.bmp)
(Pormenor de tela de Victor Costa)
À espera da terceira intervenção cirúrgica necessária ao processo de "tirar mama verdadeira; formar mama inventada" (sem contar com aquela operação de urgência por se ter derramado por baixo da pele o líquido do expansor - pois, com essa, são quatro), tenho sentido alguma ansiedade.
É que quatro cirurgias às mamas em dois anos, todas com anestesia geral e já com a experiência acumulada em cada uma delas... era preferível não!
A próxima é, como já por aqui fui anunciando, para inventar um mamilo, por repuxamento da pele, e para tatuar uma aréola. Isto na "mama inventada". Mas a mama natural e saudável (espero!) vai também novamente à faca - mais uma vez para acertar tamanhos e formatos, para equilibrar.
Por esta não esperava eu. Mas a verdade é que ando a tomar medicação que engorda... E, quando uma mulher engorda, as suas mamas ficam maiores. Ora, eu só tenho uma mama para crescer (é preciso não esquecer que na invenção que mora em mim do lado direito do peito há zero por cento de tecido mamário!), pelo que me encontro, neste momento, em desequilíbrio mamário bastante maior do que o natural (todos sabemos que de um lado de nós não há igualdade absoluta relativamente ao que temos do outro lado, mas as diferenças só são verdadeiramente conhecidas pelo próprio, o que não é o meu caso!). O meu desequilíbrio sofreu correcção logo na primeira operação, pois, ficando a direita mais pequena e subida, era inevitável o acerto. Agora fico a pensar no que será o resto da minha existência (na melhor das hipóteses, ou seja, não sendo vítima de nenhuma recidiva), quanto aos desequilíbrios, pois, não estando a questão de manter ou aumentar o peso inteiramente sob o meu controlo, às tantas já só saio equilibrada de casa se usar uma boa porção de algodão em rama do lado direito...
Ora bem, se durante o meu estado de vigília nem me tenho aborrecido muito com esta realidade, pois a dor continua a ser a minha principal arrelia, a verdade é que, enquanto durmo, já fui visitada, por três vezes, com a adesão a um tratamento diário, por via oral (uma simples cápsula engolida ao pequeno-almoço) que tem o milagroso efeito de fazer crescer um novo mamilo. E, à medida que ele vai surgindo, eu vou passando pelo espelho, saudando, maravilhada, o crescimento natural, em mim, de uma parte do meu corpo que me foi roubada, porque teve de ser, mas cuja falta eu ainda não consegui aceitar.
No meu novo sonho recorrente (que acontece num período em que espero que me chamem para a cirurgia, mas sem saber se é hoje ou daqui a vários meses...), eu já não preciso de voltar à faca; não vai mais ser necessário darem-me alta com drenos nem retirarem-me os drenos aos puxões, por já estarem "colados" aos tecidos; e eu não vou precisar, pela quarta vez, dos tradicionais seis meses de recuperação de uma cirurgia normal.
No meu sonho, eu sorrio ao espelho, percebendo que o meu novo mamilo vai, lenta mas eficazmente, restituindo integridade à minha mama agora escorrida...
No meu sonho, eu sinto-me feliz por a medicina ter chegado tão longe, em tempo útil para mim.
Mas, como aquilo sobre o qual escrevo é um sonho do sono, chega sempre a hora em que acordo e experimento uma sensação de revolta exactamente por ter sonhado o que sonhei. É como se alguém andasse a enganar-me, a brincar às escondidas comigo, iludindo-me com a possibilidade, para, logo a seguir, maquiavelicamente, me provar que eu não estou mais do que alucinada.