Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

Por aqui, discorre-se sobre:

... Acompanhamento Psicológico Ajudar quem Ajuda Alertas Alimentação Alopécia Antes e Depois Aquisições autoestima Brincadeira Cancro da Mama nos Homens Cansaço Chamar os bois pelos nomes Cirurgias Cirurgias de Amigas Codependência Coisificação nas Doenças Prolongadas Complicações Pós-operatórias Consultas Conviver Cumplicidade Dar / Receber a Notícia Desafios Desânimo Desejos Desespero Despedida Diagnóstico Dicas Dieta Distinções Efeitos Secundários de Medicação Emagrecer Encontros de Amigas Esclarecimento Esperança Estilo de Vida Estímulos Exteriores Exames Pré-operatórios Exemplos Famosos Com Cancro Feminilidade Filosofia de Vida Pós Doença Fisioterapia Fracassos Gang da Mama histerectomia Histórias de Luta Hormonoterapia Hospitalizações Humor Implicações Psicológicas Incongruências Informação Lingerie Correta Lingerie Pós-Operatória Medos Meios Complementares de Diagnóstico Meios de Diagnóstico Menopausa Depois do Cancro da Mama Modos de ser Mudanças na Vida Natal Nova Normalidade Novas Amizades Novidades O Cancro em Pormenores O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças; efeitos secundários da medicação Ocupação em Tempo de Baixa Os cancros dos amigos e familiares Palavras Alheias a Propósito do Propósito Parabéns Partilhar a Doença Perdas Pós-cirurgia Pós-operatórios Prazer em encontrar quem nos entende Prazeres Prevenção Prevenção de Recidivas Processo de Recuperação Projetos de Sensibilização Quimioterapia Radioterapia Rastreio do Cancro da Mama Reações Alheias Reações Pessoais Reconstrução Mamária Regresso à normalidade Regresso ao Trabalho Sentimentos negativos Sexualidade Sinais Sintomas Solidão Tamoxifeno Terapias Toque Tram Flap Tratamentos Verdade Verdadinha Vitórias Vontade de ter poder sobre a doença

riscos marcantes

riscos marcantes

NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de...

...que o novo ano vos traga sempre vontade de votar em vós!

Nada mais importante do que a autoestima! Nem a saúde!

BOM TRABALHO!

*___*

sábado, 24 de dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A "Coisificação" de Quem Tem Problemas de Duração Prolongada

Quem tem acompanhado, minimamente que seja, o meu percurso de doença, nos últimos quatro anos, sabe que eu me queixo de "coisificação" desde o início. Todavia, com a sucessão inesperadamente excessiva de idas à box, a sensação de ser uma máquina velha, continuamente a avariar-se, tem-se agudizado.

Como já um dia escrevi, mamas, para mim, são apenas peças a necessitarem de recauchutagem contínua. E já nem me interessa quem é que trata das coisas, se é o cirurgião A ou o B... Tanto assim é que chego, dispo-me, mostro, eles olham ou mexem ou fazem o que lhes parece necessário e falamos como quem fala de parafusos a substituir, para se poder prolongar um pouco mais o arrastanço existencial do aparelho, uma vez que as restantes peças ainda não justificam propriamente que se desista de tentar deixá-lo andar a uso.
A última vez que fui ao médico foi a 5 deste mês, cinco meses e um dia depois do Tram Flap. Queixei-me do extremo inchaço da barriga, que me provoca dor, incómodo físico e tristeza a nível estético; queixei-me da mama imensa, retirada do abdómen, que está cada vez mais descida, quanto mais não seja pela aplicação da força da gravidade...; queixei-me do meu mal-estar geral, que me impede de trabalhar e de ser feliz. Queixei-me ali, sem roupa, em frente dele, enquanto ele me ouvia e me olhava, com a postura e o ar de quem está, mais uma vez, a condescender em ouvir as mesmas queixinhas de uma doente que devia era estar feliz porque "pode ir para uma praia ou uma piscina sem medo que lhe caia alguma coisa ao chão" (ipsis verbis). E eu fiquei calada, como quase sempre fico... Em quatro anos, ainda não aprendi a responder à letra. Já não devo aprender, portanto. Mas, depois, venho para casa lamentar o que devia ter dito e não disse...

Estava eu nua (não só da cintura para cima, pois ele também tinha a minha barriga para analisar) e tocou o telefone, que ele pediu desculpa por ter de atender, mas que atendeu sem me instruir quanto a manter-me nua ou a vestir-me. E eu ali fiquei, como estava, a ouvir uma conversa que não me dizia respeito, enquanto ele ia olhando para a minha triste figura... Eu olhava para o Pedro, quase a pedir-lhe socorro, mas ele não pôde fazer nada.

No final do telefonema, mandou-me vestir, de imediato!!! E repetiu, de novo, que ainda passou muito pouco tempo sobre a operação, a qual foi uma coisa em grande ("Tem de ver que foi operada, não foi ao cinema..." - ipsis verbis) e que eu tenho de deixar passar o tempo... Acrescentou que há senhoras que ficam com uma protuberância maior e outras com uma protuberância menor (sempre abrindo bem o 'o', a ponto de eu já nem poder com a palavra!) e que eu não me posso esquecer de que tenho uma rede dentro da barriga e que o músculo abdominal já não está lá - "pormenores" de que sua excelência nem sequer me falou antes da operação, apesar de ter tido o cuidado de me perguntar vezes sem fim se eu tinha alguma dúvida... Ora digam-me lá como é que as pessoas podem ter dúvidas sem saberem a matéria?!...

Eu só soube que a minha barriga ia ficar com a sensibilidade toda afetada, quando o senti, depois da operação, e só soube que esta operação implicava a colocação de uma rede no interior do abdómen, depois de já a ter dentro de mim. Mas, agora... não me posso esquecer de que a tenho cá!!!

E quanto à mama grande, pesada (com o dobro ou mais do tamanho da outra) e descaída, tenho de ver que assim é que ele tem margem de manobra, para trabalhar na próxima operação...

O que eu "tenho de"! O que eu devo! E os meus direitos a perceber tudo o que se passa comigo? Quem é que mos satisfaz? ("Não diga mal do que está bem feito!" - e eu já não posso ouvi-lo!)

A esmagadora maioria dos profissionais de medicina que trataram de mim durante estes quatro anos é constituída por homens. Mas que saudades eu tenho de homens! Estes não são isso nem um bocadinho... Estes são técnicos, são mecânicos, são bate-chapas, são costureiros, são especialistas em ministrar produtos para tirar a ferrugem... Ou então... são umas bestas!
Qual foi o que respeitou e valorizou a minha condição de mulher? Qual foi o que me tratou como um ser dotado de sentimentos, de inseguranças, de dúvidas, de medos? Qual foi o que se preocupou com a possibilidade de eu me sentir completamente destruída como pessoa, por exposição a um massacre contínuo?

Nesta fase da minha vida, eu não sou, de facto, mais do que uma coisa, mas uma coisa que dói. E, hoje, parti para este texto depois de ter enviado uma sms ao Pedro dizendo-lhe que sinto falta de homens na minha vida, os homens amigos, os homens colegas, os homens do convívio diário, com os quais se trabalha ou se conversa sobre qualquer assunto, os homens que nos contam uma piada e que também nos mandam um piropo, de vez em quando, os homens que nos fazem sentir bem, bonitas, interessantes, os que demonstram que nos admiram, homens esses que não põem minimamente em risco a nossa relação conjugal, pois até a refrescam. Tenho saudades de contar ao Pedro os piropos que eu recebia, e de, uma vez por outra, brincarmos aos ciúmes, por isso mesmo.

Eu não sou mulher de casa! Mas estou em casa há quatro anos. Porque não consigo estar a trabalhar. O Pedro priva com homens e mulheres diariamente, e é isso que é saudável. Eu, a partir de determinada altura, liguei-me ao Gang da Mama, e isso fez-me muito bem, a vários níveis, mas nem o facto de o assunto que nos une ser quase exclusivamente um "never ending" cancro da mama, por estarem sempre a entrar pessoas no início do processo, nem o facto de o grupo ser apenas formado por mulheres têm sido benéficos para mim.

Aqui a coisa já nem para enfeitar serve (Como se isso fosse bom!...), pois já nem há quem passe por ela, quem a veja. Aqui a coisa é até uma coisa daquelas desinteressantes, sem chama, deformada e amorfa...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A sensualidade depende da autoestima

Anos a usar sutiãs especiais... por causa dos pós-operatórios; para que a prótese não suba; para que a prótese não desça; porque as mamas estão, provisoriamente, muito diferentes... Anos à espera de voltar a sentir o gostinho de uma imagem agradável no espelho, e a sensação de causar sensação... Anos! E já sem acreditar no regresso aos tempos em que a autoestima fazia disparar a vontade de seduzir, e em que até o brilho do olhar transbordava sensualidade...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Apesar dos pesares...

Não percam a esperança, nunca!

domingo, 20 de novembro de 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

RIDERS ON THE STORM

É apenas isto que somos: "guerreiras" numa imensa tempestade, lutando em cavalgadas solitárias, sempre muito solitárias, tentando altos voos sobre a adversidade, e voando, efetivamente, sem rede e sem seguro...
Por maiores e mais abundantes que sejam os gritos de apoio, as batalhas são individuais e travam-se com uma força que se mede a par com a insegurança. E a repetição não fortalece, fragiliza... A repetição empobrece os apoios e fragiliza o corpo e a mente massacrados.
Cavaleiras na enorme tempestade, sempre continuando, em busca da bonança, mas adivinhando perdas, muitas perdas, perdas variadas, que nos mudam, nos transformam, nos fazem sentir menores...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

SONDAGENS SOBRE O CANCRO DA MAMA

Se te apetecer contribuir para a satisfação da minha curiosidade estatística relativamente a alguns dos métodos de tratamento do cancro da mama, consulta a barra lateral direita e responde às cinco questões colocadas. Usa o rato para marcares as tuas respostas.
A meio do mês que vem, farei por aqui um post, no qual apresentarei os resultados.
Se tiveres algo a acrescentar, a comentar, a melhorar, podes fazê-lo como comentário.
Na sondagem sobre os tipos de reconstrução, está em falta a 'Reconstrução a partir do músculo dorsal'. Se for o teu caso, escreve-o, por favor, como comentário.
Agradeço a tua participação.
Até uma nova oportunidade.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Teste do Lápis

Vá lá, mulherada, toda a gente a fazer o teste do lápis,
que é uma maneira inequívoca de se apurar se as nossas maminhas
ainda estão dentro ou já estão fora do prazo. LOL

Se o lápis cair,
estamos com uma elevação mamária de menina
de 20 anos, 25, vá!
Se o lápis ficar entalado, onde é que já vai o nosso prazo...?!... :(
Eh, eh!

É para nos rirmos!

*___*

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

MEDO: Um sentimento novo em mim!

Chegou hoje o relatório dos exames às mamas. A esquerda mantém a dignidade que ainda conseguiu readquirir, após a segunda redução; a direita não para de me surpreender, mostrando, mais uma vez, as suas inesgotáveis capacidades inventivas.
Desta feita, a sua nova versão, curiosamente, uma bebé que completa apenas quatro meses neste exato dia, resolveu verbalizar aquilo que vinha insinuando através da sua tão costumeira maneira de agir - doendo. E escolheu logo um palavrão, talvez para combinar com o seu tamanho desmesurado e com a quantidade dos "salpicos" a que se refere...
Eu até já sou versada em palavrões, mas a verdade é que deve haver algures quem ainda não me reconheça competência suficiente para falar de objetos invasores de mamas e parece não querer deixar-me sossegar enquanto não me souber doutorada na matéria!
Em mais um pomposo relatório médico, para arquivar no meu riquíssimo portefólio das maleitas e tratamentos, vêm descritas as inúmeras lesões espalhadas pela periferia do retalho miocutâneo, de tamanhos entre os 6 e os 19 milímetros, as quais, em conjunto, dão pelo nome de 'citoesteatonecrose'.
Claro que, querendo ser mais claros e acertar melhor na pronúncia, podemos escolher as designações 'necrose gorda' ou 'morte de tecidos gordos', mas não é por optar por essa simplificação, nem por, na net, já ter lido que tudo isto se refere a lesões benignas da mama que eu deixo de sentir este peso no peito, que se me instalou desde que li a honrosa designação dos novos corpos estranhos instalados no meu corpo. São quistos, do tipo das calcificações. Um cabaz deles, que me guardaram na mama e que me incomodam como o raio, porque... doem!
Estou quase a concluir que a minha é uma "never ending" chatice de mama, invasora e limitadora da normalidade dos meus dias e da vida dos seres que me são mais queridos.
Confesso que há quatro anos não podia passar-me pela cabeça a longa duração da novela de que me fizeram protagonista, mas, a dada altura, tive de aceitar que a história era rica de mais para ser contada em pouco tempo. Contudo, estender desta maneira o número de episódios já me parece uma maldade sem tamanho. Eu já tive a minha dose, que diabo! E reagi sem medo e com ânimo... Foi, foi! Mas o otimismo também tem limites, bolas! Até porque não tenho onde ir buscar garantias.
Um ano e meio antes da grande novidade do cancro, foi diagnosticada a presença de um fibroadenoma, na minha mama direita. Benigno, como todos os fibroadenomas, e a necessitar apenas de vigilância, vigilância essa plenamente cumprida e, a cada novo exame, sempre com novidades: mais fibroadenomas e maior tamanho dos fibroadenomas mais antigos. Mas sempre tudo benigno! Até ao dia em que, simplesmente, mudaram o nome aos corpos estranhos ao meu tecido mamário e lhes chamaram, em conjunto, 'carcinoma ductal invasivo'!
E, ainda por cima, quem teve de ouvir o meu pai fui eu, não foram eles, aflito com a doença da filha, mas falando num tom de quem atribui a culpa ao recetor...
Há quatro anos, não tive medo de nada. Hoje, depois de já estar imensamente cansada de sofrer, tenho medo do sofrimento! Não de morrer, pois morrer afigura-se-me como o merecido descanso, mas tenho mesmo muito medo do sofrimento, e também de ter de voltar a lidar com médicos que nos dizem levianamente, na cara, que o nosso mal é dos nervos.


domingo, 30 de outubro de 2011

Gerbera Rosa Esperança

Hoje é o dia mundial da luta contra o cancro da mama.
Se puderem, ofereçam(-se) uma flor rosa esperança!
*__*

'Esperança' é um nome abstrato. Não tem forma, nem cor, nem cheiro; não tem peso, nem altura, nem largura... A esperança é um sentimento; não se vende, não se empresta, não se oferece. Ou se tem ou não se tem, embora possa passar a ter-se, adquirir-se por circunstâncias várias... A esperança não é aquilo que é esperado, nem garante que se consiga tal. Contudo, um ser com esperança é alguém com um objetivo, e isso fá-lo mover-se no sentido da sua consecução, o que, pode, eventualmente, conduzir ao resultado pretendido. Melhor então será ser esperançado, que é sinónimo de ser crente numa hipótese positiva.

Eu penso que só não esperam melhorar aqueles que olham em redor e não vislumbram um motivo que os leve a querer estar vivos e saudáveis. Só esses desistem, porque esses estão tristes, muito tristes.
Esta flor é para todos os que sofrem e os que acompanham, e quer transmitir a mensagem de que enquanto há vida, podemos esperar melhorar.
Mil beijos para os esperançosos e outros mil para aqueles que o vão passar a ser... *___*

sábado, 29 de outubro de 2011

ESPECIAL AFRONTAMENTOS

Nesta nova estação, em que o frio não se faz rogado para acossar alguns pescoços mais incautos, parecem-me bem-vindos alguns lenços e écharpes, e, sobretudo, saber como usá-los de formas elegantes e variadas.
Este é um "especial afrontamentos", pois foi carinhosamente pensado para as mulheres menopáusicas que sofrem de calores súbitos e intensos e que, por isso, não devem usar golas altas, para que se torne possível o alívio nos momentos em que são acometidas pelos sobreaquecimentos severos.
Take a look and Have fun!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Como escolher o sutiã adequado

TLC - TOUCH, LOOK AND CHECK

(TOCAR, OLHAR E VERIFICAR)

Ladies,

Reparem bem nos garotões, a ensinarem prevenção do cancro da mama! ;)

sábado, 22 de outubro de 2011

DISTINÇÃO

Há já algum tempo que me apetece distinguir o blogue da Susana Neves. Porque me encanta o modo subtil como ela relata pequenos nadas em que repara em profundidade e dos quais faz uma interpretação da qualidade.
Adoro o sentido de humor que ela denota nas apreciações das suas vivências, o qual transmite ao blogue uma aparência de leveza e oferece bem-estar aos leitores.

Por tudo isto, ofereço-lhe um mimo, que ela exporá no seu blogue ou não, consoante entenda.

Parabéns, Susana!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Inveja é a Pior das Misérias Humanas!

Anteontem e ontem, recebi muitos mimos, que ajudaram a atenuar, pelo menos por momentos, o meu sentimento de frustração profissional e as minhas dores físicas e psicológicas advindas das várias tentativas cirúrgicas para reposição da minha integridade física pré-cancro.
Quero, portanto, agradecer a quem se sentiu impelido para me mimar, apesar de eu não me ter exposto em busca do mimo, mas sim em nome da partilha de problemas existenciais, com a qual tenho aprendido muito e que me tem feito muito bem.
Apetece-me, contudo, lamentar ("quem não se sente não é filho de boa gente"...) o facto de, a páginas tantas, me terem lançado as seguintes questões retóricas: "Mas não estás viva ? E não tens marido e quatro filhos, para amar e ser amada?" E eu imaginei logo a possibilidade de virem outras, ainda mais mesquinhas, do género: "Mas não tens casa e carro?" Ou "Mas não tens televisão e net?" Como se, na vida, nada do que se passa connosco nos devesse entristecer, por já termos algo que muitos outros não têm e gostariam de ter, ou, apenas, algo que já não é nada mau ter !... Para isto, mais valia o silêncio - foi o que senti. E logo percebi a inveja, que já tantas vezes me bateu à porta, não só por ter quatro filhos e marido, mas, especialmente, por ser muito feliz com eles. Há quem o evidencie de formas saudáveis, até dizendo francamente que eu sou uma sortuda e que também gostavam de ter quatro filhos, que coisa gira... E eu sinto-me saudavelmente orgulhosa por ser mãe de uma turminha maravilhosa, que, contudo e felizmente, não é o mesmo que ter em casa quatro jarrões de enfeite, ou seja, fico com a ideia de que há pessoas que não conseguem avaliar o que é criar quatro filhos (especialmente nos tempos que correm, pois a minha avó teve bastantes mais e tudo lhe foi, se não mais fácil, pelo menos, menos estressante.
Ora, recapitulemos, sintetizando opiniões alheias: por estar viva e ter marido e quatro filhos, eu já não devo sentir-me triste por ter tido um cancro, que originou já seis cirurgias em três anos, não tendo ainda o bisturi dado mostras de se ter quedado, para não mais me tocar...
Ora bem, a inveja nem é dos filhos e marido que eu tenho (embora isso contribua para o ponto de rebuçado...), nem é das cirurgias que me retalharam o corpo. A inveja é das atenções que eu granjeio, por uma e outra razões, e que tal gente queria mesmo era que eu não tivesse, pelo que tenta que eu deixe de ter, menosprezando os meus sentimentos, numa ânsia de encontrar opiniões concordantes...!
Como se não bastasse, houve ainda quem se tenha incomodado com o meu lamento por haver tantos falantes e escreventes da língua portuguesa que não o fazem de forma correta simplesmente por não darem valor à língua e serem de opinião que, desde que nos entendamos, qualquer forma de uso da língua (correta ou não) serve perfeitamente, e, na primeira oportunidade, tenha procurado provar a minha ignorância e manifestar a sua superioridade. Eu não queria meter-me em novelas, por isso fui apenas até ao ponto de ficar claro que não deixo os meus créditos por mãos alheias, muito concretamente quando alguém que se assume como muito conhecedora de causa até só já está é a meter os pés pelas mãos e, quanto mais alega, mais se enterra. Depois disso, retirei-me e não volto!
Os invejosos que arranjem maneira de lidar com as suas invejas, se por acaso é a mim que invejam, pois troco meu não haverá mais. Ficarão a falar sozinhos, até se enxergarem. E, se não enxergarem, pior para eles, pois da pior das misérias humanas não estarão a libertar-se!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Cancro e A Nutrição

Clica aqui:
Prevenção, Sinais, sintomas, meios de diagnóstico,
dicas e receitas, histórias de coragem

Depois, vão clicando no que aparece. É capaz de ajudar!

Boa sorte!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011



O VASO PARTIDO

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e impercetivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

...

Sully Proudhomme

(Tradução de Guilherme de Almeida)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Vá lá, malta: palpação e mamografia!

Não gostas de fazer autopalpação? Pede ao teu companheiro...
Vá lá, nem imaginas aquilo de que podes livrar-te!...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Não há limites quando há amor! Isso é para quem não se ama!

Na sequência do post anterior e
respetivos comentários






















Não consigo ficar indiferente ao facto de saber que existem pessoas que acham que o meu marido me atura apenas porque é uma pessoa extremamente boa e não ia deixar-me nunca.

Realmente, ninguém é de ferro! Nem eu, caramba!

Algumas dessas pessoas o que sentem é inveja do meu casamento saudável; outras nunca devem ter gostado muito de mim... Azar o delas (desculpem-me a secura)!

É que nós amamo-nos, que diabo!


domingo, 9 de outubro de 2011

"Tudo tem um limite" - disse ela!


Entre uma consulta e outra, em dias consecutivos, ela quis saber da minha saúde, naquela conversa de circunstância que sempre acontece nos sofás das salas de visitas.
Fui pormenorizando os últimos episódios do meu infortúnio, ainda tão pesado para mim e já a caminho dos quatro anos, e ela, temendo que algo de semelhante aconteça ao Pedro, encontrou ensejo para me pedir que o convença a ir ao médico e a fazer exames, pois já sabemos que, mesmo não havendo queixas, pode passar-se algo de errado com a saúde das pessoas.
Claro que eu concordei com a necessidade de todos nos vigiarmos, mas esclareci que ele nunca foi de ir ao médico sem queixas, acrescentando que, neste momento, coitado, deve estar a ficar farto de médicos, por já tantas vezes me ter acompanhado, nesta luta já longa - apesar de ele nunca ter dado o mínimo sinal de cansaço desse tipo!
E foi então que lhe saiu:
- Pois tens mesmo de contar com isso, porque tudo tem um limite.
E eu fiquei petrificada. Não sei se toda a gente tem noção do que é sentir uma pancada seca no estômago. Eu já a confirmei e reconfirmei muitas vezes. Mas nunca consigo falar, por mais experiente que seja. E é disso que muita gente me acusa. De não falar, mas, depois, escrever. Eu diria que faço o que posso, aquilo que consigo, e que o faço para me libertar da carga. E que, se há quem não consiga escrever, mas parta a loiça toda a falar, eu sou ao contrário. Mas terei menos direito de existir por isso?!...
"Tudo tem um limite"! E aqui o 'tudo' referia-se à capacidade de o meu marido aguentar ser o companheiro de uma mulher com problemas de saúde, por tanto tempo. Eu teria, portanto, de contar que ele se fartasse...
Eu poderia ter retorquido que nos casámos com intenção de aguentarmos juntos o bom e o mau, até que a morte nos separe, e que ainda pensamos assim, pois nos amamos hoje ainda mais do que no dia em que nos prometemos..., mas talvez não o tenha feito por, no fundo, perceber que, se o fizesse, a conversa acabaria por chegar ao divergente conceito de 'limite', que ali se anunciara, e eu já tenho chatices mais do que suficientes para me sentir derrubada pelo mundo...
Mas também poderia ter concordado, desviando habilmente (talvez dando a entender ter percebido mal) a questão para o meu lado, até porque tenho razões de sobra para sentir que os meus problemas já passam do limite aceitável para quem os sofre na pele! Mas também não fui por aí... Apenas fiquei, mais uma vez, a interrogar-me, em silêncio, sobre a razão de não gostarem de mim!...

sábado, 8 de outubro de 2011

É tudo junto!

Juntou-se o regresso ao trabalho, após quatro anos de interregno, com a complicação abdominal pós tram flap, e com o, obviamente simultâneo, regresso às aulas dos quatro filhos, após o verão, e, mais ainda, com os 30 e tal graus atmosféricos, pouco habituais nesta época do ano, agravados, para a sensibilidade do meu corpo fragilizado, pelos afrontamentos sucessivos, que me fazem escorrer água da cabeça aos pés muitas vezes ao dia, como resultado da minha menopausa forçada e repentina. E conta ainda o peso da minha mama nova, consideravelmente maior do que a sua congénere, à espera, durante meses, de se moldar, por si, ao corpo em que foi implantada, para que se possa reduzir, aquando da futura formação de aréola e mamilo. Como conta também o facto de eu não conhecer ainda muitos dos colegas e o de a escola ser outra, o que afasta muito a minha situação de um regresso àquilo que deixei. Volto a trabalhar como professora, sim, mas a maioria daquilo que encontro é completamente diferente da maioria daquilo a que me habituei durante oito anos letivos seguidos. Não regresso a casa, de todo. E é certo que eu já considerava a minha escola como sendo a minha segunda casa...
Tudo o que me dava estabilidade se foi. E estou, aos 47 anos, a viver uma situação de novata no local de trabalho (25 anos depois de me ter estreado como professora) e até de novata no sistema, que sofreu inúmeras alterações enquanto estive ausente, sentindo-me ainda bem pior do que se de uma novata eu me tratasse, pois de mim espera-se experiência, savoir faire, capacidade de gestão do trabalho, e a frescura e a descontração aliadas a tudo isso.
Há quatro anos, eu sentia-me perfeitamente integrada, tinha já muitas provas dadas e era respeitada como profissional competente; agora, sou uma colega que anda há três anos a tentar levar um ano letivo adiante, mas nunca faz mais do que um mês, após o que contribui para a instabilidade da escola, que tem de gerir o processo da sua substituição, com tudo aquilo que ele acarreta. Há quatro anos, era uma professora da casa; agora, sou uma espécie de aleijada, que precisava de alguma ajuda para levar a sua vida profissional em frente, mas, como não tem mau aspeto (tem apenas mais doze quilos do que antes!...), não é levada a sério na sua necessidade específica e acaba por não receber qualquer ajuda (trabalhar sempre na mesma sala seria importante...).
Não há nada na lei que proteja o regresso ao trabalho de um doente oncológico, mas há vários tipos de doenças oncológicas, como há vários tipos de cancro da mama, como cada caso é um caso e cada pessoa é um ser diferente dos seres que são as outras pessoas. E algo que existe, de facto, é uma coisa chamada "autonomia das escolas", a qual tem permitido situações vantajosas do arco da velha, para pessoas não necessitadas, mas a mim nunca permitiu nada... Ou, melhor, permitiu o meu arrastanço no tempo de baixa, vivido em casa, sofrendo de solidão e em permanente acumulação de sensações de falhanço e de despréstimo.
Eu sei que era boa profissional! Mas sei também que já não acredito nas pessoas e que isso me retira a vontade de primar pelo profissionalismo, sendo que tal esforço agrava ainda mais o meu mal estar físico!
Para ajudar à minha "festa", há ainda os nódulos que descobri em mim há cerca de duas semanas, um na mama nova e outro numa virilha, os quais estão ainda longe de ser esclarecidos...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tudo isto é cancro!

Invento, diariamente, forças e sorrisos, quer para trabalhar na escola e em casa, quer para me manter presente e ativa nos tempos de lazer da família. Mas não sei até quando, pois o cansaço é extremo, por razões várias e sem que haja alguém para me acudir... Até porque há tanta gente que teve cancro há pouco tempo e já anda feliz da vida, a trabalhar e com uma genica invejável!!!... :(
São muitas as vezes em que me apetece desistir de tudo!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Quilogramas de Tratamento!



















ANTES e DEPOIS
de muitos tratamentos
para prevenir uma recidiva,
quando ainda faltam
dois anos de Tamoxifeno,
diariamente...
HAJA SEMPRE SORRISO!...

sábado, 1 de outubro de 2011

OUTUBRO ROSA


PARA QUE NUNCA TE SEJA PENOSO VERES-TE REFLETIDA NUM ESPELHO, PREVINE-TE!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Naquele dia, tremeram-me as pernas...

Estávamos a 9 de setembro. Era o segundo dia do meu trabalho na escola, quatro anos depois de eu ter iniciado o ano letivo em que adoeci. Na véspera, o cirurgião que me operou em julho fizera-me os buracos que se veem na fotografia, tirada pelo meu marido. Furou-me com uma tesoura. A sangre frio. Fê-la entrar na totalidade na minha barriga, deixando apenas as "orelhas" de fora, e foi escarafunchando o meu interior com aquilo, enquanto, com a outra mão, me carregava no abdómen, para fazer sair a gordura desvitalizada (como ele lhe chamou), algo muitíssimo parecido com mostarda, tanto na cor como na consistência.
Levantei-me com tempo para me arranjar e estar na escola às 10:30h, hora do conselho de turma. Mas, quando, finalmente, consegui estar pronta e olhei para o relógio, eram 10:25h.
Não fui! Como ainda me tremiam as pernas, deitei-me na cama, ainda por fazer, e aninhei-me por baixo dos panos, deixando as lágrimas correrem... E senti-me uma azarada. Era a terceira vez que regressava à escola, depois do cancro. Iria ser o terceiro falhanço?
Deixei-me adormecer e já passava do meio dia quando acordei. Coloquei a mão no penso que, a tanto custo, eu conseguira fazer sobre os buracos a jorrarem sangue, e pareceu-me seco. Esquecia-me de que usara pensos impermeáveis...
Na casa de banho, vi, à transparência do penso refletido no espelho, que a compressa estava suja. Temi a repetição da experiência matinal e resolvi não lhe mexer.
Estava destroçada. Ter faltado à reunião soava-me a dado suficiente para os meus colegas comentarem que mais uma vez eu não iria conseguir. Parecia-me ouvi-los.
Desci as escadas, de olhos molhados, e surpreendi-me por encarar com o Miguel. Esquecera-me de que os mais novos tinham ficado em casa. Ele perguntou-me se eu precisava de alguma coisa e eu pedi-lhe um copo de água grande com dois pacotes de açúcar. E, quando eu lho devolvi, depois de ter bebido o preparado, sorrimos um para o outro.
Era hora de atacar de novo o penso, uma vez que ficara mais calma. A compressa saiu cheia, mas os buracos já não verteram, como de manhã. E lá fiz eu um penso novo, dessa vez deitada, essencialmente por medo de voltar a sentir as pernas a tremer...

Hoje, dia 26, os buracos estão fechados, há cerca de uma semana. Deixaram de drenar e fecharam. Mas ao longo da cicatriz há um grande inchaço, como se eu tivesse uma boia na barriga. E doi-me, e arde, e limita-me os movimentos, e já fez aparecer na virilha um gânglio, que me assustou, hoje quando acordei, mas em que já estou a pensar como reação do organismo a um processo inflamatório. Só pode ser isso! É talvez a temida rejeição da rede... Ou não, sei lá!... Será que o meu organismo é avesso a qualquer corpo estranho? Já vai parecendo que sim!
Agora, espero por um telefonema do cirurgião, que, depois do meu contacto de ontem, ficou de me ligar hoje, para me dizer quando é que posso ir ter com ele. Só espero que não seja para tratamento semelhante ao do dia oito!...

sábado, 24 de setembro de 2011

O pior do cancro

O pior desta doença malvada é a incapacidade que muitas pessoas têm de se dirigir a quem sofre dela ou por causa dela;
o pior mesmo é a falta de palavras do mundo em redor;
o pior é sentir que ter cancro implica ter solidão;
o pior é haver tantos pormenores para discutir, mas quase ninguém para ouvir;
o pior é perceber que os outros começam a passar mais ao largo;
ou será que o pior é reconhecer a falta de sensibilidade alheia?
Não. Pior, pior é ter de admitir que outros não toleram o facto de o doente oncológico lhes poder roubar atenções e, por isso, fazerem tudo para que ele não as tenha!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Porque é que não perguntam?!...


Eu teria dado anos da minha vida,
para nunca me tocarem com um bisturi!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Coragem que Sempre Temos


A coragem nem sempre se faz ouvir.
Por vezes, coragem é a voz silenciosa,
no final do dia, dizendo:
Tentarei de novo, amanhã.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Tivesse eu os poderes que interessam...

Tivesse eu os poderes que interessam... e, a ter de haver doenças e sofrimento no mundo, distribuiria a coisa de maneira bem diferente!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mamas "retalhadas" = Feminilidade posta em causa?

Acho que já sei uma boa (?) razão para as minhas amigas e os meus amigos em nada ligados ao cancro da mama (porque ter uma amiga que o vive(u) não é suficiente para eles se interessarem pelo assunto...) não visitarem este blogue, que eu divulguei, logo à sua nascença, a quem gostaria que o visitasse: é que eu falo de mamas como quem fala de pés calejados!
E a sensualidade que lhes é inerente, e o símbolo sexual que são?! Nada disso aqui é tratado?!
Ai não que não é!!!...
Todos sabem, com certeza, que o valor que damos a tudo na vida é muito maior quando algo ou alguém nos falta ou quando algo não está a funcionar na perfeição, com a melhor aparência, etc. É, portanto, este blogue, uma espécie de tratado sobre uma importante das facetas da sensualidade! Quantas vezes fica(ou) uma dúzia de peças de vestuário desarrumado, num monte por cima da arca do quarto, porque nada me ajuda(va) a compor o ar feminino que qualquer mulher tem direito de querer aparentar...
Felizmente, o meu marido, para além de ter acesso ao que aqui publico, também tem acesso às minhas mamas!!!...
A nossa feminilidade é muito mais posta em causa por quem nunca viu as nossas mamas em processo do que pelos nossos companheiros, que continuam sempre a olhar para elas com desejo de as acariciarem!
Não estou, obviamente, a fazer uma generalização, mas sei que muitas amigas se incluem neste meu grupo...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

'Rezas e Crenças' Versus 'Palavras de Cumplicidade' Barra 'Destino'

Fui educada no seio de uma família católica praticante, fui à missa aos domingos, no Natal, na Páscoa..., desde pequena até deixar o CNE (Corpo Nacional de Escutas), quando já era casada, pela Igreja, e já perfizera 30 anos de vida, e os meus quatro filhos foram todos batizados.
Todavia, a entrada na minha quinta década de existência, que, à partida, me prometia (pelo que se ouve dizer) os melhores anos até então, aqueles em que, ainda não sendo velha, a pessoa já tem experiência de vida suficiente para aproveitar, de uma forma sábia, o facto de estar viva , trouxe-me uma catadupa de desilusões relativamente à existência, que me desnortearam durante muito tempo. Falo de quase oito anos de aprendizagens forçadas e fortuitas, as quais provocaram mudanças radicais na minha maneira de olhar, sentir e agir sobre o mundo...
As surpresas relativamente ao conhecimento de pessoas que estavam garantidas como parte de mim, o modo como os agentes da medicina desumanizam (ou não humanizam!) a relação com os seus doentes, a intolerância de imensos seres que me rodeavam relativamente a conversas sobre o assunto 'cancro', a incredulidade de alguns relativamente ao facto de eu ter tido necessidade de estar quase três anos em casa, a impetuosidade com que muita gente faz comparações, pensando que sabe do que fala, mas sem saber... E o corpo a ser mutilado, a obrigatoriedade de lidar com essa realidade (olhar e ver, resolver problemas de vestuário de todos os tipos...), as sucessivas intervenções cirúrgicas, os pós-cirúrgicos, que nunca estão resolvidos antes de, pelo menos, seis meses decorridos, a necessidade de reinventar a relação sexual...), os tratamentos, a carecada, os efeitos secundários da químio, os efeitos secundários da rádio, os azares em cinco dos seis pós-operatórios (estou ainda a viver o mais recente desses azares), os doze quilogramas a mais, provocados pela ingestão diária do medicamento que trava a produção de estrogéneos, para prevenir uma recidiva de um cancro hormonodependente... tudo isto e, talvez, muito mais, que agora não me vem à mente, contribuiu para uma "desaprendizagem" de vida, difícil de admitir e de gerir, contribuindo, também este fator, para a depressão profunda que, felizmente, já lá vai.

A doença foi encarada por mim com a naturalidade de qualquer coisa má que nos acontece e que exige o nosso empenhamento e toda a nossa disponibilidade (aquela disponibilidade que nos obriga a encararmo-nos como o centro das nossas atenções, ficando até os filhos para o plano que for possível, em função da nossa recuperação...), para ser resolvida. Nunca pensei que iria morrer, talvez até tenha sido demasiado otimista, pois, olhando para trás, percebo que devo ter pensado que, com a mastectomia e a reconstrução imediata, usando silicone, tudo ficaria resolvido - sem ignorar a eventual necessidade de químio e rádio, claro.

Nada tem sido fácil, nestes três anos. E as fases por que passei foram muitas, incluindo seis recomeços, seis vezes que me ergui de quedas, com características idênticas, mas sempre com muitas características diferentes, também.

Neste tempo, em termos de relações humanas, tive várias experiências distintas: afastamento de pessoas de sempre, tendo, algumas delas investido em novos relacionamentos, ligação virtual e, posteriormente, real, a pessoas que desconhecia, sendo que, algumas já se foram e outras ficaram, têm estado, têm sido! E, também, pessoas que dizem que têm rezado por mim, algo que, há muitos anos não faço por ninguém, nem pelos meus filhos, quando estiveram internados, nem por mim própria, em nenhuma das minhas visitas a blocos operatórios.

Há quase uma legião de tias (minhas e do meu marido), para além da mãe e da sogra (e ainda outras pessoas) que rezam por mim há muito tempo. E eu agradeço-lhes carinhosamente, sem mais pensar no assunto. Mas a verdade é que eu entro sempre descontraída no bloco (desde o dia em que sabia que me iam cortar uma mama) sem pensar em mais nada a não ser que se faça o que tem de ser feito, e recordo todos os rápidos adormecimentos resultantes das anestesias como momentos de entrada na calma absoluta. Tanto assim é, sempre, que, se por ali eu me vier a ficar algum dia, terei deixado esta vida de uma forma desejável.

Temos, portanto, que eu não temo cirurgias em si, mas, do pós cirúrgico, só gosto dos primeiros tempos, em que o sofrimento costuma ser em maior volume, mas as atenções para com o doente, quer por parte das equipas hospitalares, quer por parte das familiares (e de amigos...) são consideravelmente apreciadas por mim.

A quem me considera "menina mimada" eu até diria que, apesar de ser mimada pelos que me amam, de facto, esse não é o mimo que se obtém quando se está doente e tratam de nós, fazendo-nos aquilo que nós costumamos ter de fazer. E isso é tão bom na doença... Isso e as palavras especiais, que certas pessoas conseguem encontrar, para nos oferecerem nesses tempos duros. Especiais, mas não lamechas; especiais, mas concretas, específicas, íntimas, de quem se preocupa em saber o que mais faz falta a quem está em sofrimento.
Essas palavras especiais eu sinto profundamente e agradeço eternamente, se me as dirigirem, sinceras, quentes... As orações das tias eu também agradeço, pois é a maneira que elas têm de me demonstrar que se preocupam comigo e que me desejam tudo de bom. Todavia, não me ligo a quaisquer palavras, sejam elas orações conhecidas ou orações espontâneas, no sentido de pensar que elas têm qualquer poder para garantirem qualquer espécie de sucesso. E foi com a minha mãe, que continua a ir à missa, ao terço, às procissões... e a rezar, que aprendi isto. Disse-me ela um dia: "Se rezar desse o resultado que nós pretendemos, o meu pai não tinha morrido quando eu ainda era jovem, pois eu rezei tanto para que Deus não o levasse..."

O que se passa comigo agora é tão simples e tão duro quanto isto: Não acredito em nada nem em ninguém (quem estiver a ler isto que me perdoe, se puder), pois nada daquilo em que me ensinaram a acreditar, nem as rezas das tias, nem as palavras que me pareceram de amizade tiveram qualquer sucesso, se pensarmos no que era pretendido. Mas, para mim, isso até é lógico, pois há algo em que creio seriamente: é que a nossa hora de partida está programada, como esteve a de chegada, por muito que se possa contrapor...

Dirão, talvez, que, se assim é, é porque acredito em alguma transcendência. Acredito, sim. Mas não sei o que é, nem me preocupo com isso. Talvez até acredite só por necessidade de satisfazer a minha curiosidade permanente em conhecer as razões de tudo e mais alguma coisa, tendo de admitir que há verdades que não consigo explicar... Acredito no Destino, portanto, e que contra ele não se luta, até porque o Destino é algo desconhecido e contra o desconhecido é difícil escolher armas adequadas...

E quanto às minhas tão amadas palavras, digo que sei lá se ainda as amo! Não consigo deixar de as utilizar, mas, se é amor o que lhes tenho, já duvido muito, pois já sofri muitos dissabores à custa da maneira como interpretaram o modo como eu as usei...

Há muito pouco tempo, uma amiga disse-me que a realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós vê, interpreta os acontecimentos... Talvez ela até tenha razão. Convirá é assumir que esse postulado, se é válido para alguém, é, necessariamente, válido para toda a gente..., nomeadamente para dois observadores de determinada circunstância.

Pensemos, então, só como exemplo, na circunstância de nos cortarem uma mama! E digamos: esta realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós a vê, a sente, a interpreta, a vive!...

Curioso, não é!? Alguém pensará que a pessoa a quem levaram a mama poderá sentir este facto (se não é realidade, poderemos chamar-lhe 'facto'?!) do mesmo modo que os seus familiares, amigos, amigas, equipas médicas?! Não, pois não!? Mas deveria?! Ou é perfeitamente natural que quem mora num corpo que foi mutilado tenha uma visão desse facto consideravelmente mais sofredora do que qualquer outra pessoa, por mais chegada que seja?! E é ou não natural que precise de algum apoio extra..., nomeadamente de desabafar, e que se entristeça e se sinta sozinha e abandonada, se isso não acontecer, até porque quando esse sofrimento físico (que afeta muito a psique) não existia, essa pessoa era normalmente solicitada?!...

Rezas, crenças, palavras amigas... não são mais do que inerpretações pessoais, perspetivas individuais do que acontece ou poderá vir a acontecer! Será?!...

Já quanto a dores físicas e psicológicas sentidas pelo próprio... Bem, eu digo, já vacinada contra as pessoas que me consideram lamechas, que já sofri um bom bocado, ao ponto de me apetecer trocar o que sentia por "alguns anos de descanso eterno", como escrevi no post anterior. Mas será que isso que senti no corpo, na alma e na mente foi tudo (e ainda está a a ser) ilusão minha? A nossa vida será, afinal, uma imensa ilusão? Se o for, será para todos, não?! Ou serei eu uma ave rara?!...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Vida Não é Tudo!

Nunca quis viver a qualquer custo. Há muitas circunstâncias de vida que eu trocaria por anos de repouso eterno...
No próximo post venho pormenorizar! Inté!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O GANG DA MAMA



De norte a sul do país, há meninas que pertencem ao Gang da Mama, constituído, maioritariamente, por meninas que luta(ra)m contra o bicho mau que resolveu chateá-las de forma séria, por um período mais ou menos alargado, consoante os casos.

Batizado com este nome no dia em que participei, pela primeira vez, num almoço-convívio do grupo, a verdade é que ele já vinha crescendo há algum tempo, através de encontros presenciais, de visitas e comentários aos blogues de cada uma, por conversas de chat e também num grupo privado criado no Facebook.


De uma forma natural, fomo-nos sentido ligadas, com uma sensação de pertença invulgar, pois rapidamente nos parecia que já éramos amigas de longa data.
No Gang, as conversas e as partilhas versam sobre tudo e mais alguma coisa, mas o assunto 'cancro da mama' encontra nas recetoras um entendimento impossível de conseguir com quem nunca passou por esta guerra na primeira pessoa. Ao pé de amigas do Gang, sentimo-nos, de certa forma, em casa, ou em família... Em certos casos, melhor do que em família - sem querer ofender ninguém!...



Ontem, recebi, em minha casa, a visita de três meninas do Gang, que vieram almoçar e lanchar com a minha família e "pintaram a manta" comigo... Adorei recebê-las, e aos pequenitos de uma delas, com os quais os meus se divertiram, apesar das diferenças de idades. Afinal, também nós, meninas, temos idades diferentes e já estamos entrosadas como se fôssemos da mesma turma, de uma turma unida, em que são todas por uma e uma por todas, literalmente e em todas as circunstâncias em que qualquer uma apita, para dizer que precisa de algo... É que vêm mesmo logo todas, quais "Ambrósios", e não deixam que nenhum mal-estar inútil se instale na mente ou no corpo de nenhuma.
Este é um grupo de meninas que só faz bem a qualquer mulher que tenha de lidar com o problema que as uniu e que eu, com muita pena, só conheci quando já tinha passado por muitos momentos maus. Mas a verdade é, como diz o lema das meninas Rosa, Esperança, que "o melhor ainda está para vir"! ;-)


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pink Attitude

Até aos 44 anos, fui menina e mulher afastada da cor rosa.
A mudança foi gradual, mas, agora, já sou absolutamente fã, nos tons que me caracterizam, obviamente, e como maneira de encarar a vida!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Melhor Que Me Podia Acontecer Agora...

...era convidarem-me para um emprego novo, diferente, interessante, com gente desconhecida, e numa terra nova - para bem iniciar a segunda parte da minha vida ativa!



domingo, 21 de agosto de 2011

RESPONDENDO A UM DESAFIO DA ANA CAMÕES

Ganguinhas Todas,

Peço desculpa pela pouca atenção que tenho dado aos vossos blogues. Tenho estado proibida de me sentar em ângulo reto e isso tem reduzido o tempo que dedico ao meu Mac, no qual tenho preferido contactos via Facebook.
Vi hoje um desafio lançado pela Ana, ao qual talvez vocês já tenham respondido... Eu vou fazê-lo agora. Cá vai, Ana:

01. Pegue o livro mais perto de você, abra na página 18 e encontre a 4ª linha:
A página 18 do livro que tinha aqui ao lado (Contigo Torno-me Real - sobre Os Doors -, de Rui Pedro Silva) está completamente em branco!
02. Estique seu braço esquerdo o mais longe que puder. O que você encontra? Toquei numa jarra com flores.

03. Qual foi a última coisa que assistiu? Assisti, ontem à noite, a um concerto dos James.

04. Sem olhar o relógio, que horas você acha que são? Acho que serão umas 19:45h.

05. Agora, olhe no relógio. Que horas são? São 19:55h.

06. Sem contar o barulho do computador, o que mais está ouvindo? Estou a ouvir o concerto do Simon e do Garfunkel, no Central Park, e a trovoada, por cima da minha casa.

07. Quando foi a última vez que saiu? Aonde foi? Saí ontem à noite. Fui à Feira de S. Mateus, para ouvir os James.

08. Antes de começar esse questionário, o que estava fazendo? Estava a ler o blogue da Ana Camões.

09. O que está vestindo? Estou com umas leggings e uma túnica, para além das cuecas, do sutiã e da cinta "de gola alta", que me tem feito o verão num inferno...

10. Você sonhou a noite passada? Sonho sempre que durmo! E dormi, na noite passada...

11. Quando foi a última vez que você deu risada? Hoje de manhã, ri de uma piada do meu marido.

12. O que acha da pessoa que te indicou este desafio? A Ana é uma pessoa muito corajosa, otimista e atenta aos outros.

13. Viu alguma coisa esquisita há pouco tempo? Vi uma substância (gordura desvitalizada) com a cor e a consistência da mostarda, a sair da minha barriga.

14. Qual foi o último filme que você assistiu? Toda a Verdade

15. Se você se tornasse milionário da noite para o dia, o que compraria? Compraria dois carros novos, que os meus têm 16 e 12 anos.

16. Uma coisa sobre você que eu não saiba: Fui escuteira durante 20 anos e vivo segundo os princípios que me ensinaram enquanto tal.

17. Seu estado de espírito agora: Descontraída, à conta da enorme trovoada que continua por aqui e que eu adoro.

18. Se você pudesse ser qualquer mulher famosa, qual seria? Eu detestava ser famosa!

19. Imagine que seu primeiro filho seja uma menina, como a chamaria? Foi mesmo uma menina. Chama-se Maria.

20.Imagine que seu primeiro filho seja um menino, como o chamaria? Chamá-lo-ia Francisco, que é o nome do meu segundo. E, já agora, ainda tenho um Miguel e um Tiago.

21. Você pensa em morar fora? Na rua?! Claro que não!...

22. O que você mais quer agora? Quero que a minha reconstrução mamária acabe, finalmente, e em beleza!

23. Qual a pessoa mais importante na sua vida? A pessoa mais importante da minha vida é o meu marido, sem dúvida.

24. Qual seu sonho para curto prazo? A curto prazo, quero uma plena reintegração no ambiente profissional.

BEIJOCAS, ANA

sábado, 20 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

EXAUSTÃO

Quando chegar a minha vez,
lembrem-se de que eu precisava mesmo de descansar
o corpo e a mente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Até um dia, querida Sónia!

Vou recordar-te sempre assim, como menina apaixonada pela vida.
Leva contigo um beijo eterno, um beijo rosinha, como tu, que ontem me surgiu no coração, triste porque tu partiste, mas enternecido pela imediata e terna união que aconteceu às meninas do Gang.
Agora já podes descansar, querida Sónia. Mas não te esqueças de continuar alegre e divertida. Os teus novos companheiros vão adorar-te!
*___*

domingo, 31 de julho de 2011

A nossa Sónia adormeceu de cansaço

Dorme bem, querida Sónia, e sonha muito, como gostavas de fazer. Sonhos cor de rosa e onde tudo seja uma brincadeira. Que haja muitas brincadeiras de menina, para ti. Tu vais gostar de brincar!

Um beijo de boa noite *

Deixo-te com a Sonata ao Luar, de Beethoven, para te sentires embalada.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ultra-cansada de comparações

(Tram Flap não é igual a Apendicectomia, nem a Cirurgia da Próstata, nem a Cesariana, nem a Abdominoplastia, nem a Histerectomia...!)

Estou cansada de contar as peripécias da minha tragédia a pessoas que, pouco depois de eu abrir a boca, passam imediatamente a dizer que sabem o que me aconteceu, porque acompanharam o caso da Joaquina (tal e qual!) ou porque elas próprias fizeram uma cesariana (que eu nunca fiz...) !...

As intervenções medicamente assistidas a que eu já me submeti, ao longo da vida, têm os seguintes nomes, por ordem de ocorrência:

amigdalectomia - 1968
apendicectomia -1989
parto normal, com epidural - 1995
parto normal, com epidural - 1997
2 amniocenteses - 1998
2 partos normais, com epidural - 1999
mastectomia e mamoplastia para colocação de expansor - 2008
mamoplastia, de urgência, para troca de expansor rebentado - 2008
mastopexia e mamoplastia para retirada de expansor e colocação de prótese - 2009
mastopexia e mamoplastia para recolha de retalho e colocação de aréola - 2010
histerectomia e anexectomia bilateral - 2011
tram flap - 2011

Uma realidade sobre a qual não posso pronunciar-me com conhecimento de causa é a cesariana, mas quase tenho pena de não ter essa sabedoria, pois já tanta gente comparou o meu tram flap com a sua cesariana ou com a cesariana de outrem...
Genericamente, as pessoas têm tendência a fazer comparações e a fazê-las de uma forma impensada, pois é comum a noção de que já se viu e ouviu muito, pelo que... já se sabe do assunto.

Eu sei que, provavelmente, eu agiria do mesmo modo, se nunca tivesse sentido agressões físicas mesmo incomodativas, mas já que é impossível chegar a qualquer certeza quanto a isso, gostava mesmo que as pessoas que me interrogam o fizessem porque querem mesmo saber e não para me mostrarem que já têm experiência na matéria, seja por que forma for.

O meu cancro não me parece estar a tornar-me a pessoa melhor que eu me convenci que iria ser. Porque estou intolerante à intolerância dos outros: os que não querem falar; os que me abandonaram; os que sabem bem (mal) o que eu passei e estou a passar...

Há muita gente para quem os cancros são todos iguais e as cirurgias, com os seus períodos pós-cirúrgicos, também. Perante isto, eu sinto-me não mais do que um objeto, igual a tantos outros, de quem já todos sabem tudo.
E mais: cirurgias e pós-operatórios (e até químios e rádios) são banalidades da existência!...

Bem, vivo neste momento o pós tram flap, e, daqui a alguns meses, farei a aréola e o mamilo, a partir da pele da parte interna da coxa, junto à virilha.
Neste momento, o aspeto da minha mama é o que se vê na foto; uso uma cinta muito apertada, igual à da imagem (por 2 meses, de dia e de noite) e tenho uma cicatriz como a apresentada, com 54 cm. O meu umbigo não é o mesmo (foi-se a marca da ligação física que tive com a minha mãe), foi construído.

A mama nova saiu toda da barriga e o músculo abdominal subiu, por dentro, até à mama, sendo ele que a alimenta. No lugar dele, na zona abdominal, está uma rede, para im-
pedir que os órgãos se atrapalhem na escolha das suas posições corretas...

E agora vou referir aquele aspeto em que alguém que esteja a ter pachorra para ler isto já estará a pensar: "Mas porque é que ela expõe isto tudo?"
Exponho porque preciso, criando a ilusão de que me leem e me entendem, com intenção de dividir todos os tipos de dor que tenho tido nestes três anos e meio, fingindo acreditar que isto é partilhar a vida e, assim, torná-la menos dura; exponho por absoluta necessidade de verbalizar aquilo que as pessoas me mostram que é maçador quando ouvem; exponho, talvez, com a mesma necessidade que outras pessoas têm para esconder, calar.

A Educação para a Saúde devia conter uma unidade de Educação para a Doença, onde se aprendesse, em primeiro lugar, que cada doente é um ser humano diferente dos outros e que devemos saber como é que ele prefere ser tratado por nós no seu período mau...

Para finalizar, refiro que, de todos os "pós" que já vivi, este é o que me está a custar mais, pela violência da intervenção abdominal, que deixa no corpo a sensação de que nos encheram excessivamente, como se faz com uma mala (apesar de que o que aconteceu foi esvaziarem) e forçaram a pouco elástica tampa da mala a fechar...

Quanto à mama, não há dor nem desconforto. E foi-se o horrível mal-estar que tive durante 3 anos!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O nosso corpo como matéria-prima


Um dia, a minha prima patologista disse-me que não comia fígado nem rim, pois, para ela, ambos constituíam material de trabalho.
Neste momento da minha vida, mamas são materiais de modelagem... ou de corte e costura :( Nada mais!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A minha alma já foi bem grande!...

Agora, já nem me importo que digam que a minha alma é pequena! Estou extremamente cansada de sofrer (3 anos e meio) para tentar continuar neste mundo e para ter alguma qualidade de vida, de modo a proporcionar aos meninos que pus no mundo as condições necessárias para serem boas pessoas, bons cidadãos e o mais felizes possível.
Mas valerá a pena?! VALERÁ A PENA?!...

Two Breasts, Two Areolas and Two Nipples

This is what we all want and need
- to feel like women again!

Com toda a sinceridade, tenho alguma dificuldade em aceitar a relutância de certas pessoas no que toca a conversar sobre qualquer assunto relacionado com o cancro da mama.
Esta minha história vai com três anos e meio, e a falta de disponibilidade demonstrada por várias pessoas do meu passado para me ouvirem e para dizerem de sua justiça tem-me feito sentir uma criatura solitária, apesar de aqueles que sempre estão prontos para mim serem do melhor que há.
Se este problema atingir algumas das pessoas que nunca "conseguiram" ouvir-me, o que acontecerá a seguir? Acabará o mundo, para elas? Fechar-se-ão num quarto, para não verem ninguém, e recusarão qualquer forma de comunicação? Deixar-se-ão morrer, sem lutarem pela vida? Ou terão necessidade de falar com o mundo, especialmente, talvez, com quem já passou pelo mesmo?
Na possibilidade de a reação ser a enunciada por mim em último lugar, o que sentirão essas pessoas se o mundo não se mostrar recetivo a essas suas necessidades?!... Julgo que bem não se sentirão!!!
Para início de enunciação de princípio, penso que todas as pessoas deviam olhar para qualquer doente como alguém que sofre de algo de que elas poderão vir a sofrer. Continuando, defendo que todos devemos apelar à nossa capacidade de abstração, esforçando-nos por nos colocarmos "na pele" dos que sofrem a nosso lado, por forma a conseguirmos agir com eles como gostaríamos que agissem connosco, se fôssemos nós os enfermos.
Concluindo, não posso deixar de realçar a importância da procura do conhecimento exato daquilo que o doente gostaria que fizessem (ou não fizessem) por si, para que se possa agir em conformidade.

Ora detenhamo-nos só um pouco no meu caso de cancro: notícia; comunicação da notícia aos pais, aos filhos pequenos...; mastectomia, mais cinco cirurgias: 1. por rompimento do expansor, quando picada para me extraírem o líquido de um seroma; 2. para troca do expansor por uma prótese de silicone e redução da mama contralateral; 3. para colher um pouco de tecido na mama contralateral e formar uma aréola na mama nova, para que pudesse ser tatuada; 4. histerectomia, devida aos efeitos secundários do Tamoxifeno nos ovários, no útero e no colo do útero; 5. Tram Flap, para acabar de vez com tudo o que tinha sido feito anteriormente e me causava aperto, dor, mal-estar e falta de qualidade de vida, mas muita gente considerava ser produto da minha mente stressada e ansiosa; quimioterapia; radioterapia; fisioterapia; depressão e tratamento psiquiátrico; hidroginástica; consultas de psicologia e hipnose, para tentar aprender a viver com dor; férias familiares em casa...
Não haverá aqui matéria suficiente para necessidade de conversar? Só encontrei essa possibilidade nas meninas que já passaram por algo semelhante, as quais encontrei via net e a quem já me sinto ligada de uma forma muito especial. Contudo, a falta de "colo" das minhas pessoas de sempre e das outras de há muitos anos deixou-me à nora, sem referências, e fez com que houvesse uma grande transformação na minha essência.

Neste momento, falta-me recuperar do Tram Flap e fazer a aréola e o mamilo. Ai, mas que impressão faz a tanta gente falar (ou até ler) sobre estas questões!...
Mas nós, as "ganguinhas da mama" estamos à vontade até para mostrar...
"Naturalmente" - dirão alguns! Claro - digo eu. Mas não é natural não haver esforço da parte de amigos..., pois amigos são pessoas que se revelam nas ocasiões difíceis, procurando transcender-se nas suas dificuldades, se tal for necessário para ajudar... Amigos não podem ser, seguramente, aqueles que nos dizem que nós temos de pensar que não somos os únicos a sofrer e que todas as pessoas têm problemas, coisas que nem nos passam pela cabeça. Não passarão, talvez, mas, sem que no-los revelem, não podemos adivinhá-los, muito menos ajudar... E por que é que há-de ser praticamente um crime demonstrar as nossas fragilidades a quem pensamos ser nosso amigo?!... :(