
Minhas queridas guerreiras
Quando eu tinha expansor (durante 15 meses), aguentava a dor por acção de um mecanismo psicológico que me animava, pois eu sentia-me em processo, em curso, até ao dia em que uma nova intervenção cirúrgica me trouxesse o alívio, ao efectuar-se a troca do balão carregado de soro fisiológico pela massa de silicone. Aguentava porque 'aguentar' aguentamos nós tudo, mas dormir de lado era mentira, emocionar-me era um tormento, sentir uma brisa fresca era o diabo..., porque sobre o expansor estava a pele e o músculo peitoral, ambos irradiados, sem qualquer intenção de se distenderem sequer o suficiente para que não me doesse na inspiração e expiração, quanto mais no espirro, quanto mais em qualquer esforço físico, quanto mais no amor...
Ninguém diz estas coisas! Mas a verdade é que é preciso dar a volta ao mundo muitas vezes para recuperar bens essenciais à sobrevivência!!!
E quando veio a nova cirurgia, não aconteceu alívio nenhum. Ficou tudo exactamente na mesma em termos de dor. Um dia destes passarei para este blogue alguns posts que tenho noutro sobre a hipnose que andei a fazer, para tentar livrar-me da pedra no meu peito. É exactamente como vivo. Com uma pedra ao peito. E quando chego a casa, não posso tirá-la e largá-la em cima da mesa pelo menos até ao dia seguinte.
Um dia, no Verão passado, num fim de tarde gostoso, à beira de uma piscina particular, dei umas braçadas de bruços, com a minha pedra (grande) ao peito. E logo de seguida, uma amiga que fizera uma tumorectomia disse: - Agora vou eu mostrar-vos como se nada. - E nadou, toda estilosa, e, para quem viu, o que ela tivera fora um cancro na mama (como eu, que fiz mastectomia e tenho o maldito objecto estranho a magoar-me porque não gostou dos raios) e um ano depois de mim... E eu senti-me inferior e triste, só mais tarde percebi que até fiquei com um pouco de raiva, mesmo sem nada dizer...
Vocês nunca tiveram dias de raiva, contida mas...? É que eu nunca tive ninguém que soubesse ouvir-me e agora apetece-me agarrar-me a vocês.
Desculpem-me. Eu sei que o discurso até está desconexo...
Há maneiras de me doer menos, há. Não posso ter uma vida de emoções e de stress (portanto não sei como é que vou viver...) e tenho de fazer ginástica diariamente até ao fim dos meus dias. Caso contrário, atrofia tudo e atrofio eu.
P.S. Já sei que vão achar-me uma queixinhas, mas com isso posso eu bem; andei mal foi com o silêncio de muita gente.