Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

Por aqui, discorre-se sobre:

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riscos marcantes

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NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Agosto ao Sol da Rádio

Era Agosto, mês das férias com a 'Família Alargada', aquela que inclui os primos dos filhos e os primos desses primos e mais uns quantos que é como se fossem primos e somam um total de trinta miúdos. Ao sol de uma praia nova ou repetindo a do ano anterior, a malta junta-se por quinze dias e, vivendo cada família nuclear em sua casa, o aldeamento é o mesmo e os fins de praia na piscina são inesquecíveis para quem é do grupo e para quem não é...

Nesse Agosto, nós não fomos. Morámos em Lisboa, como "antigamente", passámos muitas manhãs em actividades da Ciência Viva, dormimos sestas e jogámos, e, em todos os fins de tarde dos dias úteis, passámos algum tempo no IPO.

Os meus quatro filhos experimentaram brincar, no parque infantil, com meninos como eles, mas carecas, por estarem ali internados... Meninos a viverem algum sofrimento do género do que eles já conheciam da mamã. Mas a mamã era bem adulta e ali estavam meninos mais novos do que eles.

Tudo começou com marcações tatuadas. Eu, que sempre achei que tatuagens não eram para mim, confirmei que não podemos dizer "desta água não beberei". São seis pequenos pontos, dois em cada um dos lados das mamas e dois entre elas. São as guias dos traços em cor bem viva (a minha era rosa fluorescente), que se fazem e refazem, para que não haja enganos na zona a irradiar.

No primeiro dia, eu tinha uma camisola de cavas e o cor-de-rosa via-se no sovaco como se eu, menina, tivesse andado a brincar com canetas de feltro. E à noite, quando tirei o sutiã especial que usava, vi que ele já tinha perdido a sua brancura homogénea e se misturava então com variadas manchas rosa choque. Lavei-o, mas não saiu. No dia seguinte, vesti o outro que tinha. Não usei gel de duche naquela zona, como me recomendaram, mas, mesmo assim, foi necessário avivar os traços. E o segundo sutiã teve o mesmo destino do primeiro. Sempre lavados, mas sempre rosados - o mês inteiro.

Durante esse mês, o creme a utilizar na mama irradiada era especial e tinha de ser colocado três vezes ao dia, com as pontas dos dedos, em especial a do mindinho, para não apagar os traços cor-de-rosa. Era um trabalho chato, mas dividido com o meu marido, que brincava começando por colocar pintinhas de creme em cada um dos quadradinhos do quadriculado que os traços formavam.

O tempo em que eu estava deitada por baixo do aparelho que fazia incidir em mim uma luz vermelha, aparentemente inofensiva, não ultrapassava os quinze minutos. Mas nesse tempo eu ficava imóvel. E a seguir, íamos jantar os seis.

Em algumas manhãs sem Ciência Viva, o pai levou os filhos à praia, a Cascais. Eu não podia apanhar sol, mas num dos dias também fui e fiquei a ler e a ouvir música num bar de ingleses muito agradável.

A meio do tratamento, começou a sensação de pele queimada pelo sol (da rádio). E era um suplício não poder espalhar o creme na mama com a mão aberta, para um pouco de alívio. E um pouco depois desse primeiro sintoma, aconteceu-me também o cansaço físico.

A radioterapia é um tratamento que utiliza a energia fornecida por diferentes tipos de raios (raios x, raios gamma, cobalto, electrões...), que, juntos, formam a radiação ionizante destinada a destruir e a impedir a reprodução das células malignas do corpo.

No meu caso, ela foi feita sobre uma pseudo-mama, formada por um expansor cheio de soro fisiológico, sustentado pelo músculo grande peitoral, que abandonou o seu local (que era atrás do tecido mamário, quando ali havia tecido mamário) e passou para a frente, ficando coberto pela pele remanescente da antiga mama. Portanto, fui submetida a vinte e cinco sessões de radioterapia, sendo que tal tratamento faz perder a elasticidade da pele da zona irradiada.

E, a partir do final do tratamento, ainda no tempo do expansor e já no tempo da prótese de silicone (sobre a qual escreverei um dia destes), a minha vida tem acontecido com uma permanente dor na mama, dor essa que se define por um aperto, como se tivesse vestido um sutiã alguns números abaixo, o qual, obviamente, não está lá e, como tal, não posso tirar. Piora em situações de emoção, stress, sustos, frio, pois a pele contrai-se e o espaço para o implante diminui.

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