Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

Por aqui, discorre-se sobre:

... Acompanhamento Psicológico Ajudar quem Ajuda Alertas Alimentação Alopécia Antes e Depois Aquisições autoestima Brincadeira Cancro da Mama nos Homens Cansaço Chamar os bois pelos nomes Cirurgias Cirurgias de Amigas Codependência Coisificação nas Doenças Prolongadas Complicações Pós-operatórias Consultas Conviver Cumplicidade Dar / Receber a Notícia Desafios Desânimo Desejos Desespero Despedida Diagnóstico Dicas Dieta Distinções Efeitos Secundários de Medicação Emagrecer Encontros de Amigas Esclarecimento Esperança Estilo de Vida Estímulos Exteriores Exames Pré-operatórios Exemplos Famosos Com Cancro Feminilidade Filosofia de Vida Pós Doença Fisioterapia Fracassos Gang da Mama histerectomia Histórias de Luta Hormonoterapia Hospitalizações Humor Implicações Psicológicas Incongruências Informação Lingerie Correta Lingerie Pós-Operatória Medos Meios Complementares de Diagnóstico Meios de Diagnóstico Menopausa Depois do Cancro da Mama Modos de ser Mudanças na Vida Natal Nova Normalidade Novas Amizades Novidades O Cancro em Pormenores O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças; efeitos secundários da medicação Ocupação em Tempo de Baixa Os cancros dos amigos e familiares Palavras Alheias a Propósito do Propósito Parabéns Partilhar a Doença Perdas Pós-cirurgia Pós-operatórios Prazer em encontrar quem nos entende Prazeres Prevenção Prevenção de Recidivas Processo de Recuperação Projetos de Sensibilização Quimioterapia Radioterapia Rastreio do Cancro da Mama Reações Alheias Reações Pessoais Reconstrução Mamária Regresso à normalidade Regresso ao Trabalho Sentimentos negativos Sexualidade Sinais Sintomas Solidão Tamoxifeno Terapias Toque Tram Flap Tratamentos Verdade Verdadinha Vitórias Vontade de ter poder sobre a doença

riscos marcantes

riscos marcantes

NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Vitórias



Aceitar que foi a nós que "o camião atropelou" e que temos de fazer esbater as marcas que isso nos deixou passa por reparar e sorrir em cada gesto, por pequeno que seja, que não conseguíamos realizar e passámos a conseguir.
Deixo uma pequena lista de sorrisos, que me foram normalizando a cara, a espaços, ao longo da passagem do tempo:

+ Utilizar a mão direita para comer
+ Vestir uma camisola (e não uma camisa, por o braço não se movimentar)
+ Lavar a cabeça
+ Colocar espuma no cabelo
+ Abrir os armários de cima, na cozinha
+ Tocar sem hesitação na mama "nova"
+ Massajar essa mama, especialmente a cicatriz
+ Hidratar o corpo todo
+ Colocar os dois braços em hiperextensão, ao lado da cabeça, e fazer disso um exercício, com número crescente de repetições e de séries
+ Fazer uma aula de hidroginástica e voltar para as seguintes
+ Trocar o sutiã pós-operatório (depois de 15 meses e três operações) por um normal
+ Caminhar na rua sem cruzar os braços (como gesto de defesa contra um eventual encontrão)
+ Estender roupa para secar
+ Conduzir
+ Conduzir (ou viajar de carro) sem colocar uma mola no cinto de segurança
+ Apoiar-me na mão e no braço direitos
+ Pegar em tachos e panelas...
+ Deitar-me virada para o lado direito
+ Dar abraços
+ Deitar-me de barriga para baixo
+ Nadar
+ Ver-me ao espelho sem ser de fugida
...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Do Worry! Be Happy!



(Obrigada, Mário, pelo teu carinhoso contributo para este blogue)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Agosto ao Sol da Rádio

Era Agosto, mês das férias com a 'Família Alargada', aquela que inclui os primos dos filhos e os primos desses primos e mais uns quantos que é como se fossem primos e somam um total de trinta miúdos. Ao sol de uma praia nova ou repetindo a do ano anterior, a malta junta-se por quinze dias e, vivendo cada família nuclear em sua casa, o aldeamento é o mesmo e os fins de praia na piscina são inesquecíveis para quem é do grupo e para quem não é...

Nesse Agosto, nós não fomos. Morámos em Lisboa, como "antigamente", passámos muitas manhãs em actividades da Ciência Viva, dormimos sestas e jogámos, e, em todos os fins de tarde dos dias úteis, passámos algum tempo no IPO.

Os meus quatro filhos experimentaram brincar, no parque infantil, com meninos como eles, mas carecas, por estarem ali internados... Meninos a viverem algum sofrimento do género do que eles já conheciam da mamã. Mas a mamã era bem adulta e ali estavam meninos mais novos do que eles.

Tudo começou com marcações tatuadas. Eu, que sempre achei que tatuagens não eram para mim, confirmei que não podemos dizer "desta água não beberei". São seis pequenos pontos, dois em cada um dos lados das mamas e dois entre elas. São as guias dos traços em cor bem viva (a minha era rosa fluorescente), que se fazem e refazem, para que não haja enganos na zona a irradiar.

No primeiro dia, eu tinha uma camisola de cavas e o cor-de-rosa via-se no sovaco como se eu, menina, tivesse andado a brincar com canetas de feltro. E à noite, quando tirei o sutiã especial que usava, vi que ele já tinha perdido a sua brancura homogénea e se misturava então com variadas manchas rosa choque. Lavei-o, mas não saiu. No dia seguinte, vesti o outro que tinha. Não usei gel de duche naquela zona, como me recomendaram, mas, mesmo assim, foi necessário avivar os traços. E o segundo sutiã teve o mesmo destino do primeiro. Sempre lavados, mas sempre rosados - o mês inteiro.

Durante esse mês, o creme a utilizar na mama irradiada era especial e tinha de ser colocado três vezes ao dia, com as pontas dos dedos, em especial a do mindinho, para não apagar os traços cor-de-rosa. Era um trabalho chato, mas dividido com o meu marido, que brincava começando por colocar pintinhas de creme em cada um dos quadradinhos do quadriculado que os traços formavam.

O tempo em que eu estava deitada por baixo do aparelho que fazia incidir em mim uma luz vermelha, aparentemente inofensiva, não ultrapassava os quinze minutos. Mas nesse tempo eu ficava imóvel. E a seguir, íamos jantar os seis.

Em algumas manhãs sem Ciência Viva, o pai levou os filhos à praia, a Cascais. Eu não podia apanhar sol, mas num dos dias também fui e fiquei a ler e a ouvir música num bar de ingleses muito agradável.

A meio do tratamento, começou a sensação de pele queimada pelo sol (da rádio). E era um suplício não poder espalhar o creme na mama com a mão aberta, para um pouco de alívio. E um pouco depois desse primeiro sintoma, aconteceu-me também o cansaço físico.

A radioterapia é um tratamento que utiliza a energia fornecida por diferentes tipos de raios (raios x, raios gamma, cobalto, electrões...), que, juntos, formam a radiação ionizante destinada a destruir e a impedir a reprodução das células malignas do corpo.

No meu caso, ela foi feita sobre uma pseudo-mama, formada por um expansor cheio de soro fisiológico, sustentado pelo músculo grande peitoral, que abandonou o seu local (que era atrás do tecido mamário, quando ali havia tecido mamário) e passou para a frente, ficando coberto pela pele remanescente da antiga mama. Portanto, fui submetida a vinte e cinco sessões de radioterapia, sendo que tal tratamento faz perder a elasticidade da pele da zona irradiada.

E, a partir do final do tratamento, ainda no tempo do expansor e já no tempo da prótese de silicone (sobre a qual escreverei um dia destes), a minha vida tem acontecido com uma permanente dor na mama, dor essa que se define por um aperto, como se tivesse vestido um sutiã alguns números abaixo, o qual, obviamente, não está lá e, como tal, não posso tirar. Piora em situações de emoção, stress, sustos, frio, pois a pele contrai-se e o espaço para o implante diminui.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Preto - Contra o Cancro



Comam-no do modo que mais vos agradar, mas não se esqueçam da vossa dose diária de chocolate... preto!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Nos Intervalos da Quimio (II - Semana a Semana)

(Alerto para o facto de este ser um relato do meu caso, podendo haver reacções muito distintas das minhas)

Na semana um, há intolerância a odores e sabores, náuseas e vómitos. É difícil encontrar algo que se consiga comer. Se bem me lembro, eu só me dei bem com morangos (sem açúcar) e cerejas, com peixe grelhado, brócolos, courgete e ovos escalfados. Mas o problema é que é preciso variar a alimentação, se realmente quisermos prevenir problemas para a sessão seguinte...
Não me dei nada bem foi com as lavagens de dentes, até uma amiga me recomendar "Kin", um dentífico cujo único e ligeiro sabor é o do flúor. Por essa altura, é também preciso prevenir a secura de todas as mucosas (narinas, gengivas, lábios, ânus, vagina) e as suas consequências - comichão, tosse, aftas, gengivas sangrentas, lábios rebentados, dor de garganta.
A seguir ao primeiro ciclo, cheguei a ter os lábios todos rebentados e as gengivas bem inflamadas, pois não tive esclarecimento suficiente sobre a utilização de uma solução trazida do IPO, que se mistura com Mycostatin, para se bochechar e engolir, depois da higiene oral. Nos ciclos seguintes, esse problema já foi minorado.
A primeira semana é aquela em que as nossas defesas vão diminuindo de dia para dia, sendo a segunda uma semana em que nos mantemos em baixo. Os distúrbios gastrointestinais revelam-se logo na primeira e mantêm-se, ainda que tendam a ser minorados graças à ingestão de sopas e aos três litros de água por dia. Falo de obstipação muito severa, com formação de verdadeiras pequenas pedras, que se colam umas às outras - uma das consequências que mais dificilmente aguentei, pior ainda que as sensações de enfartamento, má disposição gástrica e azia.

Na semana dois, devemos ser particularmente cuidadosas com o frio, as correntes de ar, as mudanças de temperatura e tudo o que nos possa constipar ou engripar, pois o nosso organismo está realmente fraco em defesas. Andar ou não na rua deve ser decidido em função das condições atmosféricas. É a semana da extrema fadiga, das dores nas pernas e nos braços, da vontade de dormir o mais possível - para não sentir, embora a dor nas zonas operadas atrapalhe o próprio sono. É a semana em que nos devemos obrigar a uma alimentação adequada à manutenção das forças.

Na semana três, apesar de muito daquilo que já foi revelado se manter, é verdade que cada novo dia traz uma sensação de melhoria e o ânimo vai-se multiplicando. Mas, no fim desta semana de sorrisos cada vez mais largos, estamos no dia de mais uma entrada de venenos, sem apelo nem agravo. E dá-se um fenómeno de repetição quase integral das consequências já experimentadas.

E cada ciclo é sempre pior do que o anterior, pelo conhecimento de causa e pelo sofrimento acumulado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Nos Intervalos da Quimioterapia (I - O Choque)

Seis sessões (ou ciclos) multiplicadas por três semanas de intervalo entre elas, contando com as que se seguiram à última, perfazem um período de tratamento por quimioterapia de quatro meses e meio.
No meu caso, tínhamos (o meu marido e eu) sido informados de que o número de ciclos a enfrentar por mim seria o quatro. Mas no dia da consulta de radioterapia (coincidente com o do quarto ciclo), fomos confrontados com o facto de algo estar errado no meu processo, pois, uma vez que ainda me faltava cumprir dois ciclos de quimio, não era altura de eu já estar na consulta de radioterapia.

Como foi possível um engano destes, com consulta marcada pelo pessoal do hospital e tudo, é algo que eu nunca cheguei a saber, mas sei que se anulou a consulta de rádio, a qual incluía uma TAC, e sei que nesse dia se cumpriu o quarto ciclo, comigo em esforço desumano para não chorar... muito. Não consegui decidir se fui acometida por uma brusca sensação de desânimo, por afinal eu não ter ido para a última sessão (como estava convencida de que seria), se senti uma forte indignação, por ter acontecido um erro tão cruel para uma doente oncológica, se foi mesmo raiva, por me sentir subestimada (não sei por quem!), estando eu a portar-me tão bem, desde o início de todo o processo, a aceitar a doença como algo que me aconteceu a mim como a tantas outras, atenta, sempre atenta e cumpridora...
É que os intervalos da quimio não são propriamente dias de férias passados com boa disposição e requerem alguns cuidados específicos, para que o resultado das análises seguintes não impossibilite o tratamento subsequente.
As três semanas de intervalo têm características diferentes, como relatarei no próximo post.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Atenção, Verificação, Marcação, Consulta, Exame...





90% dos cancros da mama são curáveis, se forem detectados a tempo!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Incapacidade Fiscal!

Apetece-me imitar o Raul Solnado e dizer:
'Mandei fazer dois fatos e fui à Junta Médica'. Naquele edifício alto, estão a ver, aquele que já pensaram em fazer implodir, o da Segurança Social, em Viseu.
Fui, depois de ter pedido para ir, pois se não tivesse mendigado (ninguém me sabia informar como fazer - nem no local de trabalho, nem no IPO, nem no Centro de Saúde a que pertenço, nem no próprio edifício da SS...), teria ficado para sempre sem beneficiar de nada daquilo a que, legalmente, tenho direito.
Por essa altura, só não fiquei convencida de que era a única doente com cancro em todo o distrito de Viseu, pois já vira a lista do Dr. CV para cortar mamas em todos os dias do mês de Janeiro.
Parecia que era a primeira vez que todos viam alguém perguntar como aceder a direitos de quem está doente. Quase ia ficando contente! Olha, sou a primeira!...
E fiquei pensativa: Se o IPO atesta que eu sofro desta doença, da qual sofrem quase todos os seus utentes, porque é que não há, no próprio Hospital, um serviço para encaminhar os ultra-fragilizados seres para o gozo dos direitos relacionados com a sua desventura?
O que vale é que há sempre uma boca amiga, que se abre para contar algo de que já ouviu falar e nos pode interessar. Justiça seja feita a muitas pessoas de boa vontade, que ajudam sem querer nada em troca.
Depois de muitas investidas e de várias esperas longas nos frios corredores do 'SS' de Viseu, recebi em casa uma percentagem... Veio pelo correio: 60%. Era, a partir do "meu" ano (pois ainda no ano anterior era de 80), a percentagem de incapacidade atribuída às doentes com cancro da mama.
"Ok. E agora? O que é que isto significa?"
Significava algumas coisas, mas, na prática, aquilo que me interessava não me enquadrava (só porque eu sou muito especial, claro, não é por o Estado ser labiríntico!). Não pude, por exemplo, usufruir da redução da mensalidade do empréstimo da casa, pois, para que isso pudesse concretizar-se, eu teria de converter o meu empréstimo a 30 anos num empréstimo a 20, o que, já com a redução que me era devida, fazia com que eu passasse a pagar uma mensalidade maior do que a que tinha. LOL
Sei lá eu quando é que vou desta para melhor. Tenho quatro filhos para criar, quero é pagar a casa no maior número de anos possível e com a prestação mais baixa que conseguir...
E os 60%, por cinco anos, para mim, conseguiram apenas resumir-se a uma redução no IRS.
"Bem bom!" - dirão alguns. "Bem bom!" o tanas! Quando regressei ao trabalho, pensam que o que me esperava era 40% do serviço, como seria lógico (ou não acham?)? Não. Eu até me atreveria a dizer que eram 200%, porque, professora ausente da escola por doença grave durante o período em que se operaram mudanças radicais nas escolas entrei com a sobrecarga de me pôr a par das novidades de uma forma praticamente imediata. Isto porque era professora que chegava para assumir a coordenação de um departamento e do seu subdepartamento; para avaliar os colegas (algo que nunca fizera); para frequentar uma formação anual de novos programas a implementar no ano lectivo seguinte, como formanda, fora da escola, e como "formadora" dos colegas do subdepartamento; para dar aulas a duas turmas; para fazer adequações (individuais, claro) para os alunos com necessidades educativas especiais; para orientar estudantes no Centro de Recursos; para apoiar discentes com dificuldades de aprendizagem...
Trabalhei um mês!
Voltei para casa frustrada e indignada por pertencer a um país que não se importa de pagar o ordenado por inteiro a duas pessoas, estando uma em casa e outra a substituí-la, em vez de pagar só 60% ao substituto.
O que é que significará 'incapacidade'? Desde então, nunca mais consegui saber. Pareceu-me, todavia, que me consideraram incapaz de descontar o IRS por inteiro! Assim se tentam calar os doentes, que devem ficar contentes por ganharem mais uns trocos durante uns tempos; agora, trabalhar é para ser no duro. E se assim não quiser (leia-se 'não conseguir'), a pessoa que se deixe ficar em casa a gastar os 36 meses de baixa sem quaisquer descontos que lhe concederam - por uma vez na vida!!!
Mas quem é que quer gastar de uma vez só todo o tempo de baixa sem descontos a que tem direito numa vida de trabalho? E se houver outra doença? A pessoa quer é ir trabalhar. Mas por que razão lhe terão atribuído 60% de incapacidade e a fazem trabalhar como se estivesse 100% capaz?
Ficam a saber, portanto, que um cancro de mama pode dar direito a 60% de incapacidade... fiscal!!!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Os Dias da Quimio


Foram seis os dias da minha quimioterapia, no IPO de Lisboa. E, a separá-los, houve sempre três semanas.
Para que todos os líquidos venenosos que deviam entrar em mim tivessem a sua tarefa cumprida era preciso um mísero período de tempo de hora e meia. Mas este tempo, sentada num cadeirão de uma sala "forrada" de cadeirões idênticos, ultrapassava sempre as doze horas, contado desde a hora do acordar, em Viseu, até à do deitar, de novo em Viseu.
Três horas antes de cada sessão, era preciso estar no Pavilhão de Medicina, para fazer análises ao sangue, e o resultado dessas análises determinava se o ciclo desse dia se cumpriria ou não. No meu caso, tive a felicidade de nunca ser enviada de volta, com vista a recuperar o necessário para enfrentar uma nova dose. Contudo, relativamente à hora marcada para o tratamento, tive quase sempre esperas de duas e três horas, ao fim das quais eu tinha os nervos em franja e chegava ao Hospital de Dia sem saber se tinha fome, se era vontade de fazer xixi, se estava com frio... Sentia um desconforto do tamanho do mundo e esforçava-me, com sucesso, por não deixar sair as lágrimas que me comichavam os cantos dos olhos.
Seguia-se o espetar da agulha, o que, a maior parte das vezes não resultou à primeira, chegando a deixar marcas do massacre de um bico que esteve espetado por baixo da pele do meu braço (ou da minha mão), em movimento insistente de procura do que não encontrava - a veia.
Chegada ao ponto da colocação do adesivo, para segurar, tive ciclos em que a agulha ficou bem colocada e a principal dificuldade era ter de aguentar hora e meia com o braço gelado; mas houve outros de hora e meia de tormento, porque a agulha ficou a picar-me ("mas estava tudo a entrar bem...").
Durante essa hora e meia, era permitido ler, ver televisão, ouvir música com auscultadores, mas eu não tinha vontade de absolutamente nada. E ia reparando na azáfama da equipa de enfermagem, nas dificuldades em espetar as agulhas aos outros doentes (chegamos a um ponto em que as veias já não respondem... e as minhas tinham de ser sempre procuradas no braço esquerdo, pois o meu braço direito é um braço a poupar, devido à mastectomia), reparava nas carecas, nas boinas, nas cabeleiras... E também em quem estava acompanhado (a maioria) e em quem não estava. E imaginava de que sofreria cada uma daquelas pessoas (de cancro, claro, mas de quê e em que estádio...).
Os enfermeiros não conversavam connosco. Tudo se passava de um jeito mecânico, de quem arranja agora um carro e o despacha, para, logo a seguir, quase sem respirar, arranjar outro.
Quando o tratamento calhava num dia a seguir a um feriado, a concentração de doentes era muito maior e o tempo de espera muito doloroso. (Se há turnos em enfermagem, porque é que não havia tratamentos nos feriados?)
Acabada a minha gelada hora e meia, eu e o meu marido, que esteve sempre ao meu lado, despedíamo-nos da equipa de enfermagem, até daí a três semanas. E iniciávamos a viagem para Viseu, enquanto eu telefonava para casa, para calcularem a hora da nossa chegada.
No primeiro ciclo, a entrada em casa coincidiu com o cheiro a carne grelhada, amavelmente preparada pela minha mãe, para me agradar. E eu senti o primeiro vómito.
Nesse dia, houve várias tentativas para que eu jantasse (porque eu até tinha fome), mas tudo me parecia doce, excessivamente doce, até o sumo de laranja, que a minha mãe garantiu ser de laranjas amargas.
Dois ciclos depois, a minha mãe descobriu uma refeição que não me enjoava: courgete estufada com tomate e ovos escalfados.
Tomava uns comprimidos para enjoos, cujo nome não recordo agora, que terão feito o seu efeito, mas, como sempre os tomei, não tenho termo de comparação entre o enjoo prevenido e aquele que o não é.
O que acontecia nos intervalos da quimio escreverei um dia destes.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quero uma Vida Azul!







Quando for grande, quero ter duas mamas sem cancro e ser ignorante a respeito desta doença!

Hormonas e Cancro da Mama

Teresa Branco explica.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Tamoxifeno e a Sua Guerra Contra os Estrogénios




















Algumas células do corpo humano são receptoras de hormonas. Células tumorais da mama que o sejam vivem dos estrogénios que o organismo da mulher produz e, através dele, adquirem capacidade para se multiplicarem, potenciando a metastização.
Mas o facto de tumores cancerosos nas mamas serem receptores de hormonas pode ser uma vantagem, pois, perante esse facto, é possível agir sobre a produção de estrogénios e, desse modo, evitar a proliferação das células defeituosas.
A acção sobre os estrogénios pode acontecer de forma radical, retirando os seus produtores, os ovários, ou administrando uma hormona que irá competir com a hormona natural, ligando-se aos receptores das células afectadas e, assim, neutralizando o efeito da hormona natural.
O Tamoxifeno é um bloqueador dos receptores, impedindo que o estrogénio volte a estimular as células cancerígenas.
Está já comprovado que este medicamento reduz substancialmente o aparecimento de neoplasia na mama contralateral, mas, como não há bela sem senão, há efeitos colaterais, secundários e limitações apresentadas por esta medicação, bem como a estimulação do cancro do endométrio, pois, para o útero, o Tamoxifeno é estrogénico - o que exige uma observação ginecológica mais frequente.
Esta espécie de "anti-hormona" é, normalmente, ingerida sob a forma de comprimidos, diariamente, durante cinco anos, ao fim dos quais, se ainda se revelar necessária, deverá ser substituída por outro medicamento, pois o organismo, por essa altura, já terá desenvolvido defesas contra a sua acção.
Nas mulheres pré-menopausicas, a menstruação é suprimida, pelo tempo da toma - o que não constitui uma indução da menopausa (tratamento que também pode ser adoptado, dependendo dos casos).
As interacções medicamentosas devem ser controladas, pois algumas podem provocar trombose.
Os efeitos secundários dependem das pessoas, mas é praticamente garantido um aumento de peso, com acumulação de tecido à volta da cintura.
A hormonoterapia começou, para mim, depois da quimioterapia e da radioterapia, pelo que mora em mim uma barreira anti-estrogénica há cerca de ano e meio. E estou, naturalmente, ligeiramente mais gorda e com uns mini-pneus na cintura. Mas isso só se nota, para os outros, se eu quiser e no Verão.
Os meus comprimidos, fornecidos pela farmácia do IPO, são redondos, cor-de-rosa e pequeninos e eu tomo um com cada pequeno-almoço.
Como contra esta necessidade de terapêutica hormonal não há nada a fazer, o melhor mesmo é enveredar por uma dieta equilibrada, por beber muita água e por praticar exercício físico, tudo de forma regular e para sempre. E nada disto é fácil...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Lobbies de Propagação de Doenças

Na medicina, a comunidade científica é refém da indústria farmacêutica.
Por mais métodos de prevenção do cancro que já estejam comprovados, os médicos não propagandeiam o modo de os futuros doentes potenciarem uma fuga à maleita.
Os mecanismos de pressão são mais que muitos e os congressos médicos debruçam-se exclusivamente sobre métodos de travar as doenças já declaradas.
A prevenção do cancro não dá dinheiro às Farmacêuticas; o tratamento e a tentativa de cura dão milhões, apesar do enorme número de fracassos, pois, a despeito de alguns avanços na medicina, o cancro ainda é sinónimo de morte e as drogas utilizadas nos tratamentos conseguem, na maioria dos casos, apenas prolongar a vida com alguma qualidade ou, em número ainda exagerado, serem meros paliativos, quais almas miraculosas que aliviam até o sofrimento de famílias e amigos dos doentes.
Não sei se em algum dia da existência humana o valor mais alto será exactamente a existência humana ou se, para todo o sempre, os interesses económicos estarão à cabeça de quaisquer outros.
Há investigadores que chegam a ser despedidos, depois de importantes provas dadas, por terem descoberto mais do que interessa às Farmacêuticas. E há outros que a pouco se podem dedicar, pois as verbas canalizadas para a investigação são de tal forma irrisórias que os médicos afirmam ser completamente impossível o desenvovimento da cura do cancro, ainda que a longo prazo. Será que a longuíssimo lá se chegará? Algo como a "estabilização" da doença (e não a cura), como no caso da diabetes, em vida dos nossos trinetos?
Dentro da falha da informação relativa à prevenção, que devia fazer parte de um plano público, a nível mundial, eu incluo também a fuga aos mais inócuos (mas mais caros) meios complementares de diagnóstico, obrigando os pacientes à exposição a substâncias que provocam o próprio cancro (como os raios-x), e a outras que causam sofrimento (como punções e biópsias).
Refiro-me, por exemplo, ao método muito badalado da mamografia, absolutamente recomendável apenas porque os médicos estão mandatados para não gastarem dinheiro ao Estado em ressonâncias magnéticas a torto e a direito. A torto e a direito? Então não há bom senso e responsabilidade na classe médica? Haverá. Mas eles sofrem pressões dos governos, os quais sofrem pressões das farmacêuticas multinacionais.
Portanto, a radiação de meia dúzia de mamografias (absolutamente obrigatórias anualmente, pelo menos a partir dos 35 anos - o que até já é tarde) pode ser a causa de um cancro na mama. Sei lá eu se não foi a causa do meu, pois eu tenho uma conta que quase dobra a referida...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

IRS Contra o Cancro




















Para melhor visibilidade,
cliquem na figura e ela aparecerá muito maior.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A água lava tudo; leva tudo na frente!














Enquanto fiz quimioterapia, precisei de beber três litros de água por dia (A água lava tudo - disse-me o médico -, leva tudo na frente.)
Pessoa pouco dada a beber água, três litros pareceu-me uma meta impossível de atingir, até pelo número de vezes que isso me obrigaria a ir vertê-la!
No início, tinha duas garrafas de litro e meio, que, começando a beber logo ao acordar, teriam de ficar vazias ao deitar. Mas eu não dava mesmo conta do recado. Começou por me sobrar litro e meio e eu tinha passado o dia na casa de banho... Perguntei ao médico se litro e meio não chegava. (Nem pensar! O veneno tinha de ser diluído em água e empurrado para fora do organismo - depois de cumprida a sua função!)
Decidi então ir ao hipermercado com o específico propósito de desvendar os mistérios da secção das águas. 'Mistérios' para mim, claro, que sempre bebi água da torneira e pouca. Fiquei fascinada: ele há várias dezenas de marcas e um vasto número de tamanhos dos recipientes, bem como águas sem e com sabor. E quanto aos sabores, um sem-fim! Escolhi garrafas de meio litro e águas com sabores variados, e enchi o porta-bagagens.
Seis garrafas por dia passou a ser a conta que eu precisava de ingerir. Dispunha-as de manhã num tabuleiro, o qual, à ida para a cama, tinha de ficar vazio. Também não consegui o objectivo logo nos primeiros dias, mas, sendo algumas das águas mesmo bastante agradáveis, em duas vezes eu conseguia beber uma garrafa, o que começou a entusiasmar-me. Livrei-me do fantasma da garrafa de litro e meio. E cheguei mesmo a beber a conta que me era devida, sem, com isso, duplicar o número de idas ao WC...
Apenas os primeiros três ou quatro dias das três semanas de intervalo entre um ciclo e outro eram dias em que não tolerava os sabores na água, e a da torneira também não chamava por mim. De modo que investi em água do Luso, da Serra de Estrela e outras, para essas ocasiões.
Sem muita água, eu não teria, também, conseguido resolver uma das mais difíceis consequências da quimioterapia: a obstipação severa. Momentos de horror, mesmo!
Hoje, não bebo três litros, mas acho que chego ao litro e meio. Para a vida.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Depois do Segundo Ciclo, a Alopécia


Um dos frascos dos vários venenos que me entraram na veia por seis vezes continha um líquido vermelho que, entre outras arrelias que provocava, fazia cair o cabelo.
Três dias depois da segunda sessão, iniciou-se em mim um processo de alopécia, que aguentei durante cinco dias. Depois disso, num sábado à tarde, reuni a família para colaborar na minha sessão de corte radical do cabelo.
Fiz o que me aconselharam - rapei -, pois já iam ficando cabelos em todos os lugares da casa, em todos os centímetros das minhas roupas e, sobretudo, na minha almofada.
Fiz do corte uma sessão fotográfica em que a modelo ia ficando com o cabelo cada vez mais curto, facto que ia sendo registado na retina, na memória, na máquina digital...
Depois das muitas tesouradas, tentando penteados estilosos, cheguei a um ponto em que os meus filhos me acharam parecida com a professora de guitarra (que usa o cabelo muito curtinho), e essa comparação animou-me, pois ela até fica bem engraçada com aquele penteado. Pior foi depois de ter usado a máquina com o pente quatro, pois, nesse estado, os meus sinceros piolhos já me acharam parecida com um homem. E depois do pente zero, tiraram-me a foto que aqui se vê (é a primeira da minha careca) e perguntaram se eu ia andar assim na rua.
Claro que não andei assim na rua. Era Março em Viseu e o frio entrava-me pela cabeça.
Já tinha comprado uma cabeleira em Lisboa, já a tinha levado ao cabeleireiro, para ele a cortar ao jeito do meu cabelo, e experimentei sair com ela. Foi uma vez. Parecia uma "dondoca" e o frio entrava-me pelos buracos da rede que aquilo tem por dentro. Portanto, no dia seguinte, comprei a primeira de muitas boinas giraças e assim andei sempre, quer ao frio, quer ao calor, enquanto o cabelo não cresceu a ponto de se poder dizer que já tinha a cabeça coberta de pêlo...
Falta dizer que, na mesma data do meu corte, o meu marido rapou também o cabelo e ficámos ambos carecas.



Claro que o cabelo dele ia crescendo e as minhas pequeninas pontinhas até caíram todas. Portanto, ele optou por, de tempos a tempos, chegar a lâmina à cabeça (com a minha ajuda), para não me ultrapassar na cobertura do escalpe.
Hoje já tenho o cabelo comprido, de novo aos caracóis, que dão um certo trabalho, enquanto a careca era um descanso...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nu Espelho

Uma saúde às nossas mamas de nascença!




















Há que vigiá-las!
Por mais bonitas que sejam,
estão à mercê de quem lhes quer mal...

Nota: O vinho tinto, nas doses reconhecidamente saudáveis, é um preventor.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Com Estímulos e Sem Eles

Receber uma notícia de cancro foi, para mim, a certeza imediata de que a parte da minha vida já vivida ficaria, a partir de então, em suspenso, e a nova parte se iniciava nesse instante (e não daí a fosse quanto tempo fosse), como quem acaba de se atirar de um avião, com um pára-quedas para fazer accionar na altura exacta.
Foi assim que me senti. Estimulada para agir da melhor forma em todos os momentos necessários, uma vez que do avião eu já fora atirada...
O que se seguiu foram consultas e exames vários, três cirurgias, seis sessões de quimioterapia, vinte e cinco de radioterapia e uma carecada. E eu sempre "a bombar", positiva, empreendedora, confiante num final de alívio daí a muitos meses.
Até que, por falta de aconselhamento, fiquei simplesmente em casa, com a minha dor, a qual eu, por iniciativa própria, considerei que poderia ser aliviada com hidroginástica. (Nenhum dos médicos da equipa que me segue me aconselhou a fazer qualquer espécie de exercício nem a ter acompanhamento psicológico ou psiquiátrico - talvez pela minha inconveniente aparência de super-mulher cujas palavras de fraqueza parece nunca serem acreditadas.) Todavia, a hidroginástica, por si só, não deu conta da minha dor, que foi apenas física até se perceber que tinha ganho um novo estatuto e já era também psicológica.
Um dos médicos em questão percebeu isso já muito tarde, quando eu lhe transmiti que não queria viver com uma dor assim para o resto da vida e que, portanto, preferia abdicar da minha reconstrução, desfazer o que estava feito e passar a usar uma prótese externa. Fui, nesse dia, "encomendada" para a fisiatria e para a psiquiatria, algo a que eu deveria ter tido acesso desde o início, mas ninguém me disse que me iria fazer falta!
Que estava eu a fazer em casa com uma dor? À espera que os meus tecidos cedessem, sem estimulação, o suficiente para que se pudesse concluir o processo de reconstrução, repuxando pele para formar o mamilo, à volta do qual seria tatuada a aréola? Nunca lá chegaria... O "sítio" a que cheguei tem o nome de 'depressão reactiva', por falta de estímulos! Tivessem-me marcado os trabalhos e eu tê-los-ia realizado todos, sempre com a noção de que estava a caminhar para me sentir melhor. Escusava de ter chegado a sentir-me uma coisa, um jarrão dentro de uma casa, que ali está sempre, enquanto os indivíduos do lar entram e saem para cumprimento de obrigações.
A partir do dia em que afirmei preferir abdicar da minha "mama", voltei a reagir, mas a verdade é que, depois de se ter ido ao fundo, a subida custa a conseguir e todo o processo é muito mais lento do que se não tivéssemos conhecido as profundezas.
A fisioterapeuta pegou num bloco imóvel (que hoje já se aperta) e a psiquiatra acolheu uma pessoa sem vontade (que hoje já retomou algum do seu sentido de humor), a quem, para além da medicação que perscreveu, aconselhou um tratamento da dor por hipnoterapia, ao cuidado de uma psicóloga.
São estes os meus novos estímulos. Sem estímulos, definho. Infelicidade a minha, mas é assim: por muito difícil que seja aquilo que me pedem, a verdade é que preciso que exijam de mim, que me solicitem, que me desafiem, no fundo, para eu acreditar que vale a pena dar, que valho alguma coisa, que sou útil...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Água em Plástico Deixada no Carro é Água Não Potável, ou pior, Água Cancerígena!

Atenção: o calor e o frio provocam libertação de toxinas nas matérias plásticas (garrafas de água, por exemplo), as quais passam para os produtos nelas conservados (a água...) e deles para o organismo humano, quando ingeridos.

As toxinas do plástico foram encontradas nos tecidos mamários de mulheres a quem foi diagnosticado Cancro da Mama - mas podem também ser responsáveis por outros tipos de cancro.

Cuidem-se!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Interiorizar e Aceitar



Depois da mastectomia e dos pensos e pontos retirados, é preciso vermo-nos ao espelho e tocarmo-nos...
Se os olhos forem quatro e as mãos também, tudo se torna mais fácil de suportar. Este é um momento extremamente enriquecedor (ou não!) da cumplicidade de um casal.

Com o passar do tempo, nos casos de reconstrução mamária, os toques, a quatro mãos, ainda que alternadamente (agora as minhas; agora as dele), devem ser bastante frequentes, para manter a mama fofa e para dessensibilizar.
A minha fisioterapeuta até me aconselhou a ir massajando - enquanto vejo um filme, por exemplo -, com o cuidado de não me habituar de tal maneira, que saia para a rua e vá continuando o processo... lol

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Mas onde é que andam todos?



Na minha infância, tive um sonho recorrente que consistia em tocarem à minha campainha e, depois de eu abrir a porta, deparar-me com um paralelepípedo de mármore que tapava todo o espaço da saída, o qual era impossível de arredar e configurava a minha situação de prisão dentro de casa. Ainda no sonho, para remédio dessa circunstância penosa, aparecia-me a hipótese de pegar no intercomunicador e, através dele, pedir ajuda a algum transeunte que me ouvisse no passeio. E era isso que eu tentava fazer. Mas, da minha garganta, não conseguia sair qualquer som que me anunciasse. E, invariavelmente, acordava em aflição, sem perceber porque se repetia aquela tortura.

Hoje fui a uma consulta de fisiatria, a terceira no âmbito do meu processo de regeneração da pele e do músculo peitoral, que revestem o implante de silicone que forja a mama direita em mim. A dor que sinto na "mama" define-se por um aperto, o qual não tem diminuído de intensidade, apesar das muitas sessões de fisioterapia a que já me submeti. Contudo, ao toque, a pele já desliza sobre a prótese e a dor já não provoca lágrimas. Aparentemente, temos aqui um contrassenso, pois se a fibrose já está em regressão e/ou a pele já ganhou alguma elasticidade, o mau-estar do dia-a-dia devia estar aliviado. Mas não está. E porquê? Por muitas razões, talvez, entre as quais a dor psicológica de tantas vezes não terem ligado à minha descrição desta dor, insistindo que eu estou óptima.

De certa forma, estou presa dentro de mim, como, no sonho, o estava dentro de casa - pois quem para mim olha vê uma pessoa de aspecto normal, que se movimenta, fala, ri, caminha...; de certa forma, eu, que sempre quis explicar esta dor, nunca encontrei compreensão; e, de certa forma, eu, que sempre quis partilhar a minha doença, para meu alívio (libertando carga...) e para dar a conhecer modos de a evitar e de minorar o sofrimento dos tratamentos, não encontro receptividade.

Estou a viver o que sonhava na infância: se alguma mensagem sai da minha boca ou se forma a partir da minha composição em teclas, a verdade é que não há transeuntes que me ouçam no passeio, ou, se os há, têm sido indiferentes à minha necessidade de partilha.

E o fisiatra aconselhou-me hoje a não sair de casa apenas para ir aos vários médicos e às várias terapias. Acha ele que eu devo sair com as minhas amigas...