Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!


Por aqui, discorre-se sobre:

... Acompanhamento Psicológico Ajudar quem Ajuda Alertas Alimentação Alopécia Antes e Depois Aquisições autoestima Brincadeira Cancro da Mama nos Homens Cansaço Chamar os bois pelos nomes Cirurgias Cirurgias de Amigas Codependência Coisificação nas Doenças Prolongadas Complicações Pós-operatórias Consultas Conviver Cumplicidade Dar / Receber a Notícia Desafios Desânimo Desejos Desespero Despedida Diagnóstico Dicas Dieta Distinções Efeitos Secundários de Medicação Emagrecer Encontros de Amigas Esclarecimento Esperança Estilo de Vida Estímulos Exteriores Exames Pré-operatórios Exemplos Famosos Com Cancro Feminilidade Filosofia de Vida Pós Doença Fisioterapia Fracassos Gang da Mama histerectomia Histórias de Luta Hormonoterapia Hospitalizações Humor Implicações Psicológicas Incongruências Informação Lingerie Correta Lingerie Pós-Operatória Medos Meios Complementares de Diagnóstico Meios de Diagnóstico Menopausa Depois do Cancro da Mama Modos de ser Mudanças na Vida Natal Nova Normalidade Novas Amizades Novidades O Cancro em Pormenores O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças O Cancro Não é Só uma Doença; é um conjunto de doenças; efeitos secundários da medicação Ocupação em Tempo de Baixa Os cancros dos amigos e familiares Palavras Alheias a Propósito do Propósito Parabéns Partilhar a Doença Perdas Pós-cirurgia Pós-operatórios Prazer em encontrar quem nos entende Prazeres Prevenção Prevenção de Recidivas Processo de Recuperação Projetos de Sensibilização Quimioterapia Radioterapia Rastreio do Cancro da Mama Reações Alheias Reações Pessoais Reconstrução Mamária Regresso à normalidade Regresso ao Trabalho Sentimentos negativos Sexualidade Sinais Sintomas Solidão Tamoxifeno Terapias Toque Tram Flap Tratamentos Verdade Verdadinha Vitórias Vontade de ter poder sobre a doença

riscos marcantes

riscos marcantes

NOTE BEM

No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Mostrar mensagens com a etiqueta Reações Pessoais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Reações Pessoais. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Está cientificamente comprovado...

...que uma das cinco coisas de que as pessoas mais se arrependem na hora da morte é de não terem sido elas próprias, de não terem agido segundo a sua verdadeira maneira de ser, de acordo com os seus princípios e com as suas vontades, mesmo em momentos em que eventualmente pudessem estar erradas (pois errar é humano, mas só se conclui isso fazendo-o!).

Na sociedade em que vivemos, é imperioso passar uma imagem de eficiência, de desembaraço, desenvoltura, de excelência na gestão do quotidiano e de extrema habilidade para lidar com as (maiores) adversidades. É fundamental não esquecermos que, por muito mal que estejamos, há sempre quem esteja pior do que nós, e, portanto, há que arregaçar as mangas (ainda que, eventualmente, não tenhamos braços) e andar para a frente, pois para a frente é que é o caminho, não interessando para nada se nos está a sorrir um caminho lateral, por hipótese...
Vivemos num mundo de ideias feitas, de pensamento estandardizado. E eu sou uma outsider, que, como tal, nunca devia ter tido filhos, e, ainda para mais, quatro, e, ainda por cima, um cancro de mama com complicações de reconstrução.

Eu sou uma pessoa com necessidade de gritar tudo ao mundo. Desde pequenina que sou um ser excessivamente solitário e sem amor-próprio, sempre a olhar para os outros como superiores a mim. Mas eu sou melhor do que muita gente que por aí anda. Melhor em MUITAS vertentes. Apenas não me dá para gritar que sou boa pessoa, porque me apetece gritar o que me dói e ser boa pessoa não dói (bem, sei lá, se calhar, até dói...), e, por isso, acham que me devo calar, pois eu não sou uma coitadinha e tudo o que escrevo me apresenta como coitadinha!...
Ora bolas! Eu vou dizer agora: Coitadinhos são aqueles que precisam de camuflar a sua vida, como se a existência se tratasse de uma peça de teatro e todos nós estivéssemos apenas a representar um papel!
É que eu... sou péssima atriz! E depois é uma chatice. As pessoas vêm ver a minha peça e não gostam. É demasiado séria! E então não dizem nada. Calam-se bem caladinhas e sei lá eu o que pensarão (embora imagine) - tirando uma meia dúzia, que eu sei que pensa mal, muito mal.

Vão-me desculpar, mas eu vou arriscar continuar a ser eu, até ao fim, continuando a expor-me, a revelar a minha alma, quer cheia de amor, quer cheia de revolta, quer cheia de interrogações ou incompreensões. E, claro, poderei estar redondamente enganada, muitas vezes até. Seria agradável que mo fizessem ver com gentileza, argumentos, exemplos. Seria, mesmo, mas duvido, a julgar pelo que se tem passado até aqui.
Muitas vezes, eu precisava que me encostassem à parede, mas em muitas dessas vezes, há pessoas queridas que, na sua boa vontade, me deixam (apenas) beijinhos... Não pensem que eu não os sinto até ao tutano, porque sinto, mas vou confessar-vos uma coisa: penso muitas vezes que se eu fosse uma sem abrigo talvez tivesse amigos com quem CONVERSASSE a sério, que não me dissessem e a quem eu não dissesse, só porque se instituiu: "Vai tudo correr bem" e "Tu vais dar a volta por cima" ou ainda " Tu és uma grande mulher"..., independentemente do que se pensa na realidade.

Não, não vou deixar de ser eu. Nunca, jamais, em tempo algum. Nem saudável, nem doente. Nem morta, aliás, pois conto com a lealdade dos que me amam e ficarem, para não não deixarem que o meu corpo desça à terra e que sobre uma terra onde eu não estarei se amontoem as flores que as pessoas não me ofereceram em vida!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Em desespero!




Vou à procura de mim! Sozinha. Como tem de ser. Não me aguento mais. Nem aguento quem não me entende e quem me critica, quem me acusa de autocomiseração, de preguiça e de queixinhas (exclua-se toda a minha família nuclear deste rol!). E ainda: revolta-me que o facto de o meu marido fazer tudo por mim, porque me ama, deixe tantas mulheres cheias de inveja, ao ponto de me dizerem que eu estou é mal habituada, porque sempre tenho sido uma mimada, e que, se tivesse um marido diferente, já estaria boa há muito... Chegam a dizer que têm de vir falar com ele, para ele deixar de me mimar! Mas o que é que esta gente sabe da coisa?!... :(

Fiquem bem! Todos.

(Há pessoas que precisavam de experimentar certas coisas!...)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Interregno no fora

Fez ontem 4 anos a minha história
de mastectomizada com reconstruções.
Foi um dia difícil!

Meninas, estou aqui. Venham daí essas verdades que me fará bem ouvir! Vá lá! Não vale deitar palavras ao vento e depois não concretizar. Ainda por cima sendo para meu bem!...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bem hajam, meninas rosas que eu tanto admiro!

No início de mais um ano, apetece-me homenagear todas as meninas que me ofereceram palavras e gestos de carinho, sem esperarem nada em troca.
Com esse universo admirável aprendi o que espero conseguir praticar durante este ano, e cada vez melhor, enquanto me mantiver neste mundo: a graça dos gestos de abnegação e o prazer em fazer feliz, sem mais.
Obrigada, amigas, por todos os mimos, pelos incentivos, pelo ânimo que conseguiram oferecer-me. E um fantástico 2012, para todas vocês!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A "Coisificação" de Quem Tem Problemas de Duração Prolongada

Quem tem acompanhado, minimamente que seja, o meu percurso de doença, nos últimos quatro anos, sabe que eu me queixo de "coisificação" desde o início. Todavia, com a sucessão inesperadamente excessiva de idas à box, a sensação de ser uma máquina velha, continuamente a avariar-se, tem-se agudizado.

Como já um dia escrevi, mamas, para mim, são apenas peças a necessitarem de recauchutagem contínua. E já nem me interessa quem é que trata das coisas, se é o cirurgião A ou o B... Tanto assim é que chego, dispo-me, mostro, eles olham ou mexem ou fazem o que lhes parece necessário e falamos como quem fala de parafusos a substituir, para se poder prolongar um pouco mais o arrastanço existencial do aparelho, uma vez que as restantes peças ainda não justificam propriamente que se desista de tentar deixá-lo andar a uso.
A última vez que fui ao médico foi a 5 deste mês, cinco meses e um dia depois do Tram Flap. Queixei-me do extremo inchaço da barriga, que me provoca dor, incómodo físico e tristeza a nível estético; queixei-me da mama imensa, retirada do abdómen, que está cada vez mais descida, quanto mais não seja pela aplicação da força da gravidade...; queixei-me do meu mal-estar geral, que me impede de trabalhar e de ser feliz. Queixei-me ali, sem roupa, em frente dele, enquanto ele me ouvia e me olhava, com a postura e o ar de quem está, mais uma vez, a condescender em ouvir as mesmas queixinhas de uma doente que devia era estar feliz porque "pode ir para uma praia ou uma piscina sem medo que lhe caia alguma coisa ao chão" (ipsis verbis). E eu fiquei calada, como quase sempre fico... Em quatro anos, ainda não aprendi a responder à letra. Já não devo aprender, portanto. Mas, depois, venho para casa lamentar o que devia ter dito e não disse...

Estava eu nua (não só da cintura para cima, pois ele também tinha a minha barriga para analisar) e tocou o telefone, que ele pediu desculpa por ter de atender, mas que atendeu sem me instruir quanto a manter-me nua ou a vestir-me. E eu ali fiquei, como estava, a ouvir uma conversa que não me dizia respeito, enquanto ele ia olhando para a minha triste figura... Eu olhava para o Pedro, quase a pedir-lhe socorro, mas ele não pôde fazer nada.

No final do telefonema, mandou-me vestir, de imediato!!! E repetiu, de novo, que ainda passou muito pouco tempo sobre a operação, a qual foi uma coisa em grande ("Tem de ver que foi operada, não foi ao cinema..." - ipsis verbis) e que eu tenho de deixar passar o tempo... Acrescentou que há senhoras que ficam com uma protuberância maior e outras com uma protuberância menor (sempre abrindo bem o 'o', a ponto de eu já nem poder com a palavra!) e que eu não me posso esquecer de que tenho uma rede dentro da barriga e que o músculo abdominal já não está lá - "pormenores" de que sua excelência nem sequer me falou antes da operação, apesar de ter tido o cuidado de me perguntar vezes sem fim se eu tinha alguma dúvida... Ora digam-me lá como é que as pessoas podem ter dúvidas sem saberem a matéria?!...

Eu só soube que a minha barriga ia ficar com a sensibilidade toda afetada, quando o senti, depois da operação, e só soube que esta operação implicava a colocação de uma rede no interior do abdómen, depois de já a ter dentro de mim. Mas, agora... não me posso esquecer de que a tenho cá!!!

E quanto à mama grande, pesada (com o dobro ou mais do tamanho da outra) e descaída, tenho de ver que assim é que ele tem margem de manobra, para trabalhar na próxima operação...

O que eu "tenho de"! O que eu devo! E os meus direitos a perceber tudo o que se passa comigo? Quem é que mos satisfaz? ("Não diga mal do que está bem feito!" - e eu já não posso ouvi-lo!)

A esmagadora maioria dos profissionais de medicina que trataram de mim durante estes quatro anos é constituída por homens. Mas que saudades eu tenho de homens! Estes não são isso nem um bocadinho... Estes são técnicos, são mecânicos, são bate-chapas, são costureiros, são especialistas em ministrar produtos para tirar a ferrugem... Ou então... são umas bestas!
Qual foi o que respeitou e valorizou a minha condição de mulher? Qual foi o que me tratou como um ser dotado de sentimentos, de inseguranças, de dúvidas, de medos? Qual foi o que se preocupou com a possibilidade de eu me sentir completamente destruída como pessoa, por exposição a um massacre contínuo?

Nesta fase da minha vida, eu não sou, de facto, mais do que uma coisa, mas uma coisa que dói. E, hoje, parti para este texto depois de ter enviado uma sms ao Pedro dizendo-lhe que sinto falta de homens na minha vida, os homens amigos, os homens colegas, os homens do convívio diário, com os quais se trabalha ou se conversa sobre qualquer assunto, os homens que nos contam uma piada e que também nos mandam um piropo, de vez em quando, os homens que nos fazem sentir bem, bonitas, interessantes, os que demonstram que nos admiram, homens esses que não põem minimamente em risco a nossa relação conjugal, pois até a refrescam. Tenho saudades de contar ao Pedro os piropos que eu recebia, e de, uma vez por outra, brincarmos aos ciúmes, por isso mesmo.

Eu não sou mulher de casa! Mas estou em casa há quatro anos. Porque não consigo estar a trabalhar. O Pedro priva com homens e mulheres diariamente, e é isso que é saudável. Eu, a partir de determinada altura, liguei-me ao Gang da Mama, e isso fez-me muito bem, a vários níveis, mas nem o facto de o assunto que nos une ser quase exclusivamente um "never ending" cancro da mama, por estarem sempre a entrar pessoas no início do processo, nem o facto de o grupo ser apenas formado por mulheres têm sido benéficos para mim.

Aqui a coisa já nem para enfeitar serve (Como se isso fosse bom!...), pois já nem há quem passe por ela, quem a veja. Aqui a coisa é até uma coisa daquelas desinteressantes, sem chama, deformada e amorfa...

sábado, 19 de novembro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Inveja é a Pior das Misérias Humanas!

Anteontem e ontem, recebi muitos mimos, que ajudaram a atenuar, pelo menos por momentos, o meu sentimento de frustração profissional e as minhas dores físicas e psicológicas advindas das várias tentativas cirúrgicas para reposição da minha integridade física pré-cancro.
Quero, portanto, agradecer a quem se sentiu impelido para me mimar, apesar de eu não me ter exposto em busca do mimo, mas sim em nome da partilha de problemas existenciais, com a qual tenho aprendido muito e que me tem feito muito bem.
Apetece-me, contudo, lamentar ("quem não se sente não é filho de boa gente"...) o facto de, a páginas tantas, me terem lançado as seguintes questões retóricas: "Mas não estás viva ? E não tens marido e quatro filhos, para amar e ser amada?" E eu imaginei logo a possibilidade de virem outras, ainda mais mesquinhas, do género: "Mas não tens casa e carro?" Ou "Mas não tens televisão e net?" Como se, na vida, nada do que se passa connosco nos devesse entristecer, por já termos algo que muitos outros não têm e gostariam de ter, ou, apenas, algo que já não é nada mau ter !... Para isto, mais valia o silêncio - foi o que senti. E logo percebi a inveja, que já tantas vezes me bateu à porta, não só por ter quatro filhos e marido, mas, especialmente, por ser muito feliz com eles. Há quem o evidencie de formas saudáveis, até dizendo francamente que eu sou uma sortuda e que também gostavam de ter quatro filhos, que coisa gira... E eu sinto-me saudavelmente orgulhosa por ser mãe de uma turminha maravilhosa, que, contudo e felizmente, não é o mesmo que ter em casa quatro jarrões de enfeite, ou seja, fico com a ideia de que há pessoas que não conseguem avaliar o que é criar quatro filhos (especialmente nos tempos que correm, pois a minha avó teve bastantes mais e tudo lhe foi, se não mais fácil, pelo menos, menos estressante.
Ora, recapitulemos, sintetizando opiniões alheias: por estar viva e ter marido e quatro filhos, eu já não devo sentir-me triste por ter tido um cancro, que originou já seis cirurgias em três anos, não tendo ainda o bisturi dado mostras de se ter quedado, para não mais me tocar...
Ora bem, a inveja nem é dos filhos e marido que eu tenho (embora isso contribua para o ponto de rebuçado...), nem é das cirurgias que me retalharam o corpo. A inveja é das atenções que eu granjeio, por uma e outra razões, e que tal gente queria mesmo era que eu não tivesse, pelo que tenta que eu deixe de ter, menosprezando os meus sentimentos, numa ânsia de encontrar opiniões concordantes...!
Como se não bastasse, houve ainda quem se tenha incomodado com o meu lamento por haver tantos falantes e escreventes da língua portuguesa que não o fazem de forma correta simplesmente por não darem valor à língua e serem de opinião que, desde que nos entendamos, qualquer forma de uso da língua (correta ou não) serve perfeitamente, e, na primeira oportunidade, tenha procurado provar a minha ignorância e manifestar a sua superioridade. Eu não queria meter-me em novelas, por isso fui apenas até ao ponto de ficar claro que não deixo os meus créditos por mãos alheias, muito concretamente quando alguém que se assume como muito conhecedora de causa até só já está é a meter os pés pelas mãos e, quanto mais alega, mais se enterra. Depois disso, retirei-me e não volto!
Os invejosos que arranjem maneira de lidar com as suas invejas, se por acaso é a mim que invejam, pois troco meu não haverá mais. Ficarão a falar sozinhos, até se enxergarem. E, se não enxergarem, pior para eles, pois da pior das misérias humanas não estarão a libertar-se!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Não há limites quando há amor! Isso é para quem não se ama!

Na sequência do post anterior e
respetivos comentários






















Não consigo ficar indiferente ao facto de saber que existem pessoas que acham que o meu marido me atura apenas porque é uma pessoa extremamente boa e não ia deixar-me nunca.

Realmente, ninguém é de ferro! Nem eu, caramba!

Algumas dessas pessoas o que sentem é inveja do meu casamento saudável; outras nunca devem ter gostado muito de mim... Azar o delas (desculpem-me a secura)!

É que nós amamo-nos, que diabo!


sábado, 8 de outubro de 2011

É tudo junto!

Juntou-se o regresso ao trabalho, após quatro anos de interregno, com a complicação abdominal pós tram flap, e com o, obviamente simultâneo, regresso às aulas dos quatro filhos, após o verão, e, mais ainda, com os 30 e tal graus atmosféricos, pouco habituais nesta época do ano, agravados, para a sensibilidade do meu corpo fragilizado, pelos afrontamentos sucessivos, que me fazem escorrer água da cabeça aos pés muitas vezes ao dia, como resultado da minha menopausa forçada e repentina. E conta ainda o peso da minha mama nova, consideravelmente maior do que a sua congénere, à espera, durante meses, de se moldar, por si, ao corpo em que foi implantada, para que se possa reduzir, aquando da futura formação de aréola e mamilo. Como conta também o facto de eu não conhecer ainda muitos dos colegas e o de a escola ser outra, o que afasta muito a minha situação de um regresso àquilo que deixei. Volto a trabalhar como professora, sim, mas a maioria daquilo que encontro é completamente diferente da maioria daquilo a que me habituei durante oito anos letivos seguidos. Não regresso a casa, de todo. E é certo que eu já considerava a minha escola como sendo a minha segunda casa...
Tudo o que me dava estabilidade se foi. E estou, aos 47 anos, a viver uma situação de novata no local de trabalho (25 anos depois de me ter estreado como professora) e até de novata no sistema, que sofreu inúmeras alterações enquanto estive ausente, sentindo-me ainda bem pior do que se de uma novata eu me tratasse, pois de mim espera-se experiência, savoir faire, capacidade de gestão do trabalho, e a frescura e a descontração aliadas a tudo isso.
Há quatro anos, eu sentia-me perfeitamente integrada, tinha já muitas provas dadas e era respeitada como profissional competente; agora, sou uma colega que anda há três anos a tentar levar um ano letivo adiante, mas nunca faz mais do que um mês, após o que contribui para a instabilidade da escola, que tem de gerir o processo da sua substituição, com tudo aquilo que ele acarreta. Há quatro anos, era uma professora da casa; agora, sou uma espécie de aleijada, que precisava de alguma ajuda para levar a sua vida profissional em frente, mas, como não tem mau aspeto (tem apenas mais doze quilos do que antes!...), não é levada a sério na sua necessidade específica e acaba por não receber qualquer ajuda (trabalhar sempre na mesma sala seria importante...).
Não há nada na lei que proteja o regresso ao trabalho de um doente oncológico, mas há vários tipos de doenças oncológicas, como há vários tipos de cancro da mama, como cada caso é um caso e cada pessoa é um ser diferente dos seres que são as outras pessoas. E algo que existe, de facto, é uma coisa chamada "autonomia das escolas", a qual tem permitido situações vantajosas do arco da velha, para pessoas não necessitadas, mas a mim nunca permitiu nada... Ou, melhor, permitiu o meu arrastanço no tempo de baixa, vivido em casa, sofrendo de solidão e em permanente acumulação de sensações de falhanço e de despréstimo.
Eu sei que era boa profissional! Mas sei também que já não acredito nas pessoas e que isso me retira a vontade de primar pelo profissionalismo, sendo que tal esforço agrava ainda mais o meu mal estar físico!
Para ajudar à minha "festa", há ainda os nódulos que descobri em mim há cerca de duas semanas, um na mama nova e outro numa virilha, os quais estão ainda longe de ser esclarecidos...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tudo isto é cancro!

Invento, diariamente, forças e sorrisos, quer para trabalhar na escola e em casa, quer para me manter presente e ativa nos tempos de lazer da família. Mas não sei até quando, pois o cansaço é extremo, por razões várias e sem que haja alguém para me acudir... Até porque há tanta gente que teve cancro há pouco tempo e já anda feliz da vida, a trabalhar e com uma genica invejável!!!... :(
São muitas as vezes em que me apetece desistir de tudo!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Coragem que Sempre Temos


A coragem nem sempre se faz ouvir.
Por vezes, coragem é a voz silenciosa,
no final do dia, dizendo:
Tentarei de novo, amanhã.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mamas "retalhadas" = Feminilidade posta em causa?

Acho que já sei uma boa (?) razão para as minhas amigas e os meus amigos em nada ligados ao cancro da mama (porque ter uma amiga que o vive(u) não é suficiente para eles se interessarem pelo assunto...) não visitarem este blogue, que eu divulguei, logo à sua nascença, a quem gostaria que o visitasse: é que eu falo de mamas como quem fala de pés calejados!
E a sensualidade que lhes é inerente, e o símbolo sexual que são?! Nada disso aqui é tratado?!
Ai não que não é!!!...
Todos sabem, com certeza, que o valor que damos a tudo na vida é muito maior quando algo ou alguém nos falta ou quando algo não está a funcionar na perfeição, com a melhor aparência, etc. É, portanto, este blogue, uma espécie de tratado sobre uma importante das facetas da sensualidade! Quantas vezes fica(ou) uma dúzia de peças de vestuário desarrumado, num monte por cima da arca do quarto, porque nada me ajuda(va) a compor o ar feminino que qualquer mulher tem direito de querer aparentar...
Felizmente, o meu marido, para além de ter acesso ao que aqui publico, também tem acesso às minhas mamas!!!...
A nossa feminilidade é muito mais posta em causa por quem nunca viu as nossas mamas em processo do que pelos nossos companheiros, que continuam sempre a olhar para elas com desejo de as acariciarem!
Não estou, obviamente, a fazer uma generalização, mas sei que muitas amigas se incluem neste meu grupo...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

'Rezas e Crenças' Versus 'Palavras de Cumplicidade' Barra 'Destino'

Fui educada no seio de uma família católica praticante, fui à missa aos domingos, no Natal, na Páscoa..., desde pequena até deixar o CNE (Corpo Nacional de Escutas), quando já era casada, pela Igreja, e já perfizera 30 anos de vida, e os meus quatro filhos foram todos batizados.
Todavia, a entrada na minha quinta década de existência, que, à partida, me prometia (pelo que se ouve dizer) os melhores anos até então, aqueles em que, ainda não sendo velha, a pessoa já tem experiência de vida suficiente para aproveitar, de uma forma sábia, o facto de estar viva , trouxe-me uma catadupa de desilusões relativamente à existência, que me desnortearam durante muito tempo. Falo de quase oito anos de aprendizagens forçadas e fortuitas, as quais provocaram mudanças radicais na minha maneira de olhar, sentir e agir sobre o mundo...
As surpresas relativamente ao conhecimento de pessoas que estavam garantidas como parte de mim, o modo como os agentes da medicina desumanizam (ou não humanizam!) a relação com os seus doentes, a intolerância de imensos seres que me rodeavam relativamente a conversas sobre o assunto 'cancro', a incredulidade de alguns relativamente ao facto de eu ter tido necessidade de estar quase três anos em casa, a impetuosidade com que muita gente faz comparações, pensando que sabe do que fala, mas sem saber... E o corpo a ser mutilado, a obrigatoriedade de lidar com essa realidade (olhar e ver, resolver problemas de vestuário de todos os tipos...), as sucessivas intervenções cirúrgicas, os pós-cirúrgicos, que nunca estão resolvidos antes de, pelo menos, seis meses decorridos, a necessidade de reinventar a relação sexual...), os tratamentos, a carecada, os efeitos secundários da químio, os efeitos secundários da rádio, os azares em cinco dos seis pós-operatórios (estou ainda a viver o mais recente desses azares), os doze quilogramas a mais, provocados pela ingestão diária do medicamento que trava a produção de estrogéneos, para prevenir uma recidiva de um cancro hormonodependente... tudo isto e, talvez, muito mais, que agora não me vem à mente, contribuiu para uma "desaprendizagem" de vida, difícil de admitir e de gerir, contribuindo, também este fator, para a depressão profunda que, felizmente, já lá vai.

A doença foi encarada por mim com a naturalidade de qualquer coisa má que nos acontece e que exige o nosso empenhamento e toda a nossa disponibilidade (aquela disponibilidade que nos obriga a encararmo-nos como o centro das nossas atenções, ficando até os filhos para o plano que for possível, em função da nossa recuperação...), para ser resolvida. Nunca pensei que iria morrer, talvez até tenha sido demasiado otimista, pois, olhando para trás, percebo que devo ter pensado que, com a mastectomia e a reconstrução imediata, usando silicone, tudo ficaria resolvido - sem ignorar a eventual necessidade de químio e rádio, claro.

Nada tem sido fácil, nestes três anos. E as fases por que passei foram muitas, incluindo seis recomeços, seis vezes que me ergui de quedas, com características idênticas, mas sempre com muitas características diferentes, também.

Neste tempo, em termos de relações humanas, tive várias experiências distintas: afastamento de pessoas de sempre, tendo, algumas delas investido em novos relacionamentos, ligação virtual e, posteriormente, real, a pessoas que desconhecia, sendo que, algumas já se foram e outras ficaram, têm estado, têm sido! E, também, pessoas que dizem que têm rezado por mim, algo que, há muitos anos não faço por ninguém, nem pelos meus filhos, quando estiveram internados, nem por mim própria, em nenhuma das minhas visitas a blocos operatórios.

Há quase uma legião de tias (minhas e do meu marido), para além da mãe e da sogra (e ainda outras pessoas) que rezam por mim há muito tempo. E eu agradeço-lhes carinhosamente, sem mais pensar no assunto. Mas a verdade é que eu entro sempre descontraída no bloco (desde o dia em que sabia que me iam cortar uma mama) sem pensar em mais nada a não ser que se faça o que tem de ser feito, e recordo todos os rápidos adormecimentos resultantes das anestesias como momentos de entrada na calma absoluta. Tanto assim é, sempre, que, se por ali eu me vier a ficar algum dia, terei deixado esta vida de uma forma desejável.

Temos, portanto, que eu não temo cirurgias em si, mas, do pós cirúrgico, só gosto dos primeiros tempos, em que o sofrimento costuma ser em maior volume, mas as atenções para com o doente, quer por parte das equipas hospitalares, quer por parte das familiares (e de amigos...) são consideravelmente apreciadas por mim.

A quem me considera "menina mimada" eu até diria que, apesar de ser mimada pelos que me amam, de facto, esse não é o mimo que se obtém quando se está doente e tratam de nós, fazendo-nos aquilo que nós costumamos ter de fazer. E isso é tão bom na doença... Isso e as palavras especiais, que certas pessoas conseguem encontrar, para nos oferecerem nesses tempos duros. Especiais, mas não lamechas; especiais, mas concretas, específicas, íntimas, de quem se preocupa em saber o que mais faz falta a quem está em sofrimento.
Essas palavras especiais eu sinto profundamente e agradeço eternamente, se me as dirigirem, sinceras, quentes... As orações das tias eu também agradeço, pois é a maneira que elas têm de me demonstrar que se preocupam comigo e que me desejam tudo de bom. Todavia, não me ligo a quaisquer palavras, sejam elas orações conhecidas ou orações espontâneas, no sentido de pensar que elas têm qualquer poder para garantirem qualquer espécie de sucesso. E foi com a minha mãe, que continua a ir à missa, ao terço, às procissões... e a rezar, que aprendi isto. Disse-me ela um dia: "Se rezar desse o resultado que nós pretendemos, o meu pai não tinha morrido quando eu ainda era jovem, pois eu rezei tanto para que Deus não o levasse..."

O que se passa comigo agora é tão simples e tão duro quanto isto: Não acredito em nada nem em ninguém (quem estiver a ler isto que me perdoe, se puder), pois nada daquilo em que me ensinaram a acreditar, nem as rezas das tias, nem as palavras que me pareceram de amizade tiveram qualquer sucesso, se pensarmos no que era pretendido. Mas, para mim, isso até é lógico, pois há algo em que creio seriamente: é que a nossa hora de partida está programada, como esteve a de chegada, por muito que se possa contrapor...

Dirão, talvez, que, se assim é, é porque acredito em alguma transcendência. Acredito, sim. Mas não sei o que é, nem me preocupo com isso. Talvez até acredite só por necessidade de satisfazer a minha curiosidade permanente em conhecer as razões de tudo e mais alguma coisa, tendo de admitir que há verdades que não consigo explicar... Acredito no Destino, portanto, e que contra ele não se luta, até porque o Destino é algo desconhecido e contra o desconhecido é difícil escolher armas adequadas...

E quanto às minhas tão amadas palavras, digo que sei lá se ainda as amo! Não consigo deixar de as utilizar, mas, se é amor o que lhes tenho, já duvido muito, pois já sofri muitos dissabores à custa da maneira como interpretaram o modo como eu as usei...

Há muito pouco tempo, uma amiga disse-me que a realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós vê, interpreta os acontecimentos... Talvez ela até tenha razão. Convirá é assumir que esse postulado, se é válido para alguém, é, necessariamente, válido para toda a gente..., nomeadamente para dois observadores de determinada circunstância.

Pensemos, então, só como exemplo, na circunstância de nos cortarem uma mama! E digamos: esta realidade não existe; o que existe é o modo como cada um de nós a vê, a sente, a interpreta, a vive!...

Curioso, não é!? Alguém pensará que a pessoa a quem levaram a mama poderá sentir este facto (se não é realidade, poderemos chamar-lhe 'facto'?!) do mesmo modo que os seus familiares, amigos, amigas, equipas médicas?! Não, pois não!? Mas deveria?! Ou é perfeitamente natural que quem mora num corpo que foi mutilado tenha uma visão desse facto consideravelmente mais sofredora do que qualquer outra pessoa, por mais chegada que seja?! E é ou não natural que precise de algum apoio extra..., nomeadamente de desabafar, e que se entristeça e se sinta sozinha e abandonada, se isso não acontecer, até porque quando esse sofrimento físico (que afeta muito a psique) não existia, essa pessoa era normalmente solicitada?!...

Rezas, crenças, palavras amigas... não são mais do que inerpretações pessoais, perspetivas individuais do que acontece ou poderá vir a acontecer! Será?!...

Já quanto a dores físicas e psicológicas sentidas pelo próprio... Bem, eu digo, já vacinada contra as pessoas que me consideram lamechas, que já sofri um bom bocado, ao ponto de me apetecer trocar o que sentia por "alguns anos de descanso eterno", como escrevi no post anterior. Mas será que isso que senti no corpo, na alma e na mente foi tudo (e ainda está a a ser) ilusão minha? A nossa vida será, afinal, uma imensa ilusão? Se o for, será para todos, não?! Ou serei eu uma ave rara?!...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Vida Não é Tudo!

Nunca quis viver a qualquer custo. Há muitas circunstâncias de vida que eu trocaria por anos de repouso eterno...
No próximo post venho pormenorizar! Inté!

domingo, 7 de agosto de 2011

EXAUSTÃO

Quando chegar a minha vez,
lembrem-se de que eu precisava mesmo de descansar
o corpo e a mente.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ultra-cansada de comparações

(Tram Flap não é igual a Apendicectomia, nem a Cirurgia da Próstata, nem a Cesariana, nem a Abdominoplastia, nem a Histerectomia...!)

Estou cansada de contar as peripécias da minha tragédia a pessoas que, pouco depois de eu abrir a boca, passam imediatamente a dizer que sabem o que me aconteceu, porque acompanharam o caso da Joaquina (tal e qual!) ou porque elas próprias fizeram uma cesariana (que eu nunca fiz...) !...

As intervenções medicamente assistidas a que eu já me submeti, ao longo da vida, têm os seguintes nomes, por ordem de ocorrência:

amigdalectomia - 1968
apendicectomia -1989
parto normal, com epidural - 1995
parto normal, com epidural - 1997
2 amniocenteses - 1998
2 partos normais, com epidural - 1999
mastectomia e mamoplastia para colocação de expansor - 2008
mamoplastia, de urgência, para troca de expansor rebentado - 2008
mastopexia e mamoplastia para retirada de expansor e colocação de prótese - 2009
mastopexia e mamoplastia para recolha de retalho e colocação de aréola - 2010
histerectomia e anexectomia bilateral - 2011
tram flap - 2011

Uma realidade sobre a qual não posso pronunciar-me com conhecimento de causa é a cesariana, mas quase tenho pena de não ter essa sabedoria, pois já tanta gente comparou o meu tram flap com a sua cesariana ou com a cesariana de outrem...
Genericamente, as pessoas têm tendência a fazer comparações e a fazê-las de uma forma impensada, pois é comum a noção de que já se viu e ouviu muito, pelo que... já se sabe do assunto.

Eu sei que, provavelmente, eu agiria do mesmo modo, se nunca tivesse sentido agressões físicas mesmo incomodativas, mas já que é impossível chegar a qualquer certeza quanto a isso, gostava mesmo que as pessoas que me interrogam o fizessem porque querem mesmo saber e não para me mostrarem que já têm experiência na matéria, seja por que forma for.

O meu cancro não me parece estar a tornar-me a pessoa melhor que eu me convenci que iria ser. Porque estou intolerante à intolerância dos outros: os que não querem falar; os que me abandonaram; os que sabem bem (mal) o que eu passei e estou a passar...

Há muita gente para quem os cancros são todos iguais e as cirurgias, com os seus períodos pós-cirúrgicos, também. Perante isto, eu sinto-me não mais do que um objeto, igual a tantos outros, de quem já todos sabem tudo.
E mais: cirurgias e pós-operatórios (e até químios e rádios) são banalidades da existência!...

Bem, vivo neste momento o pós tram flap, e, daqui a alguns meses, farei a aréola e o mamilo, a partir da pele da parte interna da coxa, junto à virilha.
Neste momento, o aspeto da minha mama é o que se vê na foto; uso uma cinta muito apertada, igual à da imagem (por 2 meses, de dia e de noite) e tenho uma cicatriz como a apresentada, com 54 cm. O meu umbigo não é o mesmo (foi-se a marca da ligação física que tive com a minha mãe), foi construído.

A mama nova saiu toda da barriga e o músculo abdominal subiu, por dentro, até à mama, sendo ele que a alimenta. No lugar dele, na zona abdominal, está uma rede, para im-
pedir que os órgãos se atrapalhem na escolha das suas posições corretas...

E agora vou referir aquele aspeto em que alguém que esteja a ter pachorra para ler isto já estará a pensar: "Mas porque é que ela expõe isto tudo?"
Exponho porque preciso, criando a ilusão de que me leem e me entendem, com intenção de dividir todos os tipos de dor que tenho tido nestes três anos e meio, fingindo acreditar que isto é partilhar a vida e, assim, torná-la menos dura; exponho por absoluta necessidade de verbalizar aquilo que as pessoas me mostram que é maçador quando ouvem; exponho, talvez, com a mesma necessidade que outras pessoas têm para esconder, calar.

A Educação para a Saúde devia conter uma unidade de Educação para a Doença, onde se aprendesse, em primeiro lugar, que cada doente é um ser humano diferente dos outros e que devemos saber como é que ele prefere ser tratado por nós no seu período mau...

Para finalizar, refiro que, de todos os "pós" que já vivi, este é o que me está a custar mais, pela violência da intervenção abdominal, que deixa no corpo a sensação de que nos encheram excessivamente, como se faz com uma mala (apesar de que o que aconteceu foi esvaziarem) e forçaram a pouco elástica tampa da mala a fechar...

Quanto à mama, não há dor nem desconforto. E foi-se o horrível mal-estar que tive durante 3 anos!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O nosso corpo como matéria-prima


Um dia, a minha prima patologista disse-me que não comia fígado nem rim, pois, para ela, ambos constituíam material de trabalho.
Neste momento da minha vida, mamas são materiais de modelagem... ou de corte e costura :( Nada mais!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Two Breasts, Two Areolas and Two Nipples

This is what we all want and need
- to feel like women again!

Com toda a sinceridade, tenho alguma dificuldade em aceitar a relutância de certas pessoas no que toca a conversar sobre qualquer assunto relacionado com o cancro da mama.
Esta minha história vai com três anos e meio, e a falta de disponibilidade demonstrada por várias pessoas do meu passado para me ouvirem e para dizerem de sua justiça tem-me feito sentir uma criatura solitária, apesar de aqueles que sempre estão prontos para mim serem do melhor que há.
Se este problema atingir algumas das pessoas que nunca "conseguiram" ouvir-me, o que acontecerá a seguir? Acabará o mundo, para elas? Fechar-se-ão num quarto, para não verem ninguém, e recusarão qualquer forma de comunicação? Deixar-se-ão morrer, sem lutarem pela vida? Ou terão necessidade de falar com o mundo, especialmente, talvez, com quem já passou pelo mesmo?
Na possibilidade de a reação ser a enunciada por mim em último lugar, o que sentirão essas pessoas se o mundo não se mostrar recetivo a essas suas necessidades?!... Julgo que bem não se sentirão!!!
Para início de enunciação de princípio, penso que todas as pessoas deviam olhar para qualquer doente como alguém que sofre de algo de que elas poderão vir a sofrer. Continuando, defendo que todos devemos apelar à nossa capacidade de abstração, esforçando-nos por nos colocarmos "na pele" dos que sofrem a nosso lado, por forma a conseguirmos agir com eles como gostaríamos que agissem connosco, se fôssemos nós os enfermos.
Concluindo, não posso deixar de realçar a importância da procura do conhecimento exato daquilo que o doente gostaria que fizessem (ou não fizessem) por si, para que se possa agir em conformidade.

Ora detenhamo-nos só um pouco no meu caso de cancro: notícia; comunicação da notícia aos pais, aos filhos pequenos...; mastectomia, mais cinco cirurgias: 1. por rompimento do expansor, quando picada para me extraírem o líquido de um seroma; 2. para troca do expansor por uma prótese de silicone e redução da mama contralateral; 3. para colher um pouco de tecido na mama contralateral e formar uma aréola na mama nova, para que pudesse ser tatuada; 4. histerectomia, devida aos efeitos secundários do Tamoxifeno nos ovários, no útero e no colo do útero; 5. Tram Flap, para acabar de vez com tudo o que tinha sido feito anteriormente e me causava aperto, dor, mal-estar e falta de qualidade de vida, mas muita gente considerava ser produto da minha mente stressada e ansiosa; quimioterapia; radioterapia; fisioterapia; depressão e tratamento psiquiátrico; hidroginástica; consultas de psicologia e hipnose, para tentar aprender a viver com dor; férias familiares em casa...
Não haverá aqui matéria suficiente para necessidade de conversar? Só encontrei essa possibilidade nas meninas que já passaram por algo semelhante, as quais encontrei via net e a quem já me sinto ligada de uma forma muito especial. Contudo, a falta de "colo" das minhas pessoas de sempre e das outras de há muitos anos deixou-me à nora, sem referências, e fez com que houvesse uma grande transformação na minha essência.

Neste momento, falta-me recuperar do Tram Flap e fazer a aréola e o mamilo. Ai, mas que impressão faz a tanta gente falar (ou até ler) sobre estas questões!...
Mas nós, as "ganguinhas da mama" estamos à vontade até para mostrar...
"Naturalmente" - dirão alguns! Claro - digo eu. Mas não é natural não haver esforço da parte de amigos..., pois amigos são pessoas que se revelam nas ocasiões difíceis, procurando transcender-se nas suas dificuldades, se tal for necessário para ajudar... Amigos não podem ser, seguramente, aqueles que nos dizem que nós temos de pensar que não somos os únicos a sofrer e que todas as pessoas têm problemas, coisas que nem nos passam pela cabeça. Não passarão, talvez, mas, sem que no-los revelem, não podemos adivinhá-los, muito menos ajudar... E por que é que há-de ser praticamente um crime demonstrar as nossas fragilidades a quem pensamos ser nosso amigo?!... :(

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Almas de Pedra


Será despeito, será ciúme? É inveja, certamente!

Depois de duas tentativas frustradas de regresso ao trabalho, com cerca de dois meses cumpridos, nos passados setembro/outubro de 2009 e de 2010, tenciono apresentar-me no dia um do próximo mês nove, para abraçar de novo a minha profissão, do mesmo modo entusiasmado e empreendedor que imprimi à minha prestação como professora, a partir de 14 de outubro de 1986.
Estou, portanto, a viver um tempo de contagem decrescente, relativamente a um longo período de baixa, recheada de peripécias e de muitos momentos difíceis a vários níveis, nomeadamente no que concerne a uma solidão opressiva e depressiva.
Não estou, contudo, a "gozar os últimos cartuchos", como parece a algumas pessoas, pois nunca ninguém me ofereceu tal coisa, entendendo 'cartuchos' como doses de doçura e "dolce fare nienti".
De facto, vivi um tempo (alguns meses) em que não fiz absolutamente nada (eu, que sou "tetramãe"!...), mas esses foram, seguramente, os piores dias da minha vida, amargamente consciente de tudo o que devia fazer e sem capacidade para dar um passo, nem que fosse apenas para passar um pano numa superfície com pó, ou para fazer um telefonema, ou para me sentar em frente da televisão... Foram sucessivas e infindáveis doses de 24 horas de cama, com intervalos para higiene e alimentação, até ao ponto de a própria higiene ser, para mim, uma obrigação irritante!...
Desses tempos de choro e de nula vontade de viver guardo uma recordação muito viva, que me faz, agora, querer, principalmente, ter forças para não me voltar a deixar cair no abismo.
E cá estou eu, renovando a minha maneira de pensar, de agir, de escrever, de vestir e de me arranjar, até, por forma a conseguir obter, dos espelhos que refletem o meu corpo e a minha alma, imagens que me sejam agradáveis e me ajudem a rever-me como um ser social, algo que sofreu um longo interregno.
O 'entretanto' que agora se aproxima do fim foi também um período de tomada de consciência de que aqueles de nós que estão profissionalmente ativos olham para quem claudicou sob algumas perspetivas muito duras e difíceis de aceitar por estes últimos. Refiro-me concretamente às repetidas abordagens ao meu aspeto, por parte de quem me via de tempos a tempos. Para os outros, eu estive sempre com ótima cara, mas, curiosamente, também sempre muito melhor do que no encontro anterior, aquele em que me acharam pálida e olheirenta... E, a partir de determinada altura, o meu bom ar, no olhar dos outros, já vigorava há tanto tempo que começaram a surgir comentários jocosos, apontando a minha eventual preguicite, ou 'lambonice', arrastada no aproveitamento desnecessário e desonesto do período de baixa permitido por lei aos doentes oncológicos (período esse que eu não me atreveria a esgotar inadvertidamente, pois é concedido apenas uma vez na vida!).
Foi sempre demasiado penoso para mim ter de me "justificar", como se estivesse a agir fora da lei ou mesmo fora do bom senso. Fartei-me, literalmente, de explicar a dor, o terrível desconforto, o aperto constante, provocados por uma mama que fica melhor se nomeada como 'uma pedra ao peito, dentro de uma armadura de ferro'! E, apesar do meu esforço contrariado mas empenhado, havia quem nem se detivesse a ouvir-me até ao fim..., pois era tão visivelmente evidente que eu estava boa!...
Não ter conseguido aguentar-me a trabalhar, em ambos os anos em que tentei, deveu-se à dolorosa circunstância de eu ter uma prótese de silicone, fibrosada e encapsulada, por baixo da pele e do músculo grande peitoral, os quais, na ausência de qualquer tecido mamário, foram submetidos a 30 tratamentos de radioterapia. A fibrose e a cápsula que se formaram à volta da minha prótese eram do conhecimento do meu cirurgião plástico do IPO, desde a primeira consulta do pós-operatório da minha terceira cirurgia, mas esta situação foi sendo sucessivamente ignorada por ele, que alegou sempre que o meu problema era psicológico!
Os movimentos do tronco, o frio, o stress... fazem contrair-se uma zona já demasiado contraída, e quem tem de aguentar esse aperto sente-se, por vezes, próximo da loucura e, muitas delas, desejando o alívio oferecido pela morte! (É que a mama não sai, para aliviar, quando se chega a casa, como sai o calçado que magoou um dia inteiro ou a dentadura postiça, que se atira irritadamente para um copo...) E isto em momentos em que, ao redor, há quem vá pensando que até acaba por ser bom ter um cancro, desde que ele fique controlado, pois essa é uma maneira de arranjar uns anos de férias à conta!...
Fiz fisioterapia, hidroginástica e massagens caseiras; e tentei aprender a suportar a dor, através de hipnose e técnicas de relaxamento, com uma psicóloga. Nadei algumas vezes, mas era como se levasse muitos quilos ao peito, a puxarem-me para baixo... E sempre que falhava uma sessão de alguma das terapias sentia uma culpa esmagadora, pois já tinham passado anos sobre a primeira cirurgia e todos me diziam que, se quisesse aliviar um pouco a dor, teria de cumprir um programa diário de terapias para o resto da vida...
Valeu-me ter conhecido uma boa série de meninas operadas às mamas, devido a cancro, e com reconstrução, para perceber que andavam a enganar-me (uns sem culpa, mas outros cheios dela!), pois, num universo de cerca de 70 mulheres que sofreram ou sofrem de cancro da mama, só uma revelou dores do género das minhas, eventualmente por ser excessivamente magra, o que não é , de todo, o meu caso. Relativamente à reconstrução, conheço de tudo, em termos de satisfação pessoal, mas tudo se relaciona essencialmente com a questão estética. Há reconstruções verdadeiramente cinco estrelas, em que a nova mama quase não se distingue da natural, mas também há algumas aberrações, e eu encaixo-me mais nesta linha, pois, com o tempo, fui sofrendo algumas intervenções desnecessárias (nomeadamente aquela em que me reduziram a mama contralateral, para me colocarem uma aréola de pele sã na mama nova, com o argumento de que isso era necessário para que a tatuagem pegasse, pois a minha pele não deixaria que isso acontecesse, por ser irradiada...) e a prótese foi-se mexendo, espalmando e comprimindo, contribuindo para que aquilo que devia parecer uma mama tenha ganho um aspeto muito difícil de catalogar!
Eu, no entanto, sempre com aquela minha boa cara..., aquela que muitos me dizem que tenho a toda a hora, mas só porque não dá trabalho falar, todos gostam; dá é trabalho ouvir, e, se me escutassem mesmo, talvez vissem cansaço ou mal-estar nos meus olhos, e, assim, conseguissem oferecer-me algumas palavras de conforto!!!
Outra razão pela qual eu não tive sucesso nas minhas tentativas de voltar a trabalhar foi, por um lado, a falta de suporte legal para me permitirem um regresso gradual, e, por outro, a falta de sensibilidade dos meus superiores hierárquicos, que não procuraram usar a sua autonomia em prol de uma garantia de condições propícias ao retomar de uma rotina que fora abruptamente cortada um ano antes (da primeira vez) e dois anos antes (da segunda), por uma notícia de cancro, com todas as consequências que daí advêm. Assim me tivessem permitido começar com menos e ir aumentando o volume de trabalho e eu já teria lecionado durante dois anos, o que teria sido favorável a ambas as partes. Como as coisas foram feitas, o Estado tem gasto mesmo muito dinheiro, por eu ter tido um cancro, o Estado que, também, não providenciou para que eu não chegasse ao cancro, pois fui-me arrastando durante um ano e meio com corpos estranhos na mama, sem que os médicos tenham pedido um exame mais eficaz no diagnóstico do que a mamografia. Felizmente, ainda fui a tempo de erradicar o cancro (o que, todavia, não é linear...), mas já não fui a tempo de poupar a minha mama, insubstituível, faça eu o que fizer - como até vai acontecer!
Até hoje, felizmente, eu não tenho sido um caso mau de cancro, mas convinha que os que me rodeiam percebessem de uma vez por todas que cada cancro da mama é um cancro diferente, como cada pessoa é distinta de todas as outras, e também que o cancro não é uma doença, mas um conjunto de doenças, e cada mulher contrai as que lhe estão destinadas, nem mais nem menos. Eu contraí um carcinoma ductal invasivo. Seguiram-se complicações inflamatórias, fibrose na mama reconstruída, acompanhada de dor limitadora, a qual se fez sentir logo na fase do expansor e originou uma depressão. E vieram depois, por causa da medicação (Tamoxifeno), os doze quilos a mais, os problemas no útero e nos ovários, que me obrigaram à histerectomia e, à conta dela, à menopausa repentina e precoce, que me tem perturbado 24 sobre 24 horas, com afrontamentos que passam do terrível calor a suores gelados, dos pés até à cabeça ou vice-versa, nem sei...
E, neste momento, apesar de estar batida em cirurgias, a proximidade da sexta em apenas três anos está a provocar-me uma ansiedade que não era costumeira e já desencadeou (digo eu, pois o médico diz que a culpa pode ser duma bactéria bandida ou da demasiada acidez dos sucos gástricos) por aqui uma úlcera gástrica que espero resolver antes da operação.
Mas, para além da dor física, agora também no estômago, continuam os comentários pouco felizes por parte de pessoas que comigo se encontram fortuitamente. Anteontem, disse a uma colega da minha escola que, em Setembro, lá me encontrarei. E ela retorquiu, perguntando "E é para ficares o ano inteiro?" E lá me senti eu a procurar uma resposta que justificasse o facto de não ter conseguido antes... em vez de lhe atirar logo "Isso é que não posso garantir, pois tanto eu como tu podemos morrer ainda hoje!" Podia ter-me dito que eu era bem-vinda, por exemplo, mas parece que isso não é para mim!...

Pois é, aprendi muito nestes três anos. Sou agora mais sábia. Mas dispensava bem ter percebido que há pessoas que se sentiram ciumentas e outras que tiveram inveja das atenções que ainda outras me dispensaram.
Esta não é, contudo, uma triste verdade só minha. Sei que muitas das minhas companheiras de infortúnio tiveram também outro infortúnio, procedente do primeiro e que consistiu na perda de amigos que não aguentaram o protagonismo de uma mulher a lutar contra um cancro na mama!

É a vida!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Acentuada Assimetria Volumétrica

Experimentei o meu vestido novo, de um florido 'vintage'. Estava nos últimos preparativos da indumentária familiar, para irmos todos ao batizado. À Maria, faltavam umas meias para ténis; ao Quico, o gel para o cabelo; ao Miguel e ao Tiago, uma passadela a ferro nos calções; ao papá, baterias carregadas para as câmeras; e a mim, faltava um sutiã de cruzar atrás.
Ainda pensei em descoser as alças de um dos sutiãs que tinha na gaveta e voltar a cosê-las cruzadas, só para não ter de sair, mas o Pedro convenceu-me a ir tomar o ar do fim da tarde, e podia até procurar a flor para o cabelo que eu tanto desejava havia dias.
Intimissimi, Triumph, Women's Secret..., entrei, experimentei, vesti e despi, transpirei, quase desisti... E eu que nem preciso de sutiãs, logo agora, a menos de um mês de mudar de mamas!...
Os sutiãs de cruzar têm todos aro e almofada, e formam, por isso, uma espécie de concha semi-rígida na copa. E as minhas mamas, de tão desiguais, não admitem copas em concha, sob pena de, ao baixar-me ligeiramente, a copa esquerda ficar naturalmente cheia, enquanto a direita fica notoriamente vazia.
Ainda maldisse o médico que assim me deixou e não mais quis saber de mim, ainda me escorreram duas lágrimas que nasceram grossas, da acumulação provocada pela tentativa de retenção...
E acabei por comprar um sutiã sem aros nem almofadas, cujas alças não cruzam. Amanhã descoso-as cuidadosamente e volto a cosê-las. Cruzadas!