas pessoais, transportando consigo beijos e desejos de força enviados por várias dúzias que não conseguiam sequer a palavra escrita, quer por email, quer por sms.
Talvez tenha sido, para a maioria, mais chocante do que para mim o facto de eu estar doente. Tanto assim que a 13 de Janeiro recebi um grande ramo de flores vindo de longe, carregadinho de beijos de grandes e pequenos, que, na união, conseguiram a sua força.
Com o tempo a passar, com o conhecimento de que eu gostava que me falassem e com a aproximação do dia da operação (primeiro "tratamento" a que fui submetida), comecei a receber escritos por ambas as vias que atrás referi. Mas muitos deles chegavam com pezinhos de lã, indagando se não estariam a incomodar e pouco se alongavam. E eu tinha pena. Por isso, respondi a todos e coloquei-os à vontade para me ligarem, visitarem ou enviarem sms sempre que quisessem. E ia pensando como seria se fosse eu alguém do lado deles. Como reagiria eu?
A resposta não me surgiu a não ser meses depois, quando me disseram que uma amiga da adolescência estava com um problema semelhante. Resolvi logo ligar-lhe, mas o telefonema dela para mim chegou primeiro. E falámos calma e positivamente sobre as nossas apreensões, acreditando na garra que nos havia de ajudar no processo de cura.
Imediatamente após a operação, houve muitas comunicações, feitas, pelos mais íntimos, para o telemóvel do meu marido ou recebidas por ele, no meu. E todas as manifestações de carinho me sabiam bem, embora preferisse não falar, pois ficava cansada e subia-me a tensão arterial. O "secretário" esteve, contudo, à altura de interceptar toda a "correspondência" chegada por vias diversas, a qual ia entregando com calma à minha pessoa. Até que comecei a responder às sms e a atender telefonemas.
O pós-operatório (que já vivi três vezes...) é um período que deve ser pensado, planeado com cuidado, para que haja ambiente suficientemente propício ao descanso fundamental à recuperação. Operada na quarta-feira, no domingo à tarde estava em casa dos meus sogros (a poucos quilómetros do hospital e a 300 dos meus quatro filhos e dos meus pais, que estavam em minha casa destacados, a 100 quilómetros da terra deles, para cuidarem dos netos enquanto o meu marido cuidava de mim. E nesse dia a casa encheu-se de tal maneira de visitas (algo que eu tinha pedido para não acontecer no hospital) e eu fiz tanto esforço para contar e para me mostrar animada que, depois de todos sairem, o aparelho de medir a tensão registou 18/11. E eu concluí que ainda não estava pronta para festas...
Fui ficando por lá, pois tinha de ir ao hospital de quatro em quatro dias para encher o expansor, e comecei a ver emails e a responder-lhes, algo que fazia muito espaçadamente ao longo do dia. Senti, por essa altura, que o mundo ao meu redor estava comigo, preocupado e desejoso de que eu recuperasse depressa, e muita da minha dor física (a psicológica só veio muito mais tarde) era mitigada por palavras de alento, pronunciadas ou escritas.
Três semanas (e mais uma operação) depois, de regresso aos meus miúdos, com quem fiz questão de falar diariamente, fui recebida com toda a espécie de perguntas, especialmente as que se referem às características do Bloco Operatório, onde me deram as boas vindas com a expressão "Bem vinda ao Polo Norte!", perfeitamente apropriada para descontrair, num ambiente completamente gelado. Adorei contar tudo e eles adoraram ouvir. Não omiti nada que os pudesse impressionar, até porque, desde a notícia da doença, os seus 8 (em duplicado), 10 e 12 anos nunca foram impedimento para que soubessem de tudo o que se passava.
E aqui se iniciou um novo período de um processo que ainda não terminou, à data de hoje, e que continuarei a explanar amanhã.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aprendizagens Soltas Sobre a Doença

1. Os doentes são pessoas.
2. Quando adoecem, as pessoas não mudam a sua personalidade.
3. Os amigos de pessoas doentes devem procurar saber como estas preferem lidar com a doença.
4. A presença física ou virtual dos amigos deve corresponder mais ou menos ao que se passava antes da doença.
5. A doença em si deve ser designada de forma correcta e científica, sem eufemismos: por exemplo, se alguém é operado a uma mama, não se diga que tal aconteceu a um peito ou a um seio.
6. Há sempre quem esteja mais doente que o nosso amigo doente.
7. Não devemos silenciar os nossos sentimentos para com um amigo doente. Ele vai apreciar muito mais a nossa sinceridade do que palavras forçadas de incentivo.
8. Não devemos espalhar que o nosso amigo está doente sem sequer termos falado com ele.
9. Palavras ditas ou escritas a um doente podem fazer milagres...
10. Quem está doente não espera mais do que melhorar. Encaremos, portanto, a doença sempre como um estado transitório.
11. Visitar um amigo doente deve passar pela aprovação do próprio ou daquele(s) que dele cuidam.
12. O nosso amigo doente pode querer ou não falar connosco, independentemente de gostar ou não muito de nós.
13. Como no estado saudável, os doentes têm momentos de força e momentos de fraqueza, sem que isso signifique que são pessoas fracas.
14. Não devemos dizer a um doente que ele tem de ter pensamento positivo para melhorar mais depressa, porque isso nem sequer é verdade e pode ser contraproducente.
15. Há muito mais gente doente à nossa volta do que aquela que imaginamos.
16. Os próximos a estar doentes podemos ser nós.
17. Nunca devemos comparar a doença e as reacções do nosso amigo doente com as de outros que nos pareçam comparáveis. Diferentes na saúde, as pessoas são também muito diferentes na doença.
18. Pensemos sempre que há um mar de coisas sobre o estado do nosso amigo que podem ser quase inimagináveis, por mais que nós saibamos sobre o assunto e ele nos tenha contado.
19. O dia de um doente pode ser monótono e triste apesar do brilho intenso do sol. Devemos conseguir proporcionar-lhe momentos perfeitamente iguais aos da vida saudável.
20. Aprendamos com os nossos doentes a valorizar os momentos sem dor e sem mal estar, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para os prolongar e multiplicar.
21. Os doentes adquirem sabedoria que devia ser partilhada.
22. Nenhum doente gosta de perceber que os outros sentem pena de si ou o tratam por ou com compaixão.
23. Estar doente acarreta muita solidão, por maior que seja o número de saudáveis empenhados em minorar essa realidade.
24. Estar doente é seguramente uma das maneiras mais difíceis de se estar na vida.
25. O pior da doença é a noção de dependência e de falta de liberdade.
26. A doença é o verdadeiro teste à amizade e ao amor.
27. A doença oncológica muda a mundividência do doente.
28. Estar internado num hospital oncológico é uma excelente via para atingir a humildade.
29. Acreditemos que por mais que privemos com doentes nunca saberemos tudo o que lhes vai no corpo e na alma.
30. Doentes são pessoas especiais: tristes pela privação da normalidade, mas em engrandecimento humano pela aceitação da experiência.
31. Não estar doente é motivo suficiente para todos os dias erguer um louvor, um agradecimento...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Fuga à Solidão

Quando fiquei doente, num dos incessantes momentos de procura de informação sobre a minha maleita, encontrei no site do Movimento Vencer e Viver um conjunto de brochuras de apoio àqueles que mais de perto terão de lidar com uma mulher a quem é diagnosticado um cancro de mama.
As brochuras estão elaboradas de acordo com a especificidade do destinatário: amigo ou amiga; companheiro/marido, filho(s); colegas e chefes. São claras e directas e fornecem dicas comportamentais no sentido de se minorar a sensação de solidão da doente.
Eu escolhi as brochuras e distribuí-as, por email, a todos aqueles que queria que estivessem comigo da melhor forma possível para mim. E acrescentei pormenores do meu estado, sem me esquecer de mencionar a minha certeza de que iria ficar boa. Por fim, vinquei a minha vontade de conversar sobre o meu problema.

(Estas brochuras podem ser consultadas clicando, na barra lateral, em "Eles Também Choram".)

O Dever de Proteger e de Nos Protegermos

Nem todos somos livres relativamente ao ESTILO DE VIDA que escolhemos. Pela parte que me toca, por exemplo, há mais de 15 anos que deixei de o ser - por vontade própria mas sem a consciência que a vida durante este período me foi trazendo.

A partir do momento em que constituímos família, passamos a ter o dever de proteger o nosso agregado e, antes de mais, de nos protegermos a nós próprios, pois só poderemos cuidar capazmente de outrem se nos encontrarmos o mais próximo possível do equilíbrio.

A irresponsabilidade quanto ao ESTILO DE VIDA só está, a meu ver, ao alcance de quem é solitário no que respeita a relações que pretendam a partilha da existência e, muito especialmente, no que respeita a relações parentais.

E é por isto que transcrevo, a seguir, algumas frases do livro ANTICANCRO, de David Servan-Schreiber, para ver se abano alguém. Todos precisamos de reflectir sobre isto:

"Todos nós vivemos com mitos que diminuem a nossa capacidade de combater o cancro. Por exemplo, muitos de nós estão convencidos de que o cancro está principalmente ligado à nossa composição genética e não ao nosso estilo de vida. Porém, olhando para as investigações, vemos que se trata do contrário. (...) os factores genéticos contribuem, no máximo, em 15%, para as mortes por cancro. Em resumo, a fatalidade genética não existe. Podemos aprender a proteger-nos."

E sabem porque é que insisto em revelar-vos esta realidade? Vou também citar uma frase do mesmo autor:

"O confronto com a doença é uma experiência interior que deixa marcas profundas".

E a minha frase é: Insisto nisto porque gostava que nenhum de vocês nem dos vossos tivesse de passar pela experiência.

A Entrada na Engrenagem

No próprio 2 de Janeiro de 2008, ficou decidido que eu estaria no Instituto Português de Oncologia de Lisboa na segunda-feira, dia 7, para ser vista por um cirurgião. Assim deixava para trás Viseu, por pressão familiar para que me entregasse à influência de uma prima que trabalha no Francisco Gentil. Liguei ao Dr. CV, que já me tinha arranjado vaga para cirurgia para o dia 9, e expliquei-lhe a razão que me fazia partir, com o cuidado de enfatizar a confiança que nele deposito.
Viajei no Intercidades com a minha mãe e foi com ela que entrei pela primeira vez no IPO, para a consulta inicial, que (apenas) trouxe de novo a necessidade de confirmar a inevitabilidade da mastectomia, o que aconteceria após o resultado de uma ressonância magnética.
Como me considerei entregue a um dos melhores pares de mãos cirúrgicas do país e porque a minha atitude de então era a de "faça-se o que for necessário para eu ficar boa", esta primeira consulta foi curta e grossa, sem que eu tenha conseguido discernimento para quaisquer perguntas. Dali saí para o balcão de marcação da ressonância, em gesto mecânico, sem pensamentos, sem sensações, sem sentimentos...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mais Vale Um Pássaro na Mão!



Lutar contra esta doença não é, como muito se pensa, apenas tratá-la da forma mais rápida e adequada possível.

Em primeiro lugar, é necessário ter absoluta consciência de que é algo que nos pode acontecer a nós, pois ninguém está livre de perigo (muito pelo contrário!).

Em segundo, é de toda a conveniência que sejamos sensíveis às experiências de pessoas que já passaram ou ainda estão a passar por esta doença.

Ser sensível implica, em terceiro lugar, desenvolver o interesse pelo assunto, no sentido de obter a maior quantidade possível de informação sobre o mesmo.

E, por último (nesta listagem sucinta), lutar significa começar por seguir uma política de prevenção.

Quem não foi ainda afectado pode fazer muito para que nunca tenha de lidar com esta situação. Pode, por exemplo, acreditar que há factores no nosso modo de vida que deviam mudar radicalmente - para que o nosso organismo não se esqueça dos seus mecanismos de defesa.

Convém sabermos como nos devemos prevenir! Mas ninguém vem bater-nos à porta com "pílulas" de prevenção! Nem os médicos estão muito preocupados com isso (tenho de ser absolutamente sincera: a preocupação deles centra-se na cura ou no alívio de quem já está doente), pelo que a nossa responsabilidade na matéria não deve ser descurada.

De uma forma sucinta e abrangente, apresento quatro factores que poderão fazer despoletar um cancro no nosso organismo, cancro esse que poderá, talvez, ser prevenido, se mudanças importantes acontecerem no nosso quotidiano. São eles:

. O estilo de vida
. A alimentação
. A relação que mantemos com o nosso corpo
. A nossa relação com os sentimentos

DO WORRY, BE HAPPY!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Primeiros Momentos

(em jeito de 'continuação' do post de 11 de Janeiro)

Era uma vez uma menina, de caracóis largos e soltos, que vestia sempre brincos. Desde os vinte anos que se sentia nua quando, em situação social, os seus lóbulos não ostentavam um ornamento condizente com a indumentária. Lembrava-se ainda do dia em que o seu pai, impotente perante a maioridade da filha, saíra simplesmente de casa para uma volta ao quarteirão que lhe permitisse "arejamento", após um discurso aceso sobre o acto contra-natura de furar as orelhas.
Divertira-se a menina nessa primeira "intervenção cirúrgica" de sua consciência e de seu livre arbítrio sobre o seu corpo.
Agora chamavam-na à pressa: O Dr. pede para vir já. Obedeceu! A menina estava doente.



No regresso, estacionou na garagem e, caso raro, estavam todos ali. Desligou a ignição. Não saiu do carro. Já tinha limpo a lágrima antes de carregar no comando. Comunicou: Tenho um cancro na mama. Vou ser operada e vou ficar boa. De imediato, tudo regressou ao normal. Só ao jantar voltaram a falar, com todos os pormenores. Aos pais ligou só depois. A conversa com o pai precisava ser acautelada. Era necessário não o deixar teorizar. Contudo, mais impotente que nunca, voltou a não poder ficar calado. E ralhou, opinou, pediu, até implorou. Desde o discurso sobre a incompetência até aos joelhos no chão para que a menina contactasse com a pessoa certa...
Misturava-se impaciência com calor no ouvido (do telefone colado há tanto tempo), uma bexiga transbordante, flashes de pensamento em atropelo, o marido na sua frente, a olhá-la, simplesmente. Tinha um bloco na mão e uma esferográfica com várias cores, que se escolhem com o polegar... como antes do tempo em que furara as orelhas! Ia apontando nomes, datas, locais. E ia riscando!
No fim do dia, a menina despiu os brincos desse dia. Olhou-se ao espelho e viu-se igual. Porque haveria de tornar-se diferente?! Chorou com o marido sem perceber bem porquê. Teve uma insónia. E comeu muitas bolachas de chocolate.

Voltar a Ter Duas Mamas

Nos casos de mastectomia, o tecido mamário é substituído (se a paciente quiser) por um implante de silicone.

Muitas mulheres mastectomizadas (as que optam pela reconstrução) usam, durante longos meses, um expansor rígido, cheio de soro fisiológico, sob a pele, com a função de a preparar para um comportamento adequado, em termos de contracção e distensão, após a recepção da prótese definitiva, de consistência mole.

Tanto o expansor como a prótese definitiva podem ser colocados, dependendo dos casos, por cima ou por baixo do músculo peitoral, sendo grande a probabilidade de o grande peitoral mudar mesmo de sítio no corpo e passar a ter uma função de protecção do ilustre desconhecido (expansor ou implante). Neste caso e se tiver havido lugar a radioterapia, há que contar com sensações de aperto, pois a pele terá perdido elasticidade e o músculo esforçar-se-á para voltar à sua primitiva morada...

O mamilo e a aréola, retirados aquando da primeira intervenção, são reconstruídos em dois últimos momentos.

O mamilo será ganho por aproveitamento da própria pele, depois de decorrido algum tempo sobre a colocação do implante, para que tudo se ajuste nos seus novos lugares; a aréola será tatuada à volta do mamilo.

Para restabelecimento da simetria mamária, na maior parte dos casos, é também feita uma mamoplastia, na mama do lado oposto, quase sempre para diminuição do seu tamanho, o que implica a deslocação do mamilo e aréola dessa mama para um lugar mais acima.

A mamoplastia de redução é uma cirurgia simples e de bom resultado garantido, tanto a nível de um rápido retorno à normalidade do dia-a-dia como em termos estéticos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

'Cancros da Mama' versus 'Cancro da Mama'

Antes do início da leitura deste texto, convém vincar que os Cancros da Mama afectam homens e mulheres, como quase todos os outros. Claro que o cancro da próstata será difícil de esperar numa mulher, como o do colo do útero num homem...

O cancro é uma doença que resulta de uma incapacidade de o organismo se defender das células defeituosas que se produzem constantemente no nosso corpo. Se os nossos mecanismos de controlo de tumores falharem, ou seja, se o nosso sistema imunitário estiver em défice no que respeita ao espírito combativo, há um alto grau de probabilidades de não haver processamento defensivo relativamente a um corpo estranho.

Este será um caso em que a lesão num tecido não conseguirá atrair células imunitárias que cumpram o seu papel de reposição do estado normal, localizando e destruindo bactérias.

Neste caso de debilidade, os pequenos vasos sanguíneos que alimentam qualquer célula saudável do organismo e estão em constante processo de reposição (pois são utilizados em permanentes situações de combate a invasões) não são repostos mas sim tomados pelo processo inflamatório. E as células cancerosas aproveitam-se deles para se abastecerem para uma guerra que começa por imitação da nossa capacidade de nos regenerarmos - pois conseguem fomentar o crescimento de novos vasos sanguíneos, para fazerem proliferar o seu domínio, viajando pelo corpo e instalando-se em outros locais. Originam aquilo a que chamamos metástases.

Ora, convém insistir na ideia de que este processo ocorre por deficiência do nosso sistema imunitário, algo que, à partida, é poderoso, mas sofre enfraquecimento por várias ordens de factores, factores sobre os quais escreverei um dia destes e que podem ser evitados por diferentes tomadas de atitude existencial...

Hoje, depois desta longa introdução, o meu intuito é revelar a diferença entre cancros, nomeadamente a que diz respeito aos cancros da mama. E isto porque sei que, quando se ouve dizer que alguém conhecido "também tem cancro da mama", acontece uma imediata comparação entre este novo ser afectado e todos aqueles que já conhecíamos. E a comparação vai no sentido de se considerar que todas estas pessoas sofrem de um mal igual. ERRADO!

E, como é errado, faz tão mal ter de ouvir, já sem vontade de explicar, pela frequência do embate, declarações como esta:
"Já sabes que aquela actriz conhecida também tem cancro da mama, claro. Mas olha, foi operada depois de ti e já apareceu a falar, e com um vestido de alcinhas."

A vontade seria inspirar-me no Vasco Santana e dizer "cancros da mama há muitos, seus palermas"! Mas não devo nem posso fazer isso, porque, antes de ser eu também uma das afectadas, o meu grau de ignorância sobre este assunto talvez me levasse a erros semelhantes...

Para começar, o cancro da mama é muitas vezes ductal, isto é, desenvolve-se dentro de um ou mais ductos (canais por onde, na mulher, circula o leite). E é sobre este tipo, APENAS, que vou expor algumas diferenças a considerar.

Um carcinoma ductal pode estar confinado ao interior do ducto (carcinoma ductal in situ) ou ter características que o levam a transpor o ducto (carcinoma ductal invasivo). O meu era invasivo.

Sofrendo de um destes tipos de carcinoma, uma pessoa pode ter um ou N tumores. Eu tinha N, em comunicação - intraductal invasivo, portanto.

Tendo só um nódulo, o procedimento pode, muitas vezes, ser o de retirar apenas o tumor ('tumorectomia'), preservando a mama. Todavia, se o nódulo for grande (ou por outros factores), poderá ser necessário retirar todo um quadrante ('quadrantectomia'), ou seja, um pedaço da mama. E se os nódulos forem vários, grandes, em comunicação, espalhados ou distantes, a intervenção a efectuar tem o nome de 'mastectomia' e leva toda a mama. Eu fiz uma mastectomia.

Durante a operação, os médicos têm acesso ao grau de ramificação do cancro, através da análise do 'gânglio sentinela', que é o primeiro da cadeia linfática do braço, para onde, em primeiro lugar, o cancro pode espalhar-se. Se o sentinela estiver afectado, será necessário verificar o resto da cadeia, com a probabilidade de encontrar alguns ou muitos gânglios infectados, que terão de ser removidos. Quanto mais gânglios forem retirados, mais enfraquecido ficará o braço, para sempre, e pior é o prognóstico de cura. O meu gânglio sentinela estava limpo.

Após a intervenção cirúrgica (para quem não necessitou de tratamentos prévios - para reduzir o tamanho do(s) tumor(es), por exemplo), o exame histológico aos tecidos extraídos ditará, para a equipa médica, os tratamentos necessários para prevenção de recidivas. Há quem se fique pela cirurgia, há quem precise de um pouco mais e há quem precise de muito mais. E, para a tomada de decisão, são importantes factores como o estádio da doença e a idade do doente. Mesmo num estádio inicial, doente considerado ainda jovem é doente a tratar da forma mais agressiva, pois, em princípio, a malignidade que atingiu o seu organismo está ainda muito capaz de voltar a atacar. Eu sujeitei-me a quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia.

O protocolo não é, evidentemente, igual para todos, o que faz com que o número de sessões de quimio e de rádio seja diferente de pessoa para pessoa, o tempo gasto em cada tratamento seja maior ou menor, o cabelo caia ou não caia, ainda que se faça quimio, etc.

E, entre tantas outras questões, apetece-me ainda referir a questão da reconstrução mamária. Há de tudo. Quem queira e quem não queira. Não é obrigatória, mas faz parte da recuperação - hoje em dia.

Quem faz tumorectomia não tem nada a reconstruir (!). Retira um corpo estranho que tinha dentro da mama, que, para tal, é aberta e fechada. Salvas as devidas diferenças, vou estabelecer uma comparação entre uma extracção de apêndice e uma extracção de um tumor mamário. Com vantagem para o tumor mamário (se não houver metástases), nos casos em que a operação é acompanhada por um cirurgião plástico.

Quem faz quadrantectomia já pode querer uma intervenção plástica.

E quem faz mastectomia... se não a quiser, assume claramente que fica sem um pedaço que era seu - para sempre. E poderá, depois, usar uma prótese externa, que se coloca entre a pele e o sutiã.
Mas, se a quiser, como eu, tudo se passa de forma(s) mais complicada(s), com os seus custos a nível físico e psicológico.

Há vários modos de o fazer: a reconstrução total imediata; a reconstrução após um período de adaptação da pele (usando um expansor, que, à frente, descreverei) para receber uma prótese definitiva, de silicone; a reconstrução através do aproveitamento de tecidos da barriga ou das costas...

Eu usei um expansor durante 15 meses e tenho uma prótese de silicone desde Abril passado.

O expansor é uma espécie de balão, que me colocaram por baixo da pele da antiga mama natural, no momento da primeira intervenção. É um saco, portanto. Um saco que se expande. E a expansão, que acontece através de injecções de soro fisiológico, é feita gradualmente. Saí do bloco operatório com 50 ml de soro num balão com capacidade para 350 ml. Depois disso, a cada conjunto de quatro ou cinco dias, tinha de voltar ao hospital - para encher! Enche-se usando um íman que detecta o "pipo", faz-se a marcação do sítio exacto com uma caneta e espeta-se a agulha da seringa para injectar 50 ml. E, de cada vez que se regressa "com mais algum", a autoestima eleva-se.

Mas o expansor, elemento rijo como uma tigela, começa a incomodar quando já está cheio. Especialmente depois da radioterapia, que destrói células, provocando um encolhimento da pele. O expansor fica, literalmente, apertado, sem espaço suficiente para que a paciente se sinta normal. E o incómodo torna-se permanente. Só dormir resolve o problema. Ou então uma ajuda psiquiátrica... porque dor constante é sinónimo de irritação crescente... Com o meu expansor, a sensação era a de que vestira, por engano, um sutiã vários números abaixo do meu. Um sutiã que não podia tirar, apesar de me magoar muito. Troquei-o, há nove meses, pela definitiva prótese de silicone, a qual não me trouxe o alívio esperado e me obriga ainda a sessões diárias de fisioterapia, numa tentativa de "descolar" a pele e o grande peitoral da prótese à qual "aderiram" por fibrose. Com implicações na condução e na passagem do cinto de segurança. E também no meu estado de espírito, que solicitou medicação para a dor e para a tolerância...
A minha mastectomia tem estes contornos; outra mastectomia poderá ter outros; uma quadrantectomia trará consequências diferentes; e a tumorectomia é algo que imagino mais simples. E ainda há quem também tenha cancro da mama, e o trate com sucesso, sem nunca chegar a qualquer tipo de cirurgia.

Não sei se alguém teve paciência para ler este texto até aqui. Se for o caso, gostava que ficasse claro que sofri por me compararem com outras pessoas. E a verdade é que cada caso é um caso, e é assim para tudo na vida, não só para o cancro da mama.

Não digam, por favor: Aquele (ou aquela) sofre do mesmo que tu.
E nunca acrescentem: E já faz isto ou aquilo e desta ou daquela forma...

Não há mesmo "cancro da mama"; há "cancros de mama".

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mamas, Seios e Peitos

Já ouviram a expressão "Cancro do Seio"? E "Cancro do Peito"? Eu ainda não. Mas já soube que a Ana "tirou um peito" e que há mulheres que se prestam a posar para revistas com os "seios desnudados"...
Ora, não me levem a mal, mas aquilo que gostamos de sentir "ao peito" são mesmo as nossas duas 'mamas'. E é delas que o cancro gosta também (o malvado), não de peitos (a palavra faz-me lembrar os de frango) nem de seios (como os perinasais).
Estou aqui hoje, portanto, para defender a utilização do nome que tem a parte do nosso corpo que o bicharoco resolveu minar: foi uma 'mama', mesmo; se não tiverem sido as duas...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

"A Mamita é Toda para Sair"

Era dia 2 de Janeiro.
A primeira má cara que vira em frente de um exame às minhas mamas acontecera a 17 de Dezembro e a biópsia com uma agulha grossa, "de (cinco) disparos" fora feita dois dias depois. O Natal e o fim do ano decorreram com toda a normalidade, mas havia, no fundo de mim, um clima expectante.
As aulas iam começar no dia 3. E começaram. Para todos, menos para mim. Porque a 2 me telefonaram do hospital de Viseu, que o Dr. queria que eu lá fosse nesse instante (14:10h), para falar comigo.
Sentei-me em frente do Dr. às 15 horas, acompanhada pela minha prima enfermeira.
- Então, Dr., tem más notícias para mim?
- Sim, a mamita é toda para sair. Ainda vou falar com a minha colega, mas é para acertar o dia. Veja, tenho o mês cheio. Mas talvez possa operá-la a 23.
E foi a minha prima que perguntou:
- E no entretanto?
- Depois de falar com a minha colega, ligo-lhe, para marcarmos exames pré-operatórios. Nós temos cá tudo, só não temos radioterapia; se precisar de a fazer, terá de ser em Coimbra. Não podemos é fazer-lhe logo reconstrução. Só um ano e meio ou dois depois.
- Porquê, Dr.?
- O seu caso não o permite.
E não perguntei mais nada. Até agradeci! Como, educadamente, agradeceria qualquer outra coisa que fizessem por mim, agradeci ao Dr. CV a notícia de que eu tinha um cancro e ia ficar sem uma mama, sem uma mama inteirinha. E saí do hospital com a minha prima, escorrendo-me pela cara uma mísera lágrima que eu não quis que se multiplicasse, pois ia meter-me no meu carro e conduzir até casa, onde estavam os meus cinco mais-que-tudo a quem eu daria a notícia.

(Continua num post de 18 de Janeiro)

domingo, 10 de janeiro de 2010

A Laço em Abraço Fraterno e Disponível



Na luta contra os DIFERENTES CANCROS DA MAMA, faz muita falta a disponibilidade de quem não OS sente na pele (desde os profissionais de saúde a todos os amigos) para ouvir falar e para conversar sobre ELES!...
Aceitar ouvir a nossa amiga doente e perceber se ela quer ou não a nossa presença são passos fundamentais de quem recebe a notícia por ela própria ou por outrem.