Dedico e dirijo este blogue a todos aqueles que tiverem passado (ou estiverem a passar) por histórias de cancros, quer como protagonistas, quer no papel de acompanhantes na luta contra a doença, mas espero por cá encontrar qualquer contributo que qualquer um considere válido.
A intenção principal é trocar experiências de forma direta e sincera, sem necessidade de qualquer apoio no escudo da força constante e do pensamento sempre positivo, que tantas vezes não estão presentes, mas parece haver uma imposição social para que assim seja...
Sejam bem-vindos! E divulguem este blogue!

Por aqui, discorre-se sobre:

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riscos marcantes

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No dia 11.1.11, este blogue passou a ser escrito à luz do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Com Estímulos e Sem Eles

Receber uma notícia de cancro foi, para mim, a certeza imediata de que a parte da minha vida já vivida ficaria, a partir de então, em suspenso, e a nova parte se iniciava nesse instante (e não daí a fosse quanto tempo fosse), como quem acaba de se atirar de um avião, com um pára-quedas para fazer accionar na altura exacta.
Foi assim que me senti. Estimulada para agir da melhor forma em todos os momentos necessários, uma vez que do avião eu já fora atirada...
O que se seguiu foram consultas e exames vários, três cirurgias, seis sessões de quimioterapia, vinte e cinco de radioterapia e uma carecada. E eu sempre "a bombar", positiva, empreendedora, confiante num final de alívio daí a muitos meses.
Até que, por falta de aconselhamento, fiquei simplesmente em casa, com a minha dor, a qual eu, por iniciativa própria, considerei que poderia ser aliviada com hidroginástica. (Nenhum dos médicos da equipa que me segue me aconselhou a fazer qualquer espécie de exercício nem a ter acompanhamento psicológico ou psiquiátrico - talvez pela minha inconveniente aparência de super-mulher cujas palavras de fraqueza parece nunca serem acreditadas.) Todavia, a hidroginástica, por si só, não deu conta da minha dor, que foi apenas física até se perceber que tinha ganho um novo estatuto e já era também psicológica.
Um dos médicos em questão percebeu isso já muito tarde, quando eu lhe transmiti que não queria viver com uma dor assim para o resto da vida e que, portanto, preferia abdicar da minha reconstrução, desfazer o que estava feito e passar a usar uma prótese externa. Fui, nesse dia, "encomendada" para a fisiatria e para a psiquiatria, algo a que eu deveria ter tido acesso desde o início, mas ninguém me disse que me iria fazer falta!
Que estava eu a fazer em casa com uma dor? À espera que os meus tecidos cedessem, sem estimulação, o suficiente para que se pudesse concluir o processo de reconstrução, repuxando pele para formar o mamilo, à volta do qual seria tatuada a aréola? Nunca lá chegaria... O "sítio" a que cheguei tem o nome de 'depressão reactiva', por falta de estímulos! Tivessem-me marcado os trabalhos e eu tê-los-ia realizado todos, sempre com a noção de que estava a caminhar para me sentir melhor. Escusava de ter chegado a sentir-me uma coisa, um jarrão dentro de uma casa, que ali está sempre, enquanto os indivíduos do lar entram e saem para cumprimento de obrigações.
A partir do dia em que afirmei preferir abdicar da minha "mama", voltei a reagir, mas a verdade é que, depois de se ter ido ao fundo, a subida custa a conseguir e todo o processo é muito mais lento do que se não tivéssemos conhecido as profundezas.
A fisioterapeuta pegou num bloco imóvel (que hoje já se aperta) e a psiquiatra acolheu uma pessoa sem vontade (que hoje já retomou algum do seu sentido de humor), a quem, para além da medicação que perscreveu, aconselhou um tratamento da dor por hipnoterapia, ao cuidado de uma psicóloga.
São estes os meus novos estímulos. Sem estímulos, definho. Infelicidade a minha, mas é assim: por muito difícil que seja aquilo que me pedem, a verdade é que preciso que exijam de mim, que me solicitem, que me desafiem, no fundo, para eu acreditar que vale a pena dar, que valho alguma coisa, que sou útil...

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